Ainda em construção, o estádio Lusail, onde a Argentina foi tricampeã mundial, em 2022 (Matthew Ashton/AMA/Getty Images)

Crônica de Futebol,

Reis do deserto

Escritor argentino relembra seus dias perambulando nos estádios do Qatar, um ano antes da Copa acontecer

12jun2026 | Edição #107

Pareceria uma forma fundamental da literatura do Oriente. Sim, porque um dos livros do Antigo Testamento se chama 2 Reis. Com dois reis começa As mil e uma noites. Borges também deu sua contribuição com “Os dois reis e os dois labirintos”. E, no princípio da história do Mundial do Qatar, também houve dois reis. 

Um é o emir do Kuwait, cujos estreitos domínios foram invadidos em 1990 pelas tropas do Iraque, país limítrofe. O outro é o emir do Qatar, que, após uma reflexão, conclui que o mesmo poderia acontecer com seu reino — também é um país muito pequeno e também tem um grande vizinho: a Arábia Saudita. 

Então, o emir do Qatar pensa em se tornar conhecido para evitar problemas. Deixar de ser uma pequena faixa de terra e areia sobre o Golfo Pérsico para começar a ter uma identidade perante o mundo. Essa identidade, sabe-se, será o futebol e suas balizas serão, primeiro, o Paris Saint-Germain [adquirido pelo fundo de investimentos Qatar Sports Investments, em 2011], que muitas torcidas rivais na França chamam de Qatar Saint-Germain; e, depois, o Mundial de 2022.

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No peito das camisetas leio See you in 2022. Em 2022, efetivamente, virá todo mundo, a começar por Lionel. Mas agora, nesta tarde, nesta arquibancada, nesta anônima partida da Qatar Stars League, somos apenas onze: dez assistentes ou guardas com suas camisetas e eu. 

Do outro lado, na outra arquibancada, há entre sete e dez pessoas. Os alto-falantes começam a tocar música e depois transmitem alguns anúncios relativos à partida que está prestes a começar. Tudo é supérfluo e gratuito (se bem que, pensando melhor, nada aqui é gratuito), porque, exceto eu, não há nenhum espectador. Ouvem-se gritos em árabe entre os jogadores. Só entendo yallah, que significa “vamos”. 

Mas nem todos são árabes. 

Al-Ahli, a equipe local, tem dois atacantes sul-americanos: pela direita vai Abel Hernández, uruguaio, e pela esquerda o paraguaio Hernán Pérez. Me pergunto quanto será que ganham, como são suas casas, quem os acompanha nessa aventura de arrecadação, o que será que pensam. Obviamente faço uma pesquisa na Wikipédia: quero saber como foi seu percurso pelos caminhos do futebol antes de virem parar neste lugar. 

Tudo é supérfluo e gratuito (se bem que, pensando melhor, nada aqui é gratuito)

Pois bem: Hernández apareceu no pequeno Central Español e depois foi vendido ao Peñarol. Deste passou à Europa: Palermo, Hull City, CSKA Moscou. E depois o Qatar. Quanto a Pérez, nascido nos subúrbios de Assunção, jogou no Tacuary e no Libertad, depois andou pela Espanha e pela Grécia (Villarreal, Olympiacos, Espanyol) até chegar aqui. 

Lanço então minha única cartada, minha divisa sul-americana: grito “Abel!”. Escolho ele por ser o típico moreno uruguaio e mais identificável que Hernán. E em uma tarde perdida do Golfo Pérsico, no ano de 1441 da Hégira, Abel Hernández, oriundo das encostas montanhosas de Canelones, levanta a cabeça e olha para o meu lado. Não demora para se dar conta de que sou um daqueles loucos que aparecerão de vez em quando e interrompe para sempre nosso contato. Em vão vou lhe pedir a camisa em mais de uma ocasião.

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A partida começa e noto o que se nota ao se assistir a uma partida profissional de perto e quase em silêncio: a luta elementar contra a matéria, o caráter borrachento da bola, o peso do mundo. 

Mas assistir a uma partida entre o Al-Ahli e o Al-Khor não está entre minhas prioridades, então vou até o alto da arquibancada observar um pouco o Oriente. Desde o estádio Hamad bin Khalifa, no qual estou, posso ver outros dois estádios: de um lado, um relativamente humilde e, do outro lado, um em construção. Pergunto a um dos assistentes ou guardas e ele me esclarece: o primeiro, o humilde, é o Grand Hamad e não será sede do Mundial. O outro, o que está sendo construído, é o Al Thumama. Este, sim, receberá a Copa. 

De uma mesquita próxima chegam os chamados para as orações. Um mundo lexical se abre: o muezim entoa seu canto desde o minarete. Volta a mim a ébria certeza de estar no Golfo Pérsico. Ali estão, para que não falte nada, as palmeiras com sua delicada estrutura.

Abaixo, Abel e Hernán continuam correndo. Em certo momento, a bola se projeta e quica mansamente, e muitas vezes, até o outro lado da linha de cal: não há ninguém ali.

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Minha próxima excursão futebolística é na Sports City. Desço do metrô, ando um pouco e aparece um portentoso estádio de formas curvas. Suspeito de alguma coisa e o telefone me confirma: houve um dia especial entre os demais dias em que o campeão da Copa Libertadores jogou aqui. Foi o Flamengo de 2019, o que ganhou aquela incrível final contra o River, em Lima. O estádio se chama Khalifa e será sede do Mundial: é onde será jogada uma semifinal.

Minha última excursão foi a Lusail, sede da final. Ao chegar, como dizia Heródoto, o deserto total

Como costuma acontecer, na Sports City não há ninguém. Fico vagabundeando entre instalações imponentes, piscinas olímpicas e estádios multiuso. As únicas pessoas com as quais cruzo são os assistentes ou guardas que tomam conta da entrada de cada lugar. Caminhar entre milhares de milhões de dólares me coloca num humor muito particular. 

Tento absorver energia e o excesso me faz lembrar que este será o Mundial dos recordes, das exceções e das primeiras vezes: será a primeira vez que se joga o torneio no Oriente Médio, que as datas serão alteradas para que seja realizado no inverno, que será celebrado em um país árabe e de maioria muçulmana, um país muito, mas muito pequeno. 

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Minha terceira e última excursão futebolística foi a Lusail, nos confins do norte de Doha. Ali será disputada a final. Ao chegar, como dizia Heródoto, o deserto total. É normal que, alguns anos antes de um Mundial, os estádios ainda estejam em construção. Nada de estranho quanto a isso. O excepcional do caso é que Lusail, a cidade onde vai ficar o estádio, também está em construção.

Saio do metrô pela única saída habilitada. Em 2022 haverá outra, do lado do estádio, mas no momento há apenas uma. Só Deus, algum deus, sabe como isso ficará quando chegar a hora do Mundial. O que existe, por enquanto, é o vento do deserto, o sol inclemente e o ruído de guindastes. 

Do outro lado da Al Khor Coastal Road há exércitos de nepaleses, que, como em uma fábula bíblica de senhores e escravos, estão construindo o Estádio Icônico de Lusail. A luz do Profeta banha o nome. E se um dia o amarmos tanto quanto o Azteca?

(Tradução de Luis Reyes Gil)

Nota da redação
Este texto faz parte da série Crônica de Futebol, que a Quatro Cinco Um publica no site da revista no mês da Copa do Mundo.

Quem escreveu esse texto

Alejandro Droznes

Escritor e cronista argentino, escreveu Libertadores da América (Pinard).

Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “Reis do deserto”