Autobibliografia,

Ouça o livro, leia o disco

O gênio de Patti Smith está na prosa de Só garotos e na poesia de Horses

27nov2025

Tirei Só garotos da estante para uma folheada rápida. 

Quando vi, estava ali havia uma hora. Dias depois, tinha relido suas 260 páginas. Existe teste melhor para medir a força de uma narrativa?

Voltei às memórias de Patti Smith por conta dos cinquenta anos de Horses, celebrados no início do mês. O lançamento do disco marca o final do livro, que cobre os primeiros tempos da artista em Nova York ao lado de Robert Mapplethorpe, na virada da década de 1960 para 1970. 

Ainda de pé, procurava nos últimos capítulos algo sobre a gravação de clássicos como “Redondo Beach”. Na página 229, dei de cara com o retrato que Robert, como ela o chamava, fez para a capa do LP — Patti veste uma camisa branca e segura um paletó preto no ombro, “tipo Frank Sinatra”.

Logo adiante, uma frase sublinhada na minha primeira leitura, uns quinze anos atrás, comenta a imagem e resume a conexão dos dois: “Até hoje quando olho para essa foto, nunca me vejo. Vejo nós dois”.

Vejo nós dois: desde que Michel de Montaigne escreveu um ensaio sobre sua relação com Étienne de La Boétie, ninguém pôs no papel palavras melhores sobre a amizade. O francês explicou o sentimento sem de fato explicar: “Se me pressionarem para dizer por que o amava, sinto que isso só pode ser expresso respondendo: ‘Porque era ele; porque era eu’.”

Só garotos existe porque era Patti, porque era Robert. 

Era assim que ela o via: “O menino que eu conhecera era tímido e pouco articulado. Gostava de ser pego, levado pela mão e de se entregar completamente a um novo mundo. Era másculo e protetor, mesmo sendo feminino e submisso. Meticuloso em seu modo de vestir e se portar, era também capaz de um caos assustador em seu trabalho. Seus mundos particulares eram solitários e perigosos, ansiosos por liberdade, êxtase e desprendimento”.

As lembranças de Patti se misturam com as histórias que o menino meticuloso e caótico não teve tempo de registrar antes de morrer de aids em 1989, aos 42 anos. 

“Por que não consigo escrever algo que faça despertar os mortos?”, ela lamenta no último parágrafo. De certo modo, conseguiu.

Todo mês, o leitor Fernando Luna (@fluna) faz um exposed de seu relacionamento íntimo com um livro.

Quem escreveu esse texto

Fernando Luna

Jornalista, é colunista da Quatro Cinco Um e da revista Gama.

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