Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

Atrás das paredes

Como somos sequer capazes de seguir com a nossa vida diante da amplitude do desconhecido?

05out2023 - 19h25 | Edição #74

Leio Os Emigrantes, de W. G. Sebald, passei a semana a pensar como os escritores não são de confiança. Conta Sebald, nas primeiras páginas, que foi com a mulher até Hingham, na Inglaterra, à procura de uma casa. Estacou num terreno verdejante, o jardim da morada que lhe haviam dado, e deu com o marido da dona da casa, o eremita residente. Dr. Henry Selwin divaga em voz alta e apresenta o casal a três dos seus cavalos, comentando que “nada sabia da sua vida passada”, quando os adoptou, “num estado lastimável”.

Dá tanto jeito a Sebald encontrar estes cavalos nas imediações da casa nova, cavalos que são como nós diante de qualquer estranho — e como Dr. Selwin para o próprio Sebald — que desconfio que talvez nunca tenha havido cavalos nenhuns, nem casa nenhuma em Hingham — mesmo que tenha havido.

Nos romances, explico aos alunos, não se pode confiar em ninguém. Em vez da suspensão da descrença, advogo a favor da suspensão da crença. Em caso de dúvida, suspeitem, aconselho. Mas os alunos não parecem nada convencidos. Vou pensando em que posição a suspeita nos coloca e em como essa posição de desconfiança faz falta na vida. Talvez faça falta um lugar como os romances onde nada é o que parece.

Somos esse casal numa terra nova à procura do anexo ideal para começar a vida

Os alunos comentam que tudo no arranque da história do Dr. Selwin é irrealista, pelo menos para um olhar americano. Assim que o casal Sebald aluga o anexo da casa dos Selwin, levam a cabo várias melhorias: mudam a cor das paredes, alteram a disposição da mobília. “Na América, ninguém os autorizaria a mudar coisa nenhuma na casa”, sentencia uma aluna. É difícil arrancar alguém ao seu contexto, penso, mesmo que o tema da aula seja como existe um modo de nos aproximarmos de um estranho que é: em vez de o recebermos em nossa casa, tornarmo-nos hóspedes na sua, fazermo-nos convidados.

A casa dos Selwin é um organismo. “Atrás das paredes” os empregados andam num corrupio, ocupados com contínuas tarefas, como criaturas fantasmáticas, ou como o sangue se desloca nas veias de um corpo. Há quartos escuros, mistérios, segredos, quartos decorados (talvez Sebald o descreva, sim, com humorística ironia) com bonecas bizarras. Vou lendo e pensando que um quase sorriso paira sobre as descobertas dos inquilinos Sebald e Clara na casa dos novos senhorios.

Talvez nunca ali tenham vivido, nem conhecido nenhum Dr. Selwin, nem habitado jamais nenhuma casa tão conveniente a um romance sobre o que há atrás das paredes da vida de um homem.

Mas como explicar a suspeita, e noutra língua, se eu própria não sei para que palavra apontar?

Penso no atrás das paredes da casa dos Selwin. É o atrás das paredes de qualquer pessoa. Sebald é o estranho convidado, curioso meio de acesso ao estranho que nos pretende dar a conhecer, mas, ao introduzir-se na casa da personagem, entra dentro dele e faz de mim, leitora, parecida com Dr. Selwin: sou agora estranha na casa do Dr. Selwin e partilho o estranhamento dos Sebald, ali sujeitos aos mistérios da casa. Para conhecer o outro, entra dentro do outro. Estupenda revelação a de que cada um, todos, somos esse casal numa terra nova à procura do anexo ideal para começar a vida. O casal a habituar-se aos barulhos da casa, a mudar o quarto, a inteirar-se das redondezas, a espiar a vida dos misteriosos senhorios.

Nós e o estranho, pela mão de Sebald, encontramo-nos no mesmo plano: querendo conhecer o estranho tornarmo-nos estranhos para ele, entranhamo-nos nele, tornamos a nossa carne a carne do estranho.    

Como somos sequer capazes de seguir com a nossa vida diante da amplitude do desconhecido? Como prosseguimos, sabendo tão pouco sobre quem somos? A grande casa oculta onde nos fazemos convidados — e não são os outros — somos nós.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).

Matéria publicada na edição impressa #74 em setembro de 2023.