Literatura,
Razão e sagacidade
Nos 250 anos de Jane Austen, seus romances ainda fascinam leitores, e é um grande equívoco considerá-los historinhas românticas
12dez2025Quando se celebram 250 anos de um nascimento, poucos refutariam que se trata de um fenômeno. Neste dezembro, é o que se comemora com Jane Austen (1775-1817). Uma das grandes romancistas de língua inglesa, sua reputação se assenta não só em seus seis romances — Razão e sensibilidade (1811), Orgulho e preconceito (1813), Mansfield Park (1814), Emma (1816) e os póstumos A abadia de Northanger (1818) e Persuasão (1818) —, mas também em sua juvenília e obras inacabadas, que despertam interesse cada vez maior entre críticos e leitores contemporâneos. Mas nem sempre foi assim.
Durante sua vida, seus romances lhe trouxeram pouca fama e sua popularidade, de início restrita a um pequeno círculo de leitores, só se ampliou gradualmente graças ao empenho de sua família e de seus primeiros críticos. Como a maioria das escritoras de sua época, Jane Austen publicou seus quatro primeiros romances anonimamente. A autoria só foi revelada quando seu irmão Henry Austen incluiu uma “Biographical Notice of the Author” [Nota biográfica da autora] junto à edição das duas obras póstumas.
Ao morrer precocemente, logo após completar quarenta anos, Austen não pôde experimentar o reconhecimento que a posteridade lhe reservaria e não viria a saber que se tornaria uma das escritoras de língua inglesa mais celebradas e lidas. Alex Woloch, um dos grandes especialistas nas obras de Austen, frisa: “A esta altura, sua centralidade está tão estabelecida que ela é de certo modo como Shakespeare”.
Se Reminiscências de Jane Austen (1870), de seu sobrinho James Edward Austen-Leigh, foi responsável por apresentá-la a um público mais amplo, foi a edição em 1923 de seus romances e correspondência pelo estudioso R.W. Chapman (com a colaboração da esposa, Katherine Marion Metcalfe) que se converteu em referência e, de certo modo, conferiu um status canônico à romancista.
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O renome de Austen só cresceu desde então, em decorrência não apenas de sua produção literária, mas também dos filmes e séries que sua obra tem inspirado. A estas adaptações, inauguradas pelo filme hollywoodiano Orgulho e preconceito, de 1940, se acrescentou mais contemporaneamente a moda da fanfiction, com prequelas e sequências em que se retomam personagens, cenários e situações para criar novas tramas.
Sonhadoras
Objeto de culto de uma legião de fãs, os romances de Austen são, muitas vezes, tomados como narrativas de amor e casamento, meras historinhas românticas para consumo de jovens sonhadoras. Nada mais equivocado. Amor e casamento estão, de fato, no centro de seus enredos simplesmente porque estas eram questões cruciais para as jovens daquele tempo, de cujas escolhas dependiam seu destino e futuro.
Austen dramatiza (no sentido de forma dramática) a difícil condição das mulheres dos estratos médios e altos da sociedade inglesa, para quem o mundo do trabalho e da educação formal era vedado e o casamento era, comumente, a única garantia de segurança social e econômica, na falta de pai ou irmãos (como para Eleanor e Marianne em Razão e sensibilidade).
Apesar de só ter tido dois anos de escolaridade e da vida circunscrita à esfera privada, Austen, grande leitora que foi, criou uma obra extraordinária, marcada pela capacidade de observação, pelo olhar agudo às fraquezas, mesquinharias e presunções humanas e pelo apuro formal. São notáveis seu controle da estrutura narrativa e do ponto de vista, o senso de ordem e equilíbrio, o talento para a criação de personagens complexas e memoráveis, o comentário social e o uso magistral da ironia.
Austen criou personagens complexas e memoráveis e é notável o comentário social e seu uso magistral da ironia
Pianista habilidosa (ela tocou pianoforte durante toda a vida) e apreciadora da arte dramática, Austen tinha um ouvido aguçado para o diálogo e sabia compor cenas reveladoras do caráter de suas personagens. A conversação, componente importante do status social e da etiqueta no período regencial inglês (1811-1820), se converte em elemento interno no enredo a fim de expor as diferenças sócio-econômicas e de comportamento, assim como os mecanismos que regem a vida em sociedade.
Além disso, credita-se a Austen o uso extensivo e consistente do discurso indireto livre em língua inglesa, uma inovação técnica que ela transformou em recurso pervasivo a fim de representar os pensamentos mais íntimos de suas personagens.
Crítica atual
Esses traços conferem aos romances de Austen domínio do ritmo narrativo, lhe permitem descrever as realidades da vida cotidiana de sua época e, ao mesmo tempo, comunicar-se com os leitores contemporâneos. Forma literária brilhante, sagacidade, ironia, somadas à crítica, às práticas sociais e ao foco nas restrições impostas às mulheres, deveriam desencorajar qualquer tentativa de enquadrar Austen e seus romances na categoria de publicações para mocinhas.
Diante das limitações que enfrentou e das poucas oportunidades que a sociedade lhe ofereceu, é excepcional o que Jane Austen realizou: ela se tornou uma escritora icônica, uma figura literária de alto relevo, e nos legou uma obra cujo refinamento e atualidade se comprovam pela sua presença na cultura contemporânea.
É sempre necessário enfatizar isso, pois como afirmou Virginia Woolf em uma resenha de 1923, “de todos os grandes escritores, ela é a mais difícil de apreender no ato de grandeza”.
