Mal-estar na civilização, Política,

72 horas em Brasília

No terceiro andar do Palácio, sozinho diante do Di Cavalcanti esfaqueado. Crônica da transição

01fev2023 - 04h51 | Edição #66

Nem o comunista que projetou o Palácio do Planalto o poupou de uma zeladoria cronicamente brasileira. Aos fundos e diminuta, é uma saleta onde espremem-se móveis ostensivamente não assinados. Duas mesinhas insípidas, um estreitíssimo armário de metal, uma poltrona preta de couro falso emborrachado, um escaninho para correspondência e um pequeno quadro de chaves. Desprovida de ar-condicionado no projeto original, a zeladoria é rasgada por um tubo metálico que liga um climatizador no chão à coifa no teto — ofendendo o mármore que reveste a sala, mas oferecendo alguma dignidade térmica aos trabalhadores entregues ao sol e ao escrutínio público pelas paredes de vidro que dão à parte externa. Mas naquele dia 11 de janeiro de 2023 estava tudo arrebentado.

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A poltrona com o encosto queimado, derretido. A espuma do assento cavucada. A porta arrombada e esburacada por algum tipo de haste. Mesas lascadas, gavetas ausentes. Dentro do armário sem a porta, só um guarda-chuva, também avariado. A chaminé foi rompida e amassada. O quadro de chaves com o vidro quebrado e nenhuma chave dentro.

Do lado de fora, sem cruzar o batente, apontei o celular para fazer uma foto desse vandalismo sem élan, sem o glamour trágico de um Di Cavalcanti esfaqueado. “Isso a Globo não mostra”, eu planejava a legenda no Instagram. Nada feito. Em segundos surgiu um meganha sem patente definida. Farda toda preta, brasão da República bordado no alto do braço.

“Sem fotos”, postulou, colocando-se impávido à minha frente, fitando o nada.

“Ah, vá”, resmunguei, sem esperar compreensão do sujeito destacado para garantir a inviolabilidade fotográfica da zeladoria vilipendiada livremente três dias antes.

Fazer o quê? Em poucos passos voltei à longa fila que contornava o Palácio. Muita gente ainda chegando para o primeiro evento no Planalto desde os ataques bolsonaristas na praça dos Três Poderes: as posses ministeriais de Anielle Franco como ministra da Igualdade Racial e de Sonia Guajajara como a primeira ministra dos Povos Indígenas do Brasil. Dada a gravidade da data e o peso institucional, o presidente Lula havia confirmado presença. Não era pouca coisa.

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No salão nobre do Palácio do Planalto, exatamente onde a subida da rampa desemboca, centenas de pessoas circulavam, conversavam e buscavam reservar um bom assento. Representantes de diferentes povos indígenas em indumentárias distintas, muitos vindos em caravanas rodoviárias ou em voos de três escalas. Moradoras e moradores de favelas, periferias e comunidades, lideranças, ativistas, militantes do movimento negro e feminista. Pajés, caciques, xamãs, babalorixás e civis protegidos por guias ao redor do pescoço. Gente em paletós novíssimos e gente com a camiseta surrada de seu movimento social. Representantes de ONGs ambientais, de direitos humanos. Antropólogos, carnavalescos, quilombolas e gente exonerada pelo ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles.

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O ruído era alto e feliz. Os abraços longos e saudosos. Mas o ar de Brasília ainda entrava estranho e espesso pelas esquadrias sem vidros. Os poucos que sobraram estavam todos trincados, não deixavam ninguém abstrair a violência que tomou aquele mesmo salão 72 horas antes.

Assentos tomados, imprensa posta no mezanino, ogãs dão início ao ponto em atabaques. O leitor da Quatro Cinco Um há de ter visto a cena. Cantando, Mãe Dora, do afoxé Ogum Pá, desce a rampa que liga o terceiro andar — onde fica o gabinete presidencial — ao salão nobre. Atrás dela, mulheres dançando, abrindo os caminhos para a descida de Lula, Janja e as novas ministras, Sonia e Anielle. No cortejo, descem atrás delas Silvio Almeida, Dilma Rousseff, Flávio Dino, Geraldo Alckmin. O salão irrompe em aplausos, gritos e uma centena de celulares transmitindo ao vivo, na vertical. Gente de punho em riste e aos prantos. Jornalistas credenciados enxugando as lágrimas. O ponto dos atabaques segue firme. Era como se estivéssemos lá não para uma formalidade, mas para uma sessão de descarrego. Para um tipo de limpeza que a faxina não dá conta.

Era como se estivéssemos lá para uma sessão de descarrego; para um tipo de limpeza que a faxina não dá conta

A primeira a discursar foi Sonia Guajajara. Falou de garimpo ilegal, desmatamento, apagamento étnico, cultural e cosmológico. Falou de mudança climática, de identidade e de seus ancestrais. Falou também que todo seu primeiro escalão será indígena. Que a Funai será controlada por uma indígena. Falou que o futuro é indígena ou não será. Ela lembrou dos nomes de indígenas mortos nos últimos quatro anos. Lembrou de Bruno Pereira e Dom Phillips. Ainda não estavam em circulação as recentes fotos e os números do genocídio bolsonarista na terra yanomami. Mas as entranhas da pátria amada estavam evocadas no recinto: vendida como civilização, a empreitada brasileira sempre foi, para os povos originários, a pura expressão da barbárie.

Uma luz dourada tomou de súbito o salão quando passava das cinco. O sol deitado lustrou os cocares iridescentes na plateia e varou de beleza até a destruição do palácio que, por alguns momentos, parecia adequadíssima à ocasião. Sonia discursava e um bebê indígena desatou a chorar até que sua mãe voltou do banheiro. O choro silencioso de Marina Silva ali na primeira fila, de mãos dadas com Margareth Menezes, ninguém estancou.

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Na cerimônia estava o tipo de pessoa que Bolsonaro falava em metralhar durante a campanha. Um projeto em parte executado. Muita gente na sala, inclusive, chorava a falta dos que poderiam, dos que deveriam estar ali mas foram mortos pelo bolsonarismo nos últimos anos. Foi chorando a falta de sua irmã que a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, começou seu discurso. Ela falou de Marielle sem verbalizar a proximidade, a relação e os interesses comuns entre a família Bolsonaro e os milicianos que a executaram em 2018. Não precisou lembrar do esforço explícito que o ex-presidente fez para abafar as investigações do caso. Os vidros quebrados, as obras de arte rasgadas, os cacos da invasão bolsonarista àquele mesmo salão nos lembravam o tempo todo.

Há uma linha contínua entre o assassinato de Marielle e a invasão aos três poderes. Entre a portaria inviolável do Vivendas da Barra e a zeladoria depredada do Palácio do Planalto. Uma linha que rasura — ao ponto de deixar ilegível — o novo slogan do governo federal impresso diante de nós: União e Reconstrução.

Certos conflitos não são conciliáveis. Certas uniões não são possíveis. Certas restaurações não são desejáveis

Certos conflitos não são conciliáveis. Certas uniões não são possíveis. Certas restaurações não são desejáveis. São verdades que não podem ser ditas por políticos eleitos. Mas que estavam muito bem expressas naquelas duas posses no salão nobre arrebentado. Há um conflito irreconciliável no país, uma condição autoimune, uma repulsa do Brasil por sua outra metade. “Sem anistia!”, gritavam em coro os presentes diante de políticos em silêncio assertivo.

Anielle Franco discursava alta, altiva, trajada e penteada em gala afro-brasileira, cercada de mulheres negras carregando encarnações de luta e resistência. Acima de nós, no mezanino, estava o relógio quebrado de d. João 6º e o Di Cavalcanti esfaqueado: “As mulatas”. Era vivo demais, real e inacreditável demais. O simbolismo transcendia a metáfora. Era tudo absolutamente óbvio e ainda intraduzível. Lugar estranho para um jornalista — pode não haver muito a ser dito no desenrolar de um momento histórico. A situação era eloquente o bastante.

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Antes de o evento acabar, o presidente da República assinou um projeto de lei, aprovado no Congresso, mas que Bolsonaro preferiu não subscrever, transformando injúria racial em crime de racismo. Foi declarado o fim de cerimônia. Uma procissão de celulares correu para o palco. Lula, Janja, Geraldo, Rui, Silvio, Dino, Anielle, Sonia… alguém aparece nessa selfie, pelo amor de Deus. Algum tipo de recibo público era fundamental para a pós-catarse cívica. Sempre avesso a aglomerações, muito antes de virar modinha na pandemia, decidi aguardar minha vez no lugar mais vazio do recinto: a chegada da rampa. Vista de cima ela parece mais estreita, curta. As proporções do palácio, a distância mal resolvida até o Supremo Tribunal Federal no lado oposto, tudo cria uma sensação etérea e pacata de estranhamento.

Não satisfeito com os acessos de choro durante as posses, tentei visualizar o Cacique Raoni, a catadora Aline Sousa, os representantes do povo brasileiro subindo a rampa até o ponto onde eu estava parado. Tentei achar algo a mais para sentir naquele lugar, quem sabe outra choradinha de saideira. Mas nem apelar para a memória da vira-lata Resistência adiantou. Seco, surrado de tanto simbolismo, só consegui achar graça na quantidade obscena de policiais, Guarda Nacional, blindados e viaturas na praça dos Três Poderes.

O Twitter já havia me informado que eles bloquearam o acesso à Esplanada durante todo o dia. Estavam lá para impedir uma nova intentona bolsonarista. A “Retomada do Poder”. Era a promessa entre os subversivos no Telegram e o temor da Inteligência Federal. O saldo: dois manifestantes, um casal, apareceu para o protesto. Diante de cem policiais e mais de vinte jornalistas, a mulher trajando uma camisa da seleção com o número 22 nas costas resumiu: “esperava mais gente”. Enquanto isso, a Papuda começava a receber as centenas de presos pelos atos do domingo.

Esperava menos gente, confesso.

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Acordar em Brasília é uma experiência especialmente árida para quem não tem uma agenda definida. Tentando marcar um almoço e dois cafés à tarde com amigos recém-nomeados na cidade, aproveitei a manhã para ver em que estado ficou o STF. No táxi, o mesmo diagnóstico que escutei de outros três motoristas. Algo nessa linha:

“Votei no Bolsonaro, mas aquilo lá foi um absurdo, está errado. Porque afasta os turistas de Brasília. Para a gente, taxista, é muito ruim. Perde serviço.”

Esse outro foi um pouco além:

“Eu acho que teve roubo na urna eletrônica, não dá para confiar. Mas está errado quebrar as coisas. Não é assim que faz para resolver”.

“E como faz?”, eu quis saber.

“Monta um partido, se candidata, entra para a política.”

“O Lula sempre fala isso, sabia?”, ponderei.

“Esse aí não vale nada… mas agora tem que aceitar. Tomara que dê certo, né? Ah, parece que já abriu a Esplanada.”

O taxista tem razão: poucos turistas na capital. Duas ou três figuras humanas entravam no Museu Nacional da República. Uma dezena na Catedral. Ao ser deixado no canto direito da praça dos Três Poderes, o mais perto possível do STF, esperava encontrar fotógrafos, curiosos e moradores da cidade testemunhando o início dos reparos do Supremo. Nada disso.

Não foi uma manifestação de vândalos, terroristas simplesmente. É uma expressão estética do que também significa o Brasil

A única atividade era a da equipe de limpeza na área externa. Se é que dá para chamar de atividade. Três homens passavam sem qualquer convicção um rodo em torno da estátua da Justiça. Um perito de jaleco parecia desconcentrado em torno da obra de Alfredo Ceschiatti que havia sido lavada há pouco. O Wap que limpou o pixo “Perdeu, mané” do peito da Justiça ainda estava lá, vazando água. Uma outra mangueira aberta criava novas poças rasas diante do Tribunal. Nenhum dos homens passando rodo tratou de fechar a torneira. Não parecia ser tarefa deles.

Finalmente surge outro civil interessado na praça. Um homem de bicicleta, barba desenhada, torso e braço estufados dentro de uma camisa apertada. Tatuado com mensagens cristãs, mantinha uma só mão no guidão. A outra segurava um celular filmando seu próprio rosto. Ele circulava em frente ao STF e eu conseguia escutar fragmentos do que ele dizia à câmera. Algo sobre Lula. Algo sobre corrupção. Algo sobre patriotismo. Ele passeava livre entre os blindados da Força Nacional ainda de prontidão caso ele resolvesse tomar a República por conta própria. Outra voz surge perto de mim. É uma mulher vestindo uma bandana da bandeira brasileira. Também falando sozinha ao celular. Algo sobre a não validade da Constituição de 1988, sobre Alexandre de Moraes. E começa a narrar seu currículo profissional enquanto caminha sob o sol em direção ao Planalto. Deu para ver que estava ao vivo no Instagram.

Brasília tem os mais lindos e sedutores palácios. Mas não tem uma montanha para que se possa ver além dela

Fala-se muito em extrema direita, em fascismo, em terrorismo brasileiro. São termos adequados para qualificar o movimento bolsonarista. Mas não suficientes. O que se chama — adequadamente — de tentativa de golpe no dia 8 de janeiro não foi apenas isso. Além de conspiração militar, da incitação e de todo o financiamento, há um curto-circuito entre o indivíduo e a sociedade. E não parece haver fusível para interromper a corrente. Uma distopia neural que aconteceu em boa medida pela câmera frontal do smartphone e gerou um novo sujeito político. Que não diferencia, porque já não há diferença, entre falar para si mesmo e para o mundo. Entre broadcast e esquizofrenia midiática. Uma implosão íntima e uma explosão coletiva. Os cacos estavam ali, diante do cabeção esculpido de jk na praça dos Três Poderes.

Credo.

*

À tarde, voltei ao Palácio do Planalto. Dessa vez para conversar com um amigo nomeado para uma secretaria ligada à Secom. Um grande sujeito. Eu esperava uma conversa aberta, sem pauta, sobre os próximos tempos. Queria saber como ele imaginava uma participação mais permeável da sociedade naqueles gabinetes. Queria saber como ele estava e se precisava de alguma coisa. Mas foi como propor uma sinuca durante um terremoto.

O encontro não durou dez minutos. Atrasado por causa de uma reunião sobre fake news, tinha que correr para uma reunião de emergência no Ministério da Justiça, mas não antes de ser convocado subitamente para uma conversa no gabinete da primeira-dama. Minha agenda estava de novo livre. Mas dessa vez fui deixado no terceiro andar do Palácio, sozinho diante do Di Cavalcanti esfaqueado.

Ainda havia cacos não varridos sob o quadro. Diante dele, um círculo de poltronas desenhadas por Niemeyer ocupadas por homens esperando alguém, todos afundados em seus celulares. Ninguém no andar dava bola àquele quadro imenso e traumatizado. Era um estranhíssimo privilégio, a chance de ter um momento a sós com aquela obra que, de quadro, virou um monumento depois das facadas.

A promessa do modernismo brasileiro, o estilo poderoso e aberto, a síntese estética antropofágica, a miscigenação para além do trauma colonial. Um painel de mulheres negras pintado em 1962 por um mestre dentro de um palácio construído no meio do nada — como uma promissória de emancipação inconsequente e linda a ser paga por nós, no futuro. Agora presente.

Foi uma promessa inadmissível. A dívida que a empreita colonial brasileira não aceita como sua. É esse o paradoxo de chamar de Brasil dois conceitos antagônicos. Não é polarização, nunca foi. É um oxímoro em forma de país. As facadas no quadro são pinceladas do patriotismo autoxenófobo que está conflagrado diante e dentro de nós. Não foi uma ação de bárbaros, de vândalos, de terroristas simplesmente. É uma expressão também estética do que também significa o Brasil.

Na hora me volta à mente a conversa que tive na noite anterior, no Beirute da Asa Sul, com Davi Kopenawa, o líder yanomami. Por uma feliz coincidência, sentamos juntos para jantar — um pot-pourri de comida árabe mais fritas. Já nos conhecíamos de uma oportunidade em Roraima, há treze anos. Mas essa foi a primeira vez em que rimos juntos quando, instigados por alguém na mesa, imitamos o presidente Lula um para o outro. A imitação de Davi é bem melhor do que a minha.

Antes de ir embora, ele tentou resumir qual é seu trabalho como o principal xamã do povo yanomami. “Eu tenho que ver, olhar. Tem que ver para frente, mas com as costas também ver o que vem atrás. Tem que saber ver nos sonhos também. E tem que saber ver o mais importante.”

“O quê, Davi?”

“Tem que saber ver o que está atrás da montanha”, e faz uma parábola com o dedo indicador. “O xamã tem que ver o que tem atrás da montanha e dizer para vocês.”

“E o que tem lá, Davi?”

“Água limpa, ar bom, comida boa.”

***

Voltando pela Esplanada em direção ao aeroporto, o taxista falava que tinha sido militar e blablablá. Eu não escutava mais nada. Só via longe o horizonte desobstruído e aviões subindo e descendo ao longe. E lamentando que jk não frequentasse xamãs em vez de centros espíritas. Brasília tem os mais lindos e sedutores palácios. Mas não tem uma montanha para que se possa ver além dela. 

Quem escreveu esse texto

Bruno Torturra

Jornalista e fotógrafo, pesquisa psicodélicos desde 2006.

Matéria publicada na edição impressa #66 em dezembro de 2022.