Autobibliografia,

Romance tarja preta

Cada um com seus problemas, mas no meu caso O deserto dos tártaros funcionou melhor que clonazepam — e sem efeitos colaterais

17set2026

Li O deserto dos tártaros por recomendação médica.

Ou quase isso: foi meu então psicanalista quem prescreveu o livro. Diferente da terapia do joelhaço e do clonazepam, Dino Buzzati não tem contraindicações.

Minhas elucubrações de divã giravam em falso sobre uma mudança profissional decidida havia meses — mas que, por uma dessas razões que Freud explica e Lacan complica, eu não conseguia colocar em prática.

O romance deu o empurrão que faltava. 

Não um tranco qualquer: aquela forcinha necessária quando você titubeia diante da piscina num dia escaldante. Ali de pé, adia o mergulho por conta dos cinco ou seis segundos que o choque da água gelada leva para se dissipar numa onda de prazer.

O jovem tenente Giovanni Drogo afunda em seu primeiro posto como oficial. O forte Bastiani fica isolado diante de um deserto por onde o tal exército tártaro, se é que existe algo assim, pode atacar, quem sabe, um dia.

Seu impulso inicial é pedir transferência para qualquer guarnição mais movimentada, onde consiga avançar na carreira militar. 

A inércia, porém, tem seus encantos, e ele vai se acomodando por ali.

“Os anos escoam lentos e com passo leve, tanto que ninguém nota sua passagem”, especialmente Drogo. Ele insiste na ilusão de que “o importante ainda está para começar”. Sem que nada realmente aconteça, vive à sombra do “pensamento consolador de que estaria sempre em tempo de partir”. 

Só que a hora da partida não chega.

Até que, após décadas fechado entre as muralhas enquanto há tanta vida lá fora, é enfim forçado a encarar seu verdadeiro inimigo: o tempo perdido.

(Para quem gosta de tabelinhas literárias e busca uma dose de reforço, o tema da paralisia existencial está comprimido na pequena narrativa Diante da lei, de Franz Kafka, com quem, aliás, Buzzati costuma ser comparado.)

O deserto dos tártaros é um antibiótico de amplo espectro contra adiamentos causados pelos mais variados patógenos da procrastinação. Se persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado.

Todo mês, o jornalista e leitor Fernando Luna (@fluna) faz um exposed de seu relacionamento íntimo com um livro.

Quem escreveu esse texto

Fernando Luna

Jornalista, é colunista da Quatro Cinco Um e da revista Gama.