Máquina de leitura da série 'Le diverse et artificiose machine', de Agostino Ramelli, 1588 (Reprodução)

Crítica Cultural,

Crítica e clique

Formatos alternativos à resenha estabelecem facilidade e audiência como juízos de valor num cenário de conformismo e anti-intelectualismo

21ago2025 | Edição #97

Esta é uma coluna tradicional, assinada por um colunista idem, que se dedica à leitura e à produção de comentários por escrito em geral motivados por um consagrado veículo de invenção literária, transmissão de conhecimento e proposição de ideias conhecido como livro, em todos os seus formatos. Desculpem qualquer coisa.

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A advertência que rascunhei aí em cima pode parecer deslocada numa “revista de livros”, mas nunca se sabe o que nos reserva o futuro próximo, cada vez mais próximo, do jornalismo cultural. Em julho, o New York Times afastou quatro de seus críticos — os dedicados a teatro, tv, música clássica e música pop, essa última rubrica a cargo do mítico Jon Pareles. O objetivo seria explorar “novos formatos”, mais de acordo com o que o jornal entende como uma sensibilidade da época ou, de forma mais pedestre, algo como o “gosto do público”. Num comunicado interno, escrito para ser vazado como todo comunicado interno, a editora de cultura, Sia Michel, não poupa eufemismos corporativos para invencionices e cortes. E, entre um “desafio” e uma “nova oportunidade”, anuncia:

Nossos leitores estão ávidos por guias confiáveis que os ajudem a entender esse cenário complexo, não apenas por meio de críticas tradicionais, mas também com ensaios, novos formatos de narrativa, vídeos e experimentações com outras plataformas. Nossa missão é sermos esses guias.

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A menção a uma “crítica tradicional” arranhou os ouvidos de Richard Brody, o excelente e tradicional crítico de cinema da New Yorker. No breve ensaio “Em defesa da resenha tradicional”, publicado na revista, Brody lembra que esse gênero de comentário crítico, que está sendo escanteado, é um exercício complexo que traduz “a experiência de um espectador com a obra”. Ainda que não se deva restringir ao “gostei” ou “não gostei”, o crítico assume a responsabilidade de avaliar e, palavras dele, “mesmo quando uma resenha aborda o papel comercial de uma obra, ela também expressa o oposto — a vastidão potencial da obra, o impacto possivelmente avassalador e transformador de uma única visualização ou audição”.

Não é raro que qualidade venha sendo confundida voluntariamente com número de views

É essa dimensão que se perde, argumenta Brody, quando a pessoa até então conhecida como “crítico” tem que assumir os figurinos e a dramaturgia de tiktokers, narradores histriônicos e personagens de si mesmos — ou quando textos passam a ser concebidos e editados em fragmentos clicáveis, muitas vezes indissociáveis de imagens. Combinados, esses movimentos tendem a eliminar qualquer ruído possível entre o mercado e o leitor — agora também ouvinte ou espectador — e transformar o jornalismo num guia de consumo. Brody vai direto ao ponto ao lembrar uma frase de Pauline Kael, a tradicionalíssima crítica de cinema da New Yorker, já preocupada, em 1971, com o rumo dessa prosa: “Na ausência de críticos independentes, não há nada entre o público e os anunciantes”.

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No New York Times, a tiktokização já havia avançado sobre a insuspeita editoria de Opinião — o New York Times Book Review continua intacto, chafurdando na obsolescência das “resenhas”. Comandada desde 2020 por Kathleen Kingsbury, a seção emprega hoje quase duzentos profissionais e é uma espécie de redação paralela do jornal. Produz documentários, comentários em vídeo e podcasts e até publica tradicionais editoriais, artigos de autores convidados e pequenos ensaios. A partir dessa definição “ampliada” do que seria opinião — ou por isso mesmo —, a editoria é comemorada como um sucesso absoluto de público.

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Nesses formatos se faz de um tudo para que o leitor “consuma” um “conteúdo” (aspas necessárias) e não tenha que se ater demasiadamente à leitura “tradicional”. Com e sem ironia, um dos grandes sucessos do NYT de hoje é, segundo sua editora, a seção “Close Read”. A “leitura minuciosa” sugerida pelo título — que, em literatura, indica uma crítica cerrada, que se estrutura a partir de detalhes do texto — consiste na abordagem de uma obra ou artista visual a partir de um conjunto de imagens. À medida que se dá um scroll, surgem comentários curtíssimos, muitas vezes associados com zooms que destacam um ou outro detalhe visual. Na prática, a seção é uma espécie de slideshow de luxo, pois o texto é assinado pelo ótimo Jason Farago, que mostrou a que veio na demolidora crítica da Bienal de Veneza de 2024 e agora é servido picadinho. Ao que tudo indica, está tendo muita saída.

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Não é raro que, nesse registro, qualidade venha sendo voluntariamente confundida com número de views e seguidores. E que esse também seja o principal argumento para refutar qualquer possibilidade de crítica, chegando-se muitas vezes à desqualificação do interlocutor como elitista ou defensor de privilégios de uma minoria intelectual.

Reduzir livros, discos ou exposições ao anedótico vai além da falta de modos: é desserviço mesmo

A afirmação reiterada de uma espécie de fatalismo de mercado lembra o quanto estamos presos, também no campo da cultura e do entretenimento, à hipótese de um “realismo capitalista”, que Mark Fisher definiu como “o sentimento disseminado de que o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, sendo impossível imaginar uma alternativa a ele”. A imposição do critério baseado em números — de audiência, de cliques, de exemplares vendidos — ataca na raiz qualquer discussão sobre qualidade, contexto e outras questões tão “tradicionais” quanto uma resenha.

E tome clipe, tome falatório, tome bizarrice como a seção “Song of the Week”, em que Jon Caramanica, novo titular de pop do New York Times, a cada semana comenta uma canção, por no máximo quatro minutos, enquanto dirige seu carro.

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Tão perverso e pouco inteligente quanto confundir qualidade e consumo é embaralhar didatismo e facilitação. Escrever da forma mais direta possível, dar ao leitor referências mínimas para que acompanhe um raciocínio e se informe sobre o que não conhece são parte do que entendo como os “bons modos com as ideias” — expressão atribuída a Antonio Candido cuja autenticidade jamais consegui checar, mas que vale repetir por seu poder de síntese. Reduzir filmes, livros, discos ou exposições à sua expressão mais simplificada, ao anedótico, vai além da falta de modos: é desserviço mesmo.

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O que passa no fundo desses movimentos estridentes é uma caudalosa corrente de anti-intelectualismo, mais fácil de reconhecer na hostilidade rombuda da extrema direita do que nas performances tiktokizadas. O chão comum aos dois — que não os iguala, bem entendido, mas os reflete de forma preocupante — é a construção de um inimigo imaginário, uma elite cultural que teria o poder desmedido e fantasioso de estabelecer escalas de qualidade absolutas, distribuir prestígio ou determinar expurgos. Nesse ponto de vista cimentado pelo ressentimento, o crítico é o alvo mais óbvio, porta-voz da arrogância “dazelite” e ainda hoje, o que me parece mais patético, caricaturado como um artista frustrado em busca de vingança. Daí a especial assertividade com que se confrontam opiniões desfavoráveis da crítica, obviamente relativas, com números, que se querem irrefutáveis.

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É espantoso que, de tão raras, críticas negativas e incisivas se transformem hoje em assunto. É deprimente que, na busca por novos formatos de comentários, firmem-se critérios completamente aleatórios como a nacionalidade de criadores ou a brevidade dos livros. É preocupante que elogios “à leitura” em si no fundo não levem em consideração o que se lê, como se tudo valesse por tudo só porque está impresso entre duas capas. Finalmente, é sintomático que se elejam obras “fáceis”, por onde supostamente se deve começar para chegar ao “denso” e “difícil”.

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Já que as formas “tradicionais” não vivem seu melhor momento, concluo com a citação não de um livro, mas do Instagram, da conta dedicada à memória de Waly Salomão. Com um saco na cabeça, sentado ao lado de Adriana Calcanhotto nos jardins do Museu do Açude, no Rio de Janeiro, o poeta fala o que passou a ser meu mantra, que hoje sei tradicional, mas jamais conformista:

Não se fala fácil pra garotada de dezessete anos, não. A pessoa começa já sofisticada e refinada, não tem esse negócio de abc, não. Eu só gostei de poesia porque eu lia a poesia de Drummond, que não entendia o significado. Quando você entende inteiramente o significado de uma coisa você descarta igual laranja que você chupou e joga fora. É no enigmático que está a raiz propulsora da arte. Menino que está começando em artes deve descer nas regiões abissais. Se começar fácil, vai ser medíocre e burro, não pode ser assim. O enigma é o esporão que faz disparar a sensibilidade da pessoa.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025. Com o título “Crítica e clique”