Políticas do livro,

O futuro dos livros

Sociólogo analisa o impacto da revolução digital na indústria do livro e lança um alerta para o poder acumulado pela Amazon

18abr2022 - 16h39 | Edição #57

Quando as mudanças advindas da massificação de tecnologias digitais impactaram drasticamente a indústria da música, não faltaram também suposições catastróficas com relação ao futuro do livro. Para muitos analistas apressados, assim como profissionais ansiosos com relação ao seu futuro, o formato impresso parecia ter seus dias contados. O que se pode notar, passada a euforia desde as primeiras experiências com os livros digitais, entretanto, é que a leitura de narrativas longas ainda se dá majoritariamente no formato impresso, e mudanças drásticas nesse sentido não parecem fazer parte do futuro próximo. Isso não significa que o livro, como o conhecemos há pelo menos quinhentos anos, descansa intacto como uma tecnologia insuperável. Foram várias as modificações pelas quais o mercado editorial passou nas últimas duas décadas, englobando desde a sua produção até sua distribuição e seu consumo. Afinal, qual foi o impacto da revolução digital na indústria do livro? Essa é a pergunta que guia As guerras do livro: a revolução digital no mundo editorial, do sociólogo britânico John B. Thompson.


As guerras do livro: a revolução digital no mundo editorial, do sociólogo norte-americano John B. Thompson

O livro promove um mergulho no mercado de obras gerais publicadas em inglês, com foco, sobretudo, em editoras, varejistas e empresas de tecnologia localizadas nos Estados Unidos e no Reino Unido. Com base em mais de 180 entrevistas realizadas entre 2013 e 2019 e dados de empreendimentos editoriais diversos, como estatísticas do setor e cifras de vendas, Thompson criou um panorama amplo e detalhado das mudanças pelas quais o negócio do livro passou nos últimos vinte anos. A obra é fruto de uma vasta experiência anterior do autor que culminou na publicação de outros dois livros sobre o tema, Mercadores de cultura: o mercado editorial no século 21, de 2011, e Books in the Digital Age: The Transformation of Academic and Higher Education Publishing in Britain and the United States (Livros na era digital: a transformação da publicação acadêmica e de ensino superior no Reino Unido e nos Estados Unidos), de 2005. 

Embora o mercado anglófono tenha significativas diferenças com relação ao brasileiro, diversos processos são globalmente disseminados e também nos dizem respeito, já que as modificações que acontecem no mercado nacional são expressivas e estão inseridas numa conjuntura mais ampla. É possível citar a derrocada de grandes redes varejistas como a Cultura e a Saraiva, diversas modificações no setor editorial, inclusive com a incorporação da Companhia das Letras à Penguin Random House, e ameaças constantes de censura e taxação de livros pelo atual governo. Mais do que objetos de consumo e fruição, os livros ocupam um espaço central nas lógicas democrática e civilizacional, merecendo discussões sérias e atentas em relação aos seus rumos. 

Mais do que objetos de consumo e fruição, os livros ocupam um espaço central nas lógicas democrática e civilizacional

O pressuposto do autor é estritamente sociológico. Trata-se de compreender as modificações tecnológicas a partir de sua inserção social. Em quase seiscentas páginas, é possível ter acesso às experimentações e modificações pelas quais passaram os processos de produção, distribuição e consumo do livro, além de detalhes sobre as disputas judiciais e tecnológicas envolvendo grandes editoras e gigantes como Google e Amazon. Embora, no início dos anos 2000, muitas pessoas pudessem esperar mudanças na forma do livro, uma “revolução oculta” é que caminhava em passos rápidos. A digitalização tornou os processos de logística e gestão editorial mais céleres e baratos, os textos digitados e guardados em arquivos editáveis facilitaram etapas cruciais como a de revisão, e a impressão tornou-se mais acessível. O impacto maior, entretanto, se deu no varejo, sobretudo com o surgimento de livrarias virtuais, sendo a Amazon o maior dos exemplos.

Amazon

Surgida em 1995 numa garagem em Seattle, a empresa criada por Jeff Bezos soube utilizar muito bem as vantagens proporcionadas pelas novas tecnologias digitais. Com a proposta de atuar como intermediário entre fornecedores e leitores, sem loja física que demandasse gastos com estoques gigantescos, a Amazon se tornou capaz de disponibilizar uma quantidade de títulos que nenhuma outra grande livraria era capaz. Em um grande mercado como o dos Estados Unidos, a empresa chega hoje a realizar cerca de 50% de todas as vendas aos consumidores finais, patamar que é ainda maior quando se trata de livros digitais. O tamanho que a Amazon alcançou é seu maior trunfo, mas também o maior perigo por ela representado: “Nos quinhentos anos de história da indústria do livro nunca houve um varejista com esse tipo de participação de mercado”. 

O poder de negociação com as editoras é proporcional à sua capacidade de compra, o que tem levado pessoas e corporações em todo o mundo a desconfiar da empresa, buscando alternativas locais como forma de enfrentamento. É emblemático o caso das disputas com o grupo editorial Hachette pela decisão final no estabelecimento dos preços dos livros. No Brasil, a editora Elefante não fornece diretamente seus livros para a Amazon como forma de posicionamento político. Atitudes pontuais, entretanto, parecem não surtir efeito. Isso se dá não somente pelo tamanho que ela conquistou no mercado, mas, sobretudo, como alerta Thompson, pela grande quantidade de informações que ela detém sobre os consumidores.

‘Nos quinhentos anos de história da indústria do livro nunca houve um varejista [Amazon] com esse tipo de participação de mercado’ 

Desde que a Amazon deixou de ser apenas uma livraria e passou a se dedicar a todo tipo de produto, o número de clientes ativos chegou a patamares difíceis de imaginar antes da revolução digital. Hoje são mais de 300 milhões de usuários espalhados pelo mundo. Em um dos pontos altos do livro, Thompson chama a atenção para o poder que essa grande quantidade de pessoas cadastradas dá à empresa. A partir das informações geradas pelas diversas interações que os usuários mantêm com o site da Amazon, é possível direcionar sugestões de novas compras, publicidades e estratégias de marketing, além do desenvolvimento mais preciso de novos produtos. A quantidade de informações detida pela Amazon é, sem dúvida, uma grande vantagem com relação às suas concorrentes e gera um poder difícil de mensurar e combater. Isso se dá, como alerta Thompson, porque “as assimetrias estruturais associadas à coleta e ao uso de dados pessoais e à sua conversão em capital informacional não podem ser tratadas unicamente por meio de decisões individuais de usuários e fornecedores: elas levantam questões fundamentais a respeito da posse e do uso de dados pessoais na era digital que só podem ser tratadas coletivamente e, em última análise, pela ação conjunta dos Estados”. 

A necessidade de discussão dos marcos legais relacionados ao universo dos livros na era digital é urgente, e as discussões propostas por Thompson são de enorme serventia. Infelizmente a promessa de um mergulho no “caos do mundo social”, feita pelo autor, é apenas parcialmente cumprida. Thompson despende muitas páginas discutindo os modelos de negócio do livro na era digital e reserva pouquíssimo espaço para análises mais detidas sobre as consequências sociais dessas inovações. 

Para quem conhece alguns dos seus livros anteriores, como O escândalo político: poder e visibilidade na era da mídia (2000) ou A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia (2005), fica uma sensação de que discussões mais aprofundadas poderiam ter sido realizadas. Essa falta, entretanto, não chega a ofuscar a importância da obra, ainda mais quando se compara a outras que têm saído sobre o tema, grande parte apenas relatos impressionistas sobre elementos particulares do mercado editorial. O que se apreende da análise de Thompson é alarmante o suficiente para que se interrompa o silêncio e se aprofundem imediatamente as discussões sobre o lugar dos livros na nossa sociedade.

Quem escreveu esse texto

Leonardo Nóbrega

É pesquisador do Cebrap e professor do Instituto Federal de Pernambuco.

Matéria publicada na edição impressa #57 em fevereiro de 2022.