Coluna

Paulo Roberto Pires

Crítica cultural

O fim do homem coletivo

Novo colunista da Quatro Cinco Um traça paralelo entre velório de Alfredinho do Bip Bip, em março, e os funerais de Sinhô, em 1930

28mar2019 - 12h42 | Edição #21 abr.2019

Alfredinho do Bip Bip era um desses homens que ainda morrendo da morte mais natural deste mundo dão a todos a impressão de que morreram de acidente.

Roubei a frase de “O enterro de Sinhô”, a crônica modelar de Manuel Bandeira sobre a morte do compositor carioca. É bom dizer que nem nos mais escalafobéticos delírios de grandeza cogitei me comparar a um fio de cabelo de seu autor. Mas a despedida do Rei do Samba relatada pelo poeta não me sai da cabeça desde que, às cinco da tarde do sábado de Carnaval, soubemos, eu e todo mundo que se acabava num baile na rua do Ouvidor, da morte desse personagem essencial para o Rio e o Brasil, maltratados e trôpegos nos dias que correm.

Alfredo Jacinto Melo, a que se saiba, não deixou nenhuma linha em prosa, verso ou melodia. Sua obra foi tocar um boteco em Copacabana devotado ao samba — mas também ao choro e à bossa nova. Mesas de metal, cadeiras de plástico, fotos, desenhos e pôsteres nas paredes. Nos últimos anos, ele e o Bip Bip padeceram da notoriedade condescendente do folclore, cevando involuntariamente a gasta mitologia carioca, que mais esconde que revela. 

Motivo para folclore, vá lá, não faltava. No bar minúsculo — dizem ter 18 m² — era proibido usar perfume (Alfredo era alérgico), aplaudir (quem quisesse se manifestar devia estalar os dedos, protocolo um tanto patético, admitamos) e, sobretudo, falar alto. Ou simplesmente falar enquanto se tocava. O infrator era punido com broncas tonitruantes do sujeito baixinho, meio calvo e basta barba branca de onde saía uma voz muitas vezes enfezada e cada vez mais rouca.   

Os mitológicos esporros começavam, com justiça, pela conversa alta, que atrapalhava a música não amplificada. Mas volta e meia Alfredo embarcava numa volúpia retórica que faz pensar num Padre Vieira possuído por Lênin, sendo capaz de raciocínios de hipérbole espantosa e lógica irretocável. 

Sua obra-prima de oratória, seu Sermão da Sexagésima, era quando lembrava que o copo em que bebemos cerveja foi feito pela mão do homem. Do trabalhador explorado que talvez não pudesse beber a mesma cerveja, aviltado para que a nossa boa consciência se inebriasse. Argumento eficiente — e irrefutável — para fazer com que os frequentadores colaborassem com as obras sociais voltadas à população de rua do bairro. Numa noite de Natal, o Bip chegou a servir a ceia para seiscentas pessoas, no meio da rua, com a ajuda de empresários e a contribuição modesta de quem ia ao bar.

Alfredo foi um homem coletivo, um dos poucos, se não o único, que conheci. Para ele, não havia ato individual: ao fazer a sua escolha, você escolhe o mundo. Por isso, apoiar o músico doente e os desvalidos, o sem-teto e o Carnaval, era projetar um Brasil melhor, orientado na sua cabeça pelos valores cristãos e socialistas. Se era impossível fazer a revolução com R maiúsculo, que se lembrassem a cada dia as iniquidades que nos cercam. E ele fazia isso como ninguém, com humor, sem pose nem pieguice, natural e obstinadamente como frequentava as missas de sábado.

É fácil imaginar que, para esse homem, os últimos meses, que não supunha serem seus meses finais, tenham sido especialmente penosos. O retrocesso social, a truculência, o elogio da ignorância e a vulgaridade levados ao poder e às ruas pela maioria dos brasileiros feriam, um a um, todos os princípios de sua vida — que era a vida que desejava para todos nós. Não era difícil que, em tempos recentes, a conversa ganhasse uma tonalidade melancólica — logo conjurada pelo tradicional grito de irritação, meio a sério, meio brincando: “Vocês querem me fuder!”

Samba-enredo para Marielle

Nas últimas vezes que nos vimos, ele, que pouco falava de música, sempre mencionava, emocionado, “História pra ninar gente grande”, o samba-enredo da Mangueira que desfilou no mesmo dia de seu sepultamento para ganhar o Carnaval desfraldando bandeiras com o rosto de Marielle Franco. Dois dos compositores, Manuela Oiticica e Tomaz Miranda, estão entre as melhores “crias do Bip” e, como poucos, fizeram jus ao “Ô, meu filhinho” com que Alfredinho se dirigia aos amigos mais jovens. O samba, de melodia e letra extraordinárias, também é cria do Bip por cantar os vencidos e interpelar o mundo: “Eu quero um país que não está no retrato”. 

Em sua despedida, Alfredo não foi levado a uma “capelinha branca” como aquela que, segundo Bandeira, era “muito exígua para conter todos quantos queriam bem ao Sinhô”. O velório aconteceu no bar, acanhado como a capelinha e também insuficiente para colher a vasta e variada turma reunida na manhã da segunda de Carnaval, cantando samba e marcha-rancho, chorinho e samba-canção. Como no enterro de Sinhô, bebia-se “desbragadamente”.

Havia um tanto de irrealidade no Alfredo deitado ali, no meio do bar, coberto pelas bandeiras da Mangueira, do PT e do Botafogo. Um pouco abaixo do peito, a imagem do Che. Ele aprovaria o silêncio no bar, a estranha paz, bem ao lado da balbúrdia da roda de samba em sua homenagem. Ao pé do caixão, alguém deixou um papel com a letra do samba “Gurufim”, em que Claudio Camunguelo, estivador que tocava flauta como ninguém e compunha até em inglês, imagina o próprio velório: “Eu vou fingir que morri/ Pra ver quem vai chorar por mim”.

Dois padres e um pastor celebraram uma missa na porta do bar. Um deles, não lembro qual, lembrou que Alfredo, bem-aventurado, tinha sido guiado por três estrelas: a de Nazaré, a do internacionalismo socialista e a do Botafogo. Pediu a todos que rezassem o Pai-Nosso e cantassem “Tristeza”, de Haroldo Lobo e Niltinho. O caixão, carregado pelos mais próximos, saiu sob uma chuva de confete e serpentina, todos cantando a plenos pulmões, como um hino, o “Mestre-sala dos mares”: “Glória a todas as lutas inglórias”, diz o samba de João Bosco e Aldir Blanc. No caminho até o carro que o conduziria ao cemitério São João Batista, políticos, miseráveis, bebuns, velhos amigos e músicos choravam e cantavam cada vez mais forte.

Ao enterro não tive energia para ir. Mas houve muito samba nas alamedas do cemitério de Botafogo onde estão Tom Jobim, Carmen Miranda e Luís Carlos Prestes. Ao serem informados de que deviam, inapelavelmente, virar à direita para chegar ao local do sepultamento, os integrantes do cortejo, que mais parecia um bloco, fizeram parte do trajeto andando de costas. Vi um vídeo em que se cantava “Se todos fossem iguais a você” na cadência de marcha-rancho. E dançava-se no refrão de Ataulfo Alves: “Quero morrer numa batucada de bamba/ Na cadência bonita do samba”. 

Assim como Sinhô, Alfredo “tinha que morrer como morreu, para que sua morte fosse o que foi: um episódio de rua”. Não foi um homem, foi um coletivo. Hoje, mais do que nunca, é uma ideia. E uma ideia, ensina a história distante e recente, não se imobiliza. E muito menos se extingue.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #21 abr.2019 em março de 2019.