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Tempos áureos

Recém-anunciada como Patrimônio Mundial pela Unesco, Paraty tem sua história cravada no ciclo do ouro

01jul2019

Paraty foi o primeiro porto do ouro das Minas Gerais. Da vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty, numa propícia enseada da baía de Angra dos Reis, partiram para Lisboa as remessas iniciais do ouro encontrado, desde o final da década de 1670, nas profundezas da Mata Atlântica e nos altos da Serra do Espinhaço, a quase dois meses de viagem a pé desde a costa. É que as passagens abertas pelos bandeirantes paulistas, na grande muralha da Mantiqueira, facilitaram a conexão com o vale do Paraíba do Sul e a Serra do Mar, de modo que, descendo por Cunha, os carregamentos de ouro procedentes das trilhas bandeiristas logo chegavam aos navios ancorados em Paraty.

A descoberta do eldorado nas “terras ignotas” do imenso território da América lusitana, quase dois séculos após o desembarque de Pedro Álvares Cabral, em 1500, tornou finalmente realidade o sonho confessado por Pero Vaz de Caminha na carta ao rei venturoso. O escrivão da frota já especulava sobre a existência das minas, mas somente em fins do século 17 o tesouro cintilante no imaginário dos portugueses se revelou plenamente aos olhos desbravadores dos paulistas.


Paraty em foto de Hans Gunter Flieg (1965) [Hans Gunter Flieg/Acervo Instituto Moreira Salles]

Portugal havia caído sob domínio espanhol, com o desaparecimento do rei Sebastião e a morte do rei-cardeal Henrique. De 1580 a 1640, a Espanha governou o reino consolidado em 1179 na extremidade da Península Ibérica. Felipe 2º morou em Lisboa por dois anos. Com isso, debilitaram-se o protagonismo que os portugueses exerciam na África e no Oriente e as possibilidades de achamento de preciosidades no interior do Brasil. Com a restauração, dom João 4º pediu aos paulistas, conhecedores das entranhas do Sul, que chegassem logo às minas e assegurassem a autonomia econômica e política de Portugal.

Não haviam sido poucas as tentativas. As chamadas entradas, procedentes da Bahia e do Espírito Santo, adentraram o território sem o êxito pretendido. Na Amazônia, expedições organizadas em Belém amargaram a frustração na busca das riquezas de que se fartavam os espanhóis na outra ponta do continente. O padre Antônio Vieira, em sermão pregado na Matriz de Belém, em 1656, confortou os colonos ao dizer-lhes que, na verdade, os estrangeiros navegavam a prata espanhola, deixando a escória aos locais. Que não se angustiassem, pois, com o bendito insucesso, já que ouro e prata só trariam infortúnio.  

Os primeiros mineradores chegaram a pagar por uma galinha o que valia uma vaca no litoral

Apresadores de índios para escravizá-los e vendê-los, no porto de São Vicente, às lavouras e engenhos de cana do Nordeste, os paulistas falavam “nhangatú”, variante do tupi. Eram íntimos dos sertões. Muitos deles garimpeiros nômades, haviam descoberto sinais evidentes de que o ouro não tardaria a aflorar. A bandeira de Fernão Dias Pais Leme, a mais robusta até então, deixou a vila de São Paulo em 1674. Manuel Borba Gato, genro do explorador, apartou-se do grupo e seguiu os índios até a “serra brilhante grande”, a Itaberaba-açu, onde descobriu as opulentas jazidas de Sabará.

A preço de galinha

De pronto, multidões acorreram às minas, de tal modo que uma grande fome se alastrou em 1701, devido ao desabastecimento provocado pelo abandono das roças de milho, nas quais tanto se aplicaram os bandeirantes, como garantia de comida, nos avanços da aventurosa jornada. Os primeiros mineradores chegaram a pagar por uma galinha o que valia uma vaca no litoral.

Gente do comércio da Bahia, da pecuária do rio São Francisco ou das plantações de cana em Pernambuco afluiu aos milhares, seguida de legiões de africanos trazidos para o duro trabalho nos garimpos e nas minas. Lisboa mandou queimar o livro Cultura e opulência do Brasil, de 1711, no qual o jesuíta Antonil relatou o caminho para se chegar ao paraíso dourado.   

Impôs-se, de imediato, a necessidade de melhoria na comunicação com São Paulo e Paraty, não só para o escoamento da produção aurífera como para o provisionamento de gêneros e bens de que necessitavam os pioneiros. Faltava quase tudo, em meio a disputas e distúrbios que poderiam ser ilustrados com imagens flagradas por um Sebastião Salgado no apogeu da exploração de ouro em Serra Pelada. O Rio era acessado pelos mineiros por via marítima, a partir de Paraty, porque as serras do Mar e da Mantiqueira acumulavam obstáculos e barreiras assustadores. Demais, a promessa de dom João 4º fora cumprida por seus sucessores — Afonso 6º, Pedro 2º e João 5º —, no sentido de que coubesse aos paulistas, como recompensa, a governança do território do ouro.  

Foi assim que Garcia Rodrigues Pais, filho de Fernão Dias, abriu com destemor o Caminho Novo para ligar a zona mineradora ao Rio. Em 1701, na Igreja Nova, como se chamava nos seus primórdios a cidade de Barbacena, a estrada vinda de Ouro Preto e Mariana descia para os vales dos rios Grande e das Mortes, enveredada no rumo de Paraty e São Paulo. Exatamente nesse ponto, deu-se a bifurcação, com o novo trajeto enfrentando os desafios da Serra da Mantiqueira e da Mata Atlântica até alcançar o vale do Paraíba do Sul e despencar na Serra do Mar rumo ao Porto da Estrela. 

O Caminho Novo existiu, “em potencial, na ideia e na bota de sete léguas de Garcia Rodrigues Pais. Em 1698 e 1699, ele subia e descia escarpas cogitando como melhorar aquelas passagens da Mantiqueira ‘em que só a braços transportavam-se as cargas, e só a pé os cavaleiros podiam caminhar puxando os animais’, como refere o velho Diogo (de Vasconcelos)”, segundo registra em Baú de ossos o escritor Pedro Nava, que se proclamou “um pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais”. A terrível tarefa durou até 1704, quando Garcia teve o apoio do parente Domingos Rodrigues da Fonseca Leme para completar a nova ligação das minas com o mar. Em 1711, o governador de São Paulo e Minas, Antônio de Albuquerque, reuniu, armou e mandou 6 mil homens ao Rio de Janeiro, pelo Caminho Novo, em defesa da cidade invadida e pilhada pelos corsários do francês Duguay-Trouin, o que comprovou a importância estratégica da estrada. O ouro das Minas havia sido o motivo do assalto.

Aleijadinho e Tiradentes andaram pelo Caminho Novo, espinha dorsal da vida mineira 

Situado no fundo da baía de Guanabara, o cais da Estrela permitiu que o restante da viagem ao centro da cidade do Rio de Janeiro fosse feito por via marítima. Imediatamente, o Rio assumiu o protagonismo nas relações com a Capitania das Minas Gerais, separada de São Paulo em 1720, o que eclipsou o monopólio portuário de Paraty e o intercâmbio com a capital paulista. Em 1763, o governo geral e o vice-rei desceram da Bahia ao Rio, consolidado como a ponte entre Portugal e sua fabulosa esfera de ouro. O eixo do interesse português se deslocou para o Sul, seja pela atração das Gerais, seja pelas ameaças espanholas no Rio Grande do Sul e na região do rio da Prata.

O Caminho Velho, de pronto assim rebatizado, viu-se esvaziado pela intensidade do trânsito na nova via. Bandos de índios bravios, vindos do cerco que os acantonara nas Áreas Proibidas dos Sertões de Leste, e grupos de bandoleiros, como o famoso Mão de Luva, implacavelmente atacaram os viajantes e as partidas de ouro e diamantes despachadas para o Rio. Aleijadinho e Tiradentes andaram pelo Caminho Novo, espinha dorsal da vida mineira.

De dom Pedro 2º a Juscelino

Dom Pedro 2º foi o principal usuário da linha de ferro entre Magé e Petrópolis, lançada pelo barão de Mauá em 1853. O empresário Mariano Procópio inaugurou a União e Indústria, a primeira estrada macadamizada do Brasil, entre Petrópolis e Juiz de Fora, em 1861. Santos Dumont nasceu em 1873, num flanco do Caminho Novo, onde seu pai, o engenheiro Henrique Dumont, construía um trecho desafiante da Estrada de Ferro Pedro II. O imperador inaugurou pessoalmente as estações de Barbacena (1881) e Ouro Preto (1889). O presidente Washington Luís pavimentou a estrada Rio-Petrópolis, no fim dos anos 1920. Somente nos anos 1950 o asfalto ligou Juiz de Fora a Belo Horizonte, por ordem do presidente Juscelino Kubitschek.

O Caminho Velho continua até hoje fragmentado em trechos rodoviários que acompanharam o sentido original: Ouro Preto, Ouro Branco, Conselheiro Lafaiete, Barbacena, Tiradentes, São João del Rei, Madre de Deus de Minas, Cruzília, Caxambu/Baependi, Passa Quatro, Guaratinguetá, Cunha, Paraty.

Cidade histórica, Paraty resistiu ao declínio econômico imposto pelo Caminho Novo, reciclando-se como porto de pesca e centro produtor de cana-de-açúcar. Seu nome se confundiu com o da excelente aguardente dos engenhos da orla e das ilhas. Isso fez com que sua planta não perdesse a imponência sustentada pelos sobrados, igrejas e fortins, na moldura das montanhas que monumentalizam a paisagem. O projeto turístico da Estrada Real, ao enfatizar a importância dos Caminhos Velho e Novo, surgiu como um convite aos brasileiros para que conheçam a cultura do país, garimpando as pepitas que a história deixou nesses trajetos.

Agora, a inscrição de Paraty no Patrimônio Cultural da Humanidade, repertoriado pela Unesco, é o novo caminho a unir a Vila de Nossa Senhora dos Remédios à Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto. E sem risco de desvio de rota. Afinal, Rio, Salvador, Diamantina e Goiás Velho também se inscrevem na lista na qual se identificam os tesouros culturais do planeta. É preciso que, com o espírito dos bandeirantes, os brasileiros queiram palmilhar esse caminho e redescobrir os tesouros espetacularmente guardados em Paraty e Ouro Preto.                        

Quem escreveu esse texto

Angelo Oswaldo de Araújo Santos

Ex-prefeito de Ouro Preto (1993-6 e 2005-12), prepara um livro sobre a cidade,