Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

Alguma noite, no futuro

Escutar a própria voz dá-nos acesso ao nosso sujeito como alguém numa relação com os outros

13jul2023 | Edição #71

Krapp, em A Última Gravação de Krapp, de Samuel Beckett, está sentado a uma mesa, abre e fecha gavetas, é o dia dos seus anos, “alguma noite, no futuro, já tarde” — como na tradução de José Maria Vieira Mendes em Teatro completo (Edições 70). Antes de gravar mais uma nota para recordação futura, rebobina e ouve gravações de aniversários passados, enquanto come bananas. O Krapp de 39 anos está preso numa bobina, como um insecto preservado no âmbar. Ao contrário de um fóssil, contudo, o velho Krapp não é indiferente ao antigo Krapp, a quem insulta e contra o qual vocifera.

Não parece padecer da menor nostalgia, embora Krapp antigo o surpreenda, quando não o repugna. Escuta a sua voz passada com a estranheza com que qualquer de nós ouve a gravação da própria voz: “A voz! Jesus! E as aspirações!”. “Acabei de ouvir aquele pobre cretino por quem me tomava há trinta anos, custa a acreditar que fosse assim tão estúpido.” “Trinta e nove hoje, saúde de ferro, tirando a fraqueza do costume, e intelectualmente parece-me que na… [hesita] …crista da onda — ou quase.” Krapp sem “saúde de ferro” é ainda Krapp.

Não costumamos ouvir-nos como nos ouvem os outros nem ouvir-nos como a um outro

O que estranhamos, ao estranhar a nossa voz? Não costumamos ouvir-nos como nos ouvem os outros: não costumamos ouvir-nos como a um outro. Não temos autoconsciência ininterrupta de nós enquanto alguém. Escutar a própria voz coloca-nos de fora, a ouvirmo-nos como somos ouvidos. Dá-nos acesso ao nosso sujeito como alguém numa relação com os outros. Ouvimo-nos e, subitamente, ganhamos distância e vemo-nos no mundo, como alguém vê pela janela de casa uma pessoa a passear na rua.

A agonia de Krapp diante das suas gravações baseia-se na premissa de que “aquele pobre cretino” é ainda Krapp: “Estava lá tudo, tudo, tudo o que há nesta velha bola de lama, toda a escuridão e a fome e os banquetes”. Por outro lado, a gravação não conserva a vida a que a voz na gravação alude. A voz ficou, a vida foi.

Krapp ouve e rebobina. Quer dizer, pode rebobinar-se, e ouvir “o pobre cretino” que foi. Pode até andar para a frente a gravação nas partes que não quer ouvir. Como um montador, ou um colagista, corta e cola, ouve o que quer e só o que quer, salta o que não quer. A sua voz do passado é uma voz aberta à edição, no sentido em que é gravada e está conservada por meio de um processo tecnológico. A tecnologia permite a Krapp uma viagem poética ao próprio passado, ainda que não elimine a sua angústia (e talvez a acrescente, impondo à sua voz a estranheza inerente à gravação). É no rebobinar, saltar e voltar a ouvir que reside a via para a alienação e para a desalienação na última gravação de Krapp. A possibilidade de determinar o que ouve e não ouve, aquilo a que regressa e não regressa, confere-lhe um poder sobre a sua situação poética. Krapp rebobina a gravação. Na medida em que o faz, tem o poder de dizer que não quer a sua vida rebobinada. É enquanto montador da sua voz/vida que pode dizer: “Talvez tenham já acabado os melhores anos. Quando ainda era possível ser feliz”. E, saboreando uma banana: “Mas não os queria de volta”.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).

Matéria publicada na edição impressa #71 em maio de 2023.