Autobibliografia,
Por mais incrível que pareça
O cronista Antônio Maria é grande entre os grandes e Vento vadio pode provar
30set2025 • Atualizado em: 13out2025Só conhecia Antônio Maria de ouvir falar. Fui ler suas crônicas, enfim, nas duas coletâneas que o recolocaram em circulação no início dos anos 2000, após uns sessenta anos sumido das livrarias.
Benditas sejam as moças e Seja feliz e faça os outros felizes traziam lirismo (“Não sei onde deixei minha poesia. Deve ter sido em um desses bares, por aí.”) e humor (“O pior encontro casual da noite ainda é o do homem autobiográfico. Chega, senta e começa a crônica de si mesmo.”).
Ele era ótimo — a questão é que os outros eram excelentes. Ai de ti, cronista dos anos 50.
O sujeito abria o jornal e, em meio ao ramerrame do noticiário, dava com Rubem Braga. Folheava uma revista e encontrava Paulo Mendes Campos. Ou Fernando Sabino. Ou Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Drummond. Ou Stanislaw Ponte Preta, Lygia Fagundes Telles. Ou Millôr, Otto Lara Resende, Vinicius de Moraes. Ou Nelson Rodrigues.
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Aí aparece um negro, nordestino, gordo e na pindaíba querendo sua coluna no Partenon da imprensa nacional. Ele fazia graça do aparente desajuste: “E com vocês, por mais incrível que pareça, Antônio Maria”.
Parecia incrível demais, e era.
Antes tarde que mais tarde ainda, entendi sua grandeza há quatro anos com Vento vadio e suas quase quinhentas páginas, um corpanzil proporcional ao metro e oitenta de altura e 120 quilos do autor.
A edição desenterrou em arquivos 132 crônicas inéditas em livro — mais que dobrando seus textos em circulação, uma reserva inexplorada do nosso pré-sal literário.
Passei semanas abrindo o livro aleatoriamente, como quem consulta um I Ching dedicado ao amor e à boemia, à noite e à memória. Quando terminei, queria um volume 2. Ainda quero.
Não faltam palavras. A estimativa é que ele tenha publicado umas três mil crônicas. Embora o difícil, o extraordinário, não é escrever três mil crônicas, como Antônio Maria. É escrever uma crônica como Antônio Maria.
Todo mês, o leitor Fernando Luna (@fluna) faz um exposed de seu relacionamento íntimo com um livro.
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