Literatura infantojuvenil, Poesia,
A língua no parque de diversões
No primeiro livro da poeta carioca Marília Garcia voltado para a infância, os brinquedos são as próprias palavras
01out2025 | Edição #98Manoel de Barros escreveu que a poesia é a infância da língua. Sempre que me lembro dessa afirmação, penso em como a poesia nos faz redescobrir as palavras. O substantivo “rosa”, no dia a dia, é usado para designar uma flor de roseira. No entanto, quando Gertrude Stein o coloca em um verso dizendo “uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa”, somos convidados a olhar de novo para a rosa e para seu significado, uma vez que ambos são recriados (e, portanto, ressignificados) no poema.
Escolha uma palavra, livro-poema ilustrado que marca a estreia da poeta e ensaísta Marília Garcia na literatura para as infâncias, nos faz, a cada página, o mesmo convite: recriar palavras que já existem, olhando para elas de novo, mas sem perder o frescor do primeiro olhar.
Desautomatização
Um brinquedo, uma fruta, uma sensação, uma árvore ou um parque inteiro: às vezes, pessoas adultas precisam fazer um esforço enorme para desautomatizar o olhar sobre elementos que são parte de sua rotina. Para as crianças, o olhar desautomatizado é mais natural; primeiro, porque estão descobrindo elementos do mundo e olhando-os pela primeira vez; depois, porque costumam ter uma curiosidade vibrante e muito honesta a respeito do mundo e das coisas ao seu redor.
Experiências
O que Escolha uma palavra propõe é que os brinquedos sejam as palavras. A ideia, conta Garcia, vem de um exercício proposto pela poeta Bernadette Mayer no texto “Experiências” — cuja tradução foi publicada no blog da própria Marília Garcia em 2018.
A primeira experiência proposta por Mayer no texto é: “Escolha ao acaso uma palavra (um substantivo é fácil): deixe a cabeça pensar livremente até que surjam ideias. Em seguida, pegue algumas dessas ideias, observe-as e tome notas […]”.
Dessa experiência parte o livro-poema, ilustrado por Ligia Franchini, cujo título aparece já no primeiro poema, que começa assim:
Mais Lidas
Escolha uma palavra,
uma palavra como Ibirapuera,
e faça brotar um parque
dentro deste poema.
Partimos de uma família fazendo piquenique no Ibirapuera. As ilustrações acompanham as palavras escolhidas, seguindo o movimento delas e adicionando ao texto novos movimentos: é como se, ao longo das páginas, em que cada palavra parece ir puxando a próxima, texto e imagem estivessem numa dança poderosa.
Uma ótima escolha da ilustradora é que nunca vemos o rosto dos integrantes da família que vai ao Ibirapuera, faz piquenique e come maçã. O foco não está na identidade dessas pessoas, mas justamente nas coisas ao redor: as folhas da árvore, a bicicleta, as frutas, a lanterna — tudo aquilo que está no mundo, formando-o e, em certo sentido, (re)criando-o, inventando-o uma vez mais.
Página após página, experimentamos um jogo ainda mais lúdico do que poderíamos imaginar
É assim que, entre objetos, alimentos, paisagens e animais, vamos conhecendo a rotina dessa família e caminhando pelo livro-poema, como peregrinos entre palavra e palavra, desenho e desenho, desenho e palavra. Da “lágrima” vamos para o “abraço”, numa conexão semântica nada banal. Por outro lado, de “baleia” vamos a “areia”, de modo que, além da conexão de significados entre mar e areia (e a baleia que pode sair do mar e encalhar na areia da praia), vemos fortemente a conexão entre os significantes, uma vez que essas duas palavras são sonoramente parecidas.
Vale notar que muitas das palavras são ressignificadas nas ilustrações: no caso da baleia, por exemplo, vemos a baleia animal, a baleia do clássico Moby Dick e a esponja em formato de baleia usada na hora do banho. Ao final, leitura feita, percebemos que página após página experimentamos um jogo ainda mais lúdico do que poderíamos imaginar quando inocentemente abrimos o livro-poema.
Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “A língua no parque de diversões ”
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