Detalhe de 'Sunday Afternoon in the country'(1917), de Florine Stettheimer. Óleo sobre tela (Cleveland Museum of Art/Reprodução)

Onde Queremos Viver,

Escrever à mão

Tivesse eu reparado que Putin e Trump constituem um só a cortar o cabelo a si mesmo

01abr2025 | Edição #92

O barbeiro e o amigo pareciam um só homem a cortar o cabelo a si mesmo. Iguais em envergadura e pescoço, idêntico tamanho braçal, tatuagens similares, falavam pelas mesmas frases, riam das mesmas piadas, frequentavam o mesmo ginásio e as mesmas amigas. Amigas do Tinder e da igreja, equivalentemente frescas e tatuadas; e que, a julgar pela alarvidade dos relatos, fodiam à sua imagem e semelhança, isto é, como um homem a cortar o cabelo a si mesmo. 

Éramos só três no salão e eu sorria calado, até que quase se esqueceram da minha presença. Situação ideal para o etnógrafo de circunstância em face de tão inusitado objecto no seu habitat favorito: o tipo cristão-pornô. Fingindo procurar permissão para falar à vontade, os sujeitos iam mais longe a cada tirada e projectavam sobre o tímido observador uma cumplicidade masculina, interpelando-o com inquéritos eróticos e piscadelas de olho, a que respondia com barulhos amarelos. Só que a desenvoltura depressa escalou do nível balneário-adolescente ao nível grupo de caça e deu por si a calar as mais feias vulgaridades. Incomodado e sem estômago, quis sair. Fiquei. No fim de contas, precisava de cortar o cabelo. Vistos da montra deveríamos parecer três genitais risonhos.

Às tantas, tirei o caderno e comecei a escrever à mão. Não para documentar as vulgaridades, mas para me desligar do papel de espectador, truque de sobrevivência aprendido num sem-número de ocasiões académicas. Na sequência de minutos, o barbeiro e o amigo fisgavam-me olhares nervosos através do espelho. Reparando que reparei que reparou, o dono do salão perguntou, desconfiado: “Ei chefe, está a escrever? O que é que escreve aí?”.

O acto de escrever à mão desconcertou-os. Na testa do barbeiro e do amigo, que até ali me incluíam na discussão das suas proezas íntimas, havia agora uma ruga.

O acto de escrever era um acto de guerra, que talvez explicasse a súbita hostilidade

Acabei a frase, levantei a cabeça e, fechando o caderno, respondi: sou escritor, meu amigo, estou a tirar notas para um romance. Não, não o disse, mas deveria tê-lo dito, porque quando não te podem perceber, mais vale uma pequena mentira. Lancei uma evasiva inopinada em torno das imagens da guerra cujo horror desfilava no écran ao canto. Imagens flagrantes, autoevidentes, indefensáveis. Qual quê. Queriam lá saber da Palestina, queriam lá saber da Ucrânia. O amigo do barbeiro — que até esse instante era o menos expansivo dos dois e que tinha todo o aspecto de mercenário — pôs-se aliás a dizer grandes coisas de Putin e de Trump, com previsível fanatismo; tivesse eu reparado que também estes constituem um só a cortar o cabelo a si mesmo e a foder o mundo à sua imagem e semelhança. Grabbing them by the pussy, digamos assim.

Afinal, eu é que fazia parte da minoria atónita. O acto de escrever à mão era de certa maneira um acto de guerra, que talvez explicasse a sua súbita e confusa hostilidade. Quis sair. Mas fiquei. No fim de contas, precisava de cortar o cabelo. Sabendo do desconforto que lhes havia provocado, abri o caderno e pus-me novamente a escrever. Não, não o fiz. Mas deveria tê-lo feito, nem que por mera provocação, só que tinha chegado a minha vez. Ocupei o meu lugar e deixei que o barbeiro cortasse o meu cabelo à sua imagem e semelhança, anuindo por gemidos. O amigo sentou-se ao espelho a examinar o estilo de boca aberta. Vistos da montra, parecíamos três imbecis.

Quem escreveu esse texto

Humberto Brito

É escritor, ensaísta e fotógrafo

Matéria publicada na edição impressa #92 em abril de 2025. Com o título “Escrever à mão”

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