Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

Rampa acima, ladeira abaixo

A responsabilização é coletiva ou não o é. Além do banditismo explícito, há as instâncias várias de incitação por parte de quem tem voz na arena pública

09jan2023 - 15h19 | Edição #66

O Brasil que em primeiro de janeiro subiu a rampa com o presidente eleito desceu a ladeira uma semana depois. O cenário era o mesmo, o Palácio do Planalto, e, para quem não tem pendor criminoso, a escolha é bem fácil entre a celebração democrática de eleições livres e o Capitólio Tabajara, tentativa de emular o golpismo trumpista. Depois vira-lata é a Resistência, cadelinha frequentadora da vigília que acompanhou os 580 dias de prisão de Lula.

Qual é o retrato do povo brasileiro? Os oito cidadãos da maioria minorizada que passaram a faixa ao presidente, eliminando assim a intermediação do porco fascista? Ou as dezenas de homens e mulheres de bem que acham legítimo manifestar apoio ao porco fascista destruindo prédios, jogando cadeiras pela janela e fazendo cocô em escritórios?

A proverbial recusa de chamar as coisas pelo nome está na raiz da complacência que resultou no levante da escumalha

A proverbial recusa de chamar as coisas pelo nome está na raiz da complacência que resultou no levante da escumalha. No cambiante dicionário do reacionarismo brasileiro, golpe já foi impeachment, conspirador mereceu obséquios de juiz e fascista ainda é tratado por “conservador”. Felizmente, depois do 8 de janeiro ficou mais difícil chamar urubu de meu louro — nos acampamentos de Brasília há criminosos e não “manifestantes” ou democratas como quer José Múcio, o equivocado ministro da Defesa.

Há grande dificuldade ou imensa conveniência em entender que a responsabilização é coletiva ou não o é. Além do banditismo explícito, das autoridades do Cerrado aos condomínios de Orlando, há as instâncias várias de incitação por parte de quem tem voz na arena pública.

Manifestações de transigência

Na última semana, uma colunista de jornal, profissional que é paga pelo que escreve, declinou, como se deplorasse o verão chuvoso, a “péssima impressão” que lhe causara o grupo de brasileiros que acompanhou Lula no Planalto. A Ivan Baron, ativista em defesa dos portadores de deficiência, dispensou o epíteto “estropiado”.

No calor das invasões e depredações, um influencer célebre por sua influente nulidade cognitiva manifestou “simpatia” pela escumalha — para ele, um grupo de “manifestantes”. Em seu peculiar raciocínio analítico, o eminente representante do burrismo considera o quebra-quebra uma reação natural e compreensível ao autoritário Estado brasileiro.

Em um dos momentos-chave da crise, uma prestigiada coluna confirmou a má fase que vive como porta-voz da extrema direita. Ricardo Cappelli, o interventor nomeado para o DF, foi lembrado por ter sido presidente da UNE e por ter convidado Fidel Castro a vir ao Brasil, ecoando assim o antiesquerdismo tosco que conforta o cidadão de bem bolsonarista ao confirmar suas mais recônditas certezas.

Enquanto opinionistas condenavam o ministro da Justiça, Flávio Dino, por ser honesto e digno, ou seja, por honrar o acordo feito com o governador afastado do DF, repórteres se esfolavam na tentativa de mostrar, de um ponto de vista independente, o que acontecia nas ruas.

Pelo menos seis profissionais foram espancados e tiveram seus equipamentos roubados por gente como os amigos e parentes do ministro da Defesa que, pelo jeito, entende o nome de sua pasta como instância de proteção aos acampamentos de seus camaradas.

O personagem de 2023 nasceu em 2022, é o bolsonarista por subtração, que apoia o fascismo por negligência ou omissão

Cada manifestação de transigência com os discursos golpistas representa avanço de um centímetro, um metro, um quilômetro da extrema direita. O personagem de 2023 nasceu em 2022, é o bolsonarista por subtração, que apoia o fascismo por negligência ou omissão estratégica. É o que vê revanchismo onde se pede justiça, o doisladista que dá voz à barbárie, o equilibrista das falsas equivalências.

E, sim, somos nós contra eles, somos os que votam e pedem o cumprimento da lei contra os que relincham e recorrem à força.

Quem não está explicitamente contra os fascistas está, sim, a favor deles.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #66 em dezembro de 2022.