Crônica de Natal,
Uma realidade atravessada pelo fantástico
Escritora e roteirista gaúcha narra uma noite de Natal típica com sua família
19dez2025Durante muitos anos não entendi que o Natal da minha família, na zona rural de uma cidade próxima à fronteira com a Argentina, era um Natal que seguia o andar dos animais, a luminosidade do céu que nunca deixa a noite escura por causa do seu enxame de estrelas. Um Natal marcado pelo silêncio das ausências — dos que se foram, mas permanecem — e pela impressão inarredável dos corpos, dos sorrisos e das lágrimas que moldaram aquele lugar. Um Natal suspenso pelo vento, seguido da brisa quente, mansa e ininterrupta, típica do verão que só acontece em dezembro.
Há quinze anos, uma presença nova passou a acompanhar nossa família nessa data: a do Paulo Scott, trazendo seu tempo Iroko para junto da reza luterana que antecede a ceia e que meu pai sempre conduz, de mãos dadas ao redor da mesa simples, de madeira pintada de bordô, colocada no gramado. É quando algo raro acontece, como uma realidade atravessada pelo fantástico: nossos olhos se enchem d’água, sentamos entre as distâncias que o ano, ou talvez a vida, impôs, e, naqueles instantes, renovamos como família, mesmo sabendo que podemos nos perder novamente dali a alguns meses.
Quem sabe isso seja o que chamamos, sem saber, de Espírito de Natal.
Quem sabe seja a Fé, não a que se explica, mas a que apenas acontece.
