Roberto, pai de Lilian Sais, num campo de futebol (Acervo pessoal)

Crônica de Futebol,

Entre memórias e partidas

Meu pai nunca falou comigo sobre a vida, o amor, a morte, seus medos, sexo ou fracassos; em vez disso, falava sobre futebol

09jun2026 | Edição #107

O ano é 1950. Ele tem dois anos de idade, mede cerca de noventa centímetros, está vestindo um uniforme do Palmeiras, a perna direita levemente dobrada, o pé apoiado na bola de futebol, o rosto um pouco virado para o lado, os olhos na direção do horizonte.

Na foto, ele já era o Roberto, mas ainda não era meu pai. Não sei se ele já assistia a jogos de futebol, nem se essa foto foi tirada antes ou depois da Copa do Mundo de 1950, que terminou no dia 16 de julho, na final em que o Uruguai venceu o Brasil de virada, por 2 a 1, em pleno Maracanã.

Eu nasceria trinta e cinco anos depois daquele jogo, também em um 16 de julho. Demorou um pouco até descobrirmos que eu era terrivelmente míope. Sempre que tento puxar da memória minhas primeiras lembranças, penso nos momentos em que os jogos de futebol passavam na TV de tubo, eu e meu pai sentados, eu geralmente no chão, bem perto da tela, ele em uma cadeira verde e antiga, um pouco atrás de mim. 

Roberto, pai de Lilian Sais, com a bola no pé na infância (Acervo pessoal)

Roberto, quando já era meu pai, era silencioso e elíptico em relação aos problemas que tínhamos em casa, jamais falava sobre o que estava sentindo, também nunca me perguntava como eu me sentia. Por outro lado — só me dou conta agora, escrevendo este texto —, ele se tornava um grande contador de histórias quando falava sobre o passado. Talvez isso se devesse ao fato de que as grandes vitórias, aquelas das quais ele se orgulhava, estavam lá atrás. Meu pai gostava de vitórias. Seus assuntos prediletos eram as grandes vendas que ele fez quando era mais jovem e as grandes vitórias do Palmeiras e da Seleção em jogos épicos que ele viu. 

Meu pai nunca falou comigo sobre a vida, o amor, a morte, seus medos, sexo, fracassos ou qualquer outro assunto desses que, juntos, resumem, em poucas palavras, boa parte dos temas de que se ocupa a literatura. Também nunca me deu um conselho direto sobre nada. Em vez disso, falava comigo sobre futebol. 

Da esquerda para a direita: Fernanda, irmã mais velha de Lilian, Roberto e Lilian durante a infância (Acervo pessoal)

Jogador de futebol tem que jogar de cabeça erguida, olhar para a frente, não para a bola. A bola, sinceramente, ele tem que saber onde está. O que importa no esporte não são as regras, mas sim o espírito das regras. Não dá para confiar em goleiro que tenta adivinhar o canto onde o batedor do pênalti vai chutar. Essas, como tantas outras frases que ele costumava dizer enquanto assistíamos aos jogos, de algum modo soavam para mim como conselhos cifrados: era como se, ao falar do jogo, ele estivesse me falando da vida.

Quando eu disse que ia me mudar para São Paulo para estudar letras, a única coisa que meu pai me disse foi: “Eu nunca li um livro na minha vida, filha”. Embora fizesse palavras-cruzadas como ninguém, ele só estudou até a quarta série do primário (hoje chamado de Ensino Fundamental 1). Saí de casa com uma mochila com roupas, uma mala pequena e alguns poucos livros. Treze anos depois, defendi meu doutorado em letras clássicas, sobre Homero, e percebi que meu maior desejo era me tornar escritora. Já estávamos em 2018 quando lancei meu primeiro livro de poemas. 

Nessa época, via pouco o meu pai. Nos telefonemas, que ainda eram diários, ele seguia me falando sobre futebol, os jogos a que havia assistido, o quanto gostava ou não gostava de algum jogador, técnico ou comentarista esportivo. Eu estava imersa nos estudos de poesia contemporânea e não tinha mais televisão em casa, mas gostava de ouvi-lo falar sobre as partidas e me atualizar sobre o Campeonato Brasileiro e a Libertadores.

Meu pai falava sobre futebol com a mesma paixão com que, naquele momento, eu falava sobre literatura. No ano em que ele nos deixou, eu pressentia que ele não estava muito bem; cheguei a tangenciar o assunto algumas vezes e ele sempre me respondia com frases como “Estou bem, sim, o que me deixa nervoso é como pagam pau para esse Abel, ele é muito superestimado, olha esse elenco que o Palmeiras tem hoje”. 

Enquanto assistíamos aos jogos, as frases dele soavam para mim como conselhos cifrados

Meu pai era um palmeirense crítico, e seu maior ídolo na história do time foi o Ademir da Guia. Eu sabia disso, já tinha inclusive mostrado para ele lances icônicos do Ademir disponíveis no YouTube. Ele sempre dava um sorriso triste que demorei a entender; só me dei conta quando, numa dessas conversas em que meu pai falava sobre como seu ídolo parecia jogar de terno e gravata, ele soltou: “O Ademir foi um grande injustiçado. É um crime ele não ter se firmado na Seleção”.

*

O ano é 2022. Meu pai tem 74 anos de idade, mede 1,82 m, está vestindo uma camiseta marrom e uma calça jeans, a perna direita levemente dobrada, o pé apoiado na barra da banqueta alta em que ele está sentado, o rosto um pouco virado para o lado, os olhos na direção da parede. 

É a última foto dele vivo e fui eu quem a tirei, sem que ele percebesse. 

*

Alguns meses antes de meu pai morrer, eu passava boa parte dos dias lendo poemas e estava imersa na poesia completa de João Cabral de Melo Neto quando, no livro Museu de tudo, me deparei com o poema “Ademir da Guia”: 

Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.

Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o.

Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.

Li o poema rapidamente, como em alguma categoria de êxtase, e depois li uma segunda vez e depois uma terceira. Estava ali um ponto de contato significativo não apenas entre poesia e futebol, mas entre a minha maior paixão e a maior paixão do meu pai. Minha vontade era ligar para ele, ler o poema, como uma forma de dizer a ele que seguíamos juntos, conectados, e que eu o amava muito. 

Mas essa faísca chegou com o início da madrugada e havia anos que meu pai se deitava sempre cedo, às oito ou nove da noite. Se ele tivesse um smartphone, eu enviaria o poema pelo WhatsApp para ele ler pela manhã, assim que acordasse, mas meu pai sempre se recusou a acompanhar os avanços tecnológicos: “Isso é tudo uma grande bobagem”. Então enviei o poema para a minha tia, com quem ele morava, e pedi que ela mostrasse a ele.

Naquele dia, meu pai não me ligou. No seguinte, quando nos falamos, a princípio ele não mencionou o poema. Então perguntei se minha tia o havia mostrado. Ele disse que sim, agradeceu e, depois de uma pausa, arrematou: “Muito bonito o poema, filha, quer dizer, se é bonito você deve saber melhor do que eu, mas esse cara aí está certo, era assim mesmo: o Ademir entrava na cabeça dos caras”. 

Lembro de sorrir ao ouvir isso; uma boa interpretação do poema, afinal, pelos olhos de quem passou a vida jogando e assistindo ao futebol. Sorrio novamente ao escrever este texto e ao me dar conta de que, como meu pai, eu viro uma contadora de histórias especialmente quando falo do passado, ainda que meu interesse não esteja nas grandes vitórias, mas nessas pequenas faíscas que a memória me traz e com as quais alimento a minha escrita, frase após frase, verso após verso, partida após partida.

Nota da redação
Este texto faz parte da série Crônica de Futebol, que a Quatro Cinco Um publica no site da revista no mês da Copa do Mundo.

Quem escreveu esse texto

Lilian Sais

Escritora, lançou A cabeça boa (DBA) em 2025.

Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “Entre memórias e partidas”

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