Literatura,
Como foi possível o que é?
No cenário em que a distopia se impõe como bússola, a literatura abre sendas para examinar o que está acontecendo sob nossos olhos
01abr2026 | Edição #104Numa ambiência em que a ferocidade se impõe de forma irrevogável, como lembrou o filósofo italiano Franco Berardi, em que a desintegração da civilização corrói até mesmo os esteios discursivos emancipatórios que envernizaram as camadas do visível — nos fazendo crer na possibilidade de seguirmos na progressiva humanização —, os acontecimentos contemporâneos auguram o pior para o calendário do presente, bloqueando uma ideia de futuro.
No meu livro Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível (Instante, 2025), afirmo que:
Olhe-se para onde se olhe, as avaliações sobre a marcha do mundo contemporâneo apontam, tragicamente, para um destino sem sinal/final feliz: da forma que caminhamos, já estamos, para muitos, na descida irrefreável do precipício, sem possibilidades de resgate. Com constância assombrosa, ouvimos, lemos e assistimos, em tempo real, a cenas terríveis que nos permitem vaticinar que o mundo manufaturado pela noção de progresso, erigido sobre os pilares da industrialização e da pós industrialização, está se despedaçando — para fazer uso da licença poética franqueada pelo escritor nigeriano Chinua Achebe.
Os crimes de guerra (Gaza e Irã tornam-se adjetivos superlativos que os qualificam), a agudização dos racismos e da alterofobia, as mortes de mulheres em escala industrial simplesmente por serem mulheres (os amplamente conhecidos feminicídios), a emergência climática, são o desenho bem acabado do despedaçamento do mundo, fazendo do nosso tempo o habitat natural da violência extrema, do horror e da regressão. Mas como disse Kurt Vonnegut, em Matadouro-Cinco: “É assim mesmo” — afirmação que, a princípio, nos leva a reanimar o espírito da distopia e flertar com a ideia de que só nos resta aceitar e tocar o barco furado sem boias de salvação.
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Matadouro-Cinco ganha nova edição no mercado editorial brasileiro junto com outra publicação do autor, Mãe Noite, e nos obriga a dar mais voltas no parafuso, pois só a princípio podemos nos resignar com o “é assim mesmo” vonnegutiano, já que ele próprio foi se reposicionando em outro lugar por meio da linguagem. Um lugar de morada por onde o autor promoveu gestos emancipatórios, porque insurgentes. Inegavelmente, há um eco de Vonnegut em Achille Mbembe, quando o camaronês diz, em Políticas da inimizade, que “talvez tenha sido sempre assim”. Em ambos, o rastro de Freud: “A história é, na essência, uma longa série de matanças de povos”.
Deslocamento
No cenário de destituição-perdas-guerras-horror-terror-mortes, em que a distopia se impõe como bússola para direcionar o barco, é preciso ombrear nossas preocupações com as de pensadores do quilate de Vonnegut, porque nos possibilitam desertar do “é assim mesmo” e migrar para o “como foi possível o que é” foucaultiano. Considerado uma figura estranha (gosto desse tipo de persona), Vonnegut nos auxilia nesse deslocamento e, desse modo, abre sendas para se nomear, examinar o que está acontecendo sob nossos olhos e restabelecer a sensibilidade com o entorno.
Na contramão do silêncio reinante que gera sucessivas ausências, o escritor designa a guerra de forma heterodoxa, misturando gêneros inusuais para se abordar o assunto (comédia, ficção científica), anunciando que se deve usar de parcimônia para se referir aos eventos bélicos porque deles se sabe pouco. No entanto, o pouco que diz é suficiente para nos fazer pensar o que tornou possível o que é.
Há um eco de Vonnegut em Achille Mbembe, quando o camaronês diz que ‘talvez tenha sido sempre assim’
Entre os vários endereços de resposta, podemos pôr em relevo a de Franco Berardi que, caminhando com Vonnegut, afirma:
É hora de reconhecer que o experimento chamado civilização fracassou. O que a civilização nos entregou, de forma duradoura, foi o poder destrutivo da tecnologia, especialmente da tecnologia militar. Mas quando a ferocidade prevalece, a tecnologia se torna a função da guerra.
Das plantations, baseadas na brutal exploração do corpo negro escravizado, passando pelas guerras do século 20 até alcançar as do 21, constatamos o “é assim mesmo” de Vonnegut quando aceitamos que a democracia, uma espécie de “conselho dos iguais” (os hegemônicos do mundo), criou amplas zonas de desigualdade para as quais nunca acenou com qualquer possibilidade de inclusão.
Se, como Jacques Lacan afirmou, “já somos muito suficientemente uma civilização do ódio”, o capitalismo de cassino, como bem definiu Nancy Fraser, que não tem nada mais a oferecer, nem direitos, nem utopia, muito menos civilização, amplia os círculos de separação. E reedita a lei do mais forte sob a regência de uma recolonização que se irmana com o nazifascismo para nos convencer que guerra é para sempre.
Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026. Com o título “Como foi possível o que é?”
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