Coluna

Humberto Brito

Onde queremos viver

Postal sem 5ª Av.

A paleta da cidade tem uma sequência fluida. Entardece em sangue e ciano

07dez2023

Os dias escureceram, ficaram curtos e arrefeceu. As folhas nos altos ramos perguntaram a si mesmas qual o sentido da vida, ficaram abismadas e atiraram-se da varanda quase em simultâneo, num suicídio lento e colectivo, em arabescos. Seguiu-se um perverso milagre. Ao alcançarem o chão, esvoaçaram a correr entre mil pernas indiferentes como pequenos zombies neuróticos, criaturinhas atrasadas para a entrevista de emprego, rodopiando contra paredes, para acabarem a entupir a sarjeta. A seguir, arrefeceu a pique e depois aqueceu um pouco acima dos zero graus, o suficiente para virem aguaceiros antes do frio a sério e talvez da neve. E Nova Iorque fica uma aguarela alcoólica de si mesma nas semanas depois do thanksgiving, ao domingo.

Está de chuva na cidade e um casal jovem carrega um tapete desbotado que alguém largou na esquina. O céu amarela a relva cinzenta, a chuva no tapete laranja alaranja o azul e em pano de fundo o mesmo negro de turbante cor de leite dirige furiosas imprecações enquanto arrasta pela Bleecker um cobertor sujo, que sangra poças de água em molhadas caudas de cometa no cimento, riscos pretos que terminam num reflexo das torres em volta, do interior iluminado dos apartamentos, onde um galgo cinza sonha numa cama aveludada. Na valeta a poucos metros, ensopado, ao lado de onde alguém riscou no cimento um dia fresco o nome “RAFAEL”, um panfleto hassídico anuncia, em tons de cobalto e mostarda: “THE MESSIAH IS HERE!” (“O Messias chegou!”). Mostra um velho barbudo cor-de-rosa quase roxo nas rugas, de chapéu escuro, Menachem Mendel Schneersohn, entre parêntesis, Moshiac. Levanto os olhos. As mesmas cores ucranianas na lona do soldadinho de chumbo insuflável a cair de costas, zonzo de fentanil, sobre a venda de pinheiros de Natal numa banca de madeira diante de um supermercado parado em 1993. Contra um grande painel com as figuras históricas deste bairro, do qual James Baldwin me interpela interrogativamente, os pinheiros esperam alinhados, renque de proscritos em camisas de força em face de um pelotão de fuzilamento. Três estafetas dominicanos aguardam encomendas, fumando erva, empoleirados em scooters em vez de camelos.

As sirenes que alucinam, os alucinados que sirenam, as ratazanas que estudam nosso lixo

A paleta da cidade tem uma sequência fluida. Entardece em sangue e ciano, que dá lugar a petróleo e laranja, que se diluem lentamente no fumarento negro e cobre de todas as noites, há um grito lancinante no escuro, e o ciclo repete-se. Com a alvorada azula um certo branco amarelo quase verde, que o dia rosa, e os frigoríficos zunem eletricamente, a indústria dos andaimes recomeça e remartela, o contínuo chape dos pneus no alcatrão encharcado, as buzinas espontâneas, os berros dos filhos dos vizinhos à saída para a escola, o chio dos gonzos nas portas, as sirenes que alucinam, os alucinados que sirenam, as ratazanas que estudam nosso lixo, os académicos que ratazanam as bibliotecas, o metropolitano que biblioteca a existência humana na frequência mais baixa, e as livrarias estão sempre abertas ao domingo e há um público para uma certa ideia de vida que sai e que entra das lojas e das cooperativas, e que carrega tapetes usados e pinheiros de Natal e cobertores sujos e folhas agarradas às solas, para se fundir num belo ronco contínuo de uma barriga quente aparentemente cheia de gás.

Quem escreveu esse texto

Humberto Brito

É escritor, ensaísta e fotógrafo