Políticas do livro,

Os favoritos

Bíblia, "O pequeno príncipe", "Harry Potter" e "Dom Casmurro" são alguns dos livros preferidos dos brasileiros

29out2020 - 02h24

Em consulta rápida à internet, encontra-se o que lá se define como leitor: “[…] aquele que lê para si, mentalmente, ou para outrem, em voz alta, textos escritos; […] aquele que tem o hábito de ler".

Ambas as definições, bem curtinhas e de fácil compreensão, não são muito diferentes – na verdade, são até um pouco mais elaboradas – do que a resposta que se teria se se fizesse a pergunta como você definiria um leitor? Ou o que é um leitor para você? Por exemplo, jovens na porta de uma faculdade.

É sobre esta fascinante e tão discutida figura de leitor, envolvida com textos escritos e leituras, que se debruçam – há dezenove anos – as várias edições da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, cujos resultados mais recentes foram divulgados.

Seguindo padrões internacionais (Cerlalc/Unesco) – o que permite comparação de seus resultados com outros resultados da América Latina -, a pesquisa refina e detalha a identidade do leitor brasileiro, estabelecendo um critério extremamente objetivo para definir quem, na pesquisa, será considerado leitor e quem será considerado não leitor.

Dos 8.076 brasileiros maiores de cinco anos entrevistados entre 28 de outubro de 2019 e 13 de janeiro de 2020, foram considerados leitores aqueles que declararam ter lido um livro, inteiro ou em partes, nos três meses imediatamente anteriores à pesquisa.

O número deles (na amostra) soma 4.270, um pouco menor do que o registrado pela pesquisa anterior. De 56% de leitores em 2015, passa-se a 52% em 2019.

A pesquisa é extensa, muito detalhada e muito cuidadosa.

Ela ensina, por exemplo, que os leitores brasileiros leem mais em casa do que em qualquer outro lugar (aí incluídas escolas e bibliotecas), que nem sempre têm tempo para ler, que falta paciência para leituras mais alongadas, que grande parte deles começa a leitura de um livro e a larga, que muitos releem partes de um livro e muitas vezes releem repetidamente o mesmo livro …

Enfim, essas são as vozes que, quando ouvidas, geram preocupação relativa à falta de leitura do brasileiro.

A este quadro, que tem algumas pinceladas efetivamente negativas, a pesquisa também nos oferece outro, muito sugestivo para o delineamento de projetos voltados para difusão e aprimoramento de práticas de leitura. A partir das respostas dos entrevistados, foi possível estabelecer uma subclasse de leitores: os leitores de literatura.

Vamos a eles. Dentre os 8.076 brasileiros que constituem a mostra da pesquisa e dentre os 4.270 considerados leitores, 2.335 são considerados leitores de literatura. Eis aí um tópico da pesquisa que provoca reflexões. Quando lhes foi perguntado o que estavam lendo nos arredores da época da pesquisa, estes considerados leitores de literatura deram respostas bastante surpreendentes.

Exemplos

Cá segue um deles: dentre os títulos mais citados destacam-se: Bíblia, O pequeno príncipe, Diário de um banana, Harry Potter, A cabana, A culpa é das estrelas, Dom Casmurro, Cinquenta tons de cinza, Branca de Neve e os sete anões e Turma da Mônica.

A liderança da Bíblia entre os títulos mencionados como preferidos não surpreende. Além disso, o destaque de que desfruta corrobora resultados de pesquisa da Câmara Brasileira do Livro (CBL) relativa a 2018, que registra livros religiosos como o gênero que ocupa o segundo lugar em títulos editados, com 87.061.285 exemplares (a categoria livros religiosos perde apenas para didáticos). Os demais títulos citados pelos leitores podem ser classificados como literatura, no que continuam a replicar-se as pesquisas do IPL e da CBL. Do ponto de vista da produção editorial, ao tema religião segue-se literatura. Subdividida entre adulta (26.403.505 exemplares), infantil (13.538.265 exemplares), juvenil (6.267.296 exemplares) e jovem adulto (2.267.296 exemplares) o gênero registra uma tiragem de 48.788.758 exemplares.

Além deste varejo de similaridades entre as duas importantes pesquisas, também no atacado elas se complementam: o decréscimo no número de leitores registrado pelo Retratos da Leitura combina com redução de 11,03% no número de exemplares produzidos.

Deixando os números um pouco de lado e observando mais de perto o que dizem ler os entrevistados, a discussão pode ganhar fôlego. Chama a atenção, por exemplo, a heterogeneidade dos títulos elencados.

Logo depois da Bíblia, ficam empatados, num segundo lugar O pequeno príncipe, Diário de um banana e Harry Potter.

O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupery é obra francesa de 1943, lançada no Brasil em 1954. Tendo caído em domínio público em 2015 teve por aqui várias reedições, o que seguramente lhe deu considerável mídia. Diário de um banana, do norte-americano Jeff Kinney é de 2007, e na sequência de seu estrondoso sucesso, gerou uma serie cujo primeiro volume foi lançado no Brasil em 2009. Harry Potter, da inglesa J.K.Rowling, é de 1997 tendo sido lançado no Brasil em 2000. Trata-se também de uma série e foi seguido da inauguração de um parque temático.

Entre os dez títulos elencados, perspectiva mais tradicional da noção de literatura poderia apontar que apenas Dom Casmurro pode ser indiscutível e rigorosamente, considerado obra literária. Mas … como a pesquisa inclui leitores infantis, Branca de Neve e os sete anões também se identifica como obra literária passível de ser mencionada pelos entrevistados. O mesmo se aplicaria à Turma da Mônica, ainda que seu suporte não seja necessariamente um livro? Sim, pois a pesquisa também registra leitores de literatura que leem literatura em outros suportes.

Talvez mereça reflexão cuidadosa a absoluta predominância de best-sellers, representados pelos demais títulos mencionados, ao lado da pouca presença de escritores brasileiros e – exceção feita a Maurício de Sousa – a frequência ainda menor de autores brasileiros contemporâneos.

Onde estarão eles?

Um outro item de leitura contemplado pela pesquisa, que investiga os escritores preferidos dos leitores de literatura, pode encaminhar uma resposta. Aqui se incluem alguns autores brasileiros mais atuais. Os leitores de literatura elencam como autores de que mais gostam Machado de Assis, Monteiro Lobato, Jorge Amado, Paulo Coelho, Carlos Drummond de Andrade, Augusto Cury, Zibia Gasparetto, Maurício de Souza, Clarice Lispector, Alejandro Bullon.

Com exceção de Machado de Assis e Maurício de Souza, nenhum dos outros tidos como preferidos comparecem na lista de leituras em curso ou recentes. Qual seria o sentido desta discrepância?

A discussão da questão pode ser bastante sugestiva para educadores, pais e editores. Em outro quesito da pesquisa, os entrevistados dizem que o que os leva a ler é gosto e busca de distração. Talvez comparando as respostas dos entrevistados a diferentes questões levantadas pela pesquisa, encontrem-se – nesta última versão dos Retratos da Leitura no Brasil – sugestões muito úteis para projetos e campanhas comprometidos com difusão e aprimoramento de práticas leitoras no Brasil.

Quem escreveu esse texto

Marisa Lajolo

É professora titular aposentada da Unicamp e leciona atualmente na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Publicou com Lilia Schwarcz Reinações de Monteiro Lobato uma biografia (Companhia das Letras).