Literatura,

O poeta afro-gaúcho

Idealizador do Dia da Consciência Negra, Oliveira Silveira exaltou em seus versos o pampa brasileiro e a ideia de um africanismo pan-americano

05set2022 - 16h10

A etiqueta da biblioteca, com a localização do livro na estante de poesia sul-rio-grandense, esconde um aviso: “Ofereça este livreto a uma pessoa negra”. Confeccionado artesanalmente, com tiragem diminuta e em edição do autor, Pelo escuro: poemas afro-gaúchos, publicado em 1977, é um dos inúmeros livros do poeta Oliveira Silveira (1941-2009). É nele que consta um dos seus poemas mais simbólicos, “Obrigado, minha terra”, com versos que dão conta do racismo enfrentado em seu Rio Grande do Sul natal:

Obrigado pelo preconceito
com que até hoje me aceitas.
Muito obrigado pela cor do emprego
que não me dás porque sou negro.
E pelo torto direito
de te nomear os defeitos.
Tens o lado bom também
– a terra natal sempre tem.
Agradeço de todo o coração
e sem nenhum perdão.

Além de poeta, Silveira também foi um dos idealizadores do Dia da Consciência Negra. Em plena ditadura militar e gerando desconfiança dos órgãos de repressão, o poeta e os colegas do extinto grupo Palmares, de Porto Alegre, escolheram o 20 de novembro, em 1971, em homenagem ao herói negro Zumbi (1655-95). Em 1978, a data seria oficializada em Salvador em encontro do Movimento Negro Unificado (MNU) e adquiriria caráter oficial em diversas capitais — curiosamente, no entanto, em Porto Alegre, onde foi criada, nunca foi feriado. E, se Silveira também nunca foi patrono da tradicional Feira do Livro de Porto Alegre, uma das maiores da América Latina, ele é agora o homenageado do Festival Internacional Literário de Gramado (Filigram), que estreia no calendário dos grandes festivais literários com convidados como a sul-africana Futhi Ntshingila e o português Afonso Cruz.

A homenagem joga luz sobre o percurso poético de Silveira, que, segundo o poeta Ronald Augusto no prefácio da Obra reunida (2012, Instituto Estadual do Livro) do escritor, “projeta o poema como uma fatura sígnica cuja existência não pode se justificar apenas para servir às necessidades de certas interpretações, por mais bem intencionadas que elas sejam”. A organização do volume foi feita a partir de um minucioso cotejo dos originais — trabalho árduo, visto que Silveira trabalhava continuamente nos poemas, voltando anos depois aos versos e alterando detalhes aparentemente mínimos. Por exemplo, no poema “Gaúcho negro mateando”, uma versão anterior trazia o título “Gaúcho de cor mateando”. É um belo poema, em que Silveira funde o pampa gaúcho, onde nasceu, ao Congo. Os versos falam do hábito cultural, e também afetivo, de matear (tomar chimarrão) usando a cuia de porongo, um planta nativa da África.

Meu requeimado porongo
preto aconchego do amargo
sinto em mim quando te afago
velhas raízes do Congo
Na palma da mão te inflamas
e me permites que sinta
a forma quente das mamas
de uma crioula retinta.

No trecho, Augusto observou que onde se lê “permites que sinta” o poeta havia escrito “propicias que eu sinta”. Também ele um poeta negro, Augusto, que conviveu com Silveira, salienta o quanto a poesia deste é sofisticada e deve ser lida para além da lente do racismo: “Tudo isso é importante, mas sua poesia não se submete inteiramente a essas boas intenções da luta e não se esgota nesse debate”. 

Todamérica

No livro Praça da palavra, de 1976, também em uma edição do autor — encontramos um exemplar com sua dedicatória a um “colega de letras e querido amigo” —, Silveira escreveu o poema “Pobre menino preto”, sobre um garoto que se imagina o mocinho nas brincadeiras com sua turma, mas a quem não é permitido tal papel: 

Não cola
porque eles o imaginam
chita
macaco
chipanzé
orangotango.
Não pode brincar de Zumbi
ou Toussaint-Louverture
porque são heróis de verdade
que ninguém conhece
nem ele mesmo nunca ouviu falar. 

Ao citar Louverture, líder da Revolução Haitiana, considerado o maior revolucionário negro da América, Silveira fornece indícios de seu próprio cânone. Em Roteiro dos tantãs, um livro de 25 páginas publicado por ele em 1981, uma ideia de africanismo pan-americano aparece de forma mais clara quando ele cita tanto os escravizados do Sul estadunidense como os das Antilhas e do Haiti. No poema “Alô”, ele saúda “Todamérica”, citando Guianas, Suriname e Colâmbia; e no poema “Resgate (Década de 60)”, fala dos movimentos civis do período:

Vocês se melindram,
se queixam
que fazemos barulho,
que não éramos assim,
que estamos diferentes,
é nós dizemos é
estamos bem mudados
realmente.

Nascido em Rosário do Sul, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, Silveira viveu, durante a infância, a cerca de 50 km da região central. Por isso, estudava em um galpão da casa da família, com cobertura de capim, adaptado pelo pai para receber uma professora. Em uma apresentação da coletânea Antologia, de 2009, publicada pela prefeitura da cidade natal de Silveira, Luiz Horácio, amigo e escritor, diz:

Silveira escreveu sobre o menino preto que se imagina o mocinho nas brincadeiras, mas não pode ter esse papel

Sou negro. Passei a infância na Rosário do Sul racista. A Rosário do Sul de vários clubes de branco e um clube de negros. […] E dizer que de um lugar sobejamente racista nasceu uma das maiores, senão a maior, expressão dessa luta contra a desigualdade, contra as injustiças. Seja racial, seja de qualquer ordem. Oliveira Silveira, um intelectual que Rosário do Sul e o Rio Grande do Sul foram forçados a se orgulhar. Não se trata de façanha corriqueira.

Mais perto da Argentina e do Uruguai do que de Porto Alegre, a cultura fronteiriça, que mistura o espanhol e o português e cria novas expressões — um uso da língua similar ao que faz hoje o uruguaio Fabián Severo —, também influenciou Silveira. Em “Décima do negro peão”, poemeto de 1970 (mas “trabalhado até 1974”), ele cita o poema “Martín Fierro”, de 1872, do argentino José Hernández. O eu-lírico trabalha em uma estância do pampa quando um “platino” pede abrigo:

Entre outras coisas lhe disse num espanhol de fronteira: — El relato de Martín Fierro
 es cosa de buen artista
no tan buena por racista
contra el indio y contra el negro.
La milonga hecha em la prima
Y em la cuerda mí bordón
y aquella palabra tango
llorando em el bandonión:
hay algo mui africano
em el tambor de su son.

A música é também tema do livro Bandone do Caverá (2008), um “poemeto escrito em quadras” em homenagem ao tio Adauto Ferreira, tocador de bandone, principal instrumento do tango. A edição do autor foi de apenas quarenta exemplares e, na última página, há um bilhete de Silveira, colado após a impressão, no qual justifica a edição “familiar, fora do comércio” e “emergencial”, pois as pessoas de sua família que deveriam lê-lo “estão ficando muito idosas”. “O próprio autor já anda meio alquebrado — mas não tá morto quem peleia”, acrescentou.

Se para novos leitores de Silveira os versos soam regionalistas, talvez seja porque esse é um olhar vindo do centro, como aponta Augusto. João Cabral de Melo Neto, por exemplo, não deixa de ser reconhecido por escrever sobre temáticas e paisagens pernambucanas. Foi inspirado na obra de Cabral de Melo Neto, aliás, que Augusto decidiu organizar a Obra reunida de Silveira em ordem inversa do usual, dos últimos até os primeiros. Na coletânea póstuma Poemas, de 2009, o organizador Oswaldo de Camargo questiona: 

Que cabe na palavra negro? Na palavra referência branco, cabe toda a literatura do Ocidente, armada de Deus e da transcendência. E na palavra negro? Tão só a África e uma história de tropeços, conforme indicou constantemente o mundo ocidental?

O livro foi um dos primeiros de Silveira a passar por uma edição profissional. Publicado após a morte do poeta, foi custeado por vinte amigos e apareceu sob “Edição dos Vinte”, também em função do 20 de novembro. Para Camargo, os poemas de Oliveira permanecem “pela solidez e verdade literária”. Na coletânea, consta o “Poema sobre Palmares”, iniciado em 1972 e publicado de forma avulsa em 1987. Um poema épico sobre o Quilombo de Palmares, mas que reverbera hoje: 

Botaram fogo nos documentos
do tráfico e do crime
e então ficamos sendo os que não são,
ficamos só sendo os que estão.
Ficamos sendo estas ruínas
em auto-reconstrução.

Quem escreveu esse texto

Paula Sperb

É jornalista e crítica literária.