As Cidades e As Coisas,

Sobre praias e marés

Como uma tarde na praça formou uma geração belo-horizontina com protagonismo político

01maio2022 - 04h51 | Edição #57

“Deita no cimento!” Era o que alguns dos cerca de duzentos “banhistas” gritavam em êxtase logo depois dos primeiros jatos de água vindos do caminhão-pipa em um sábado de sol quente de janeiro de 2010 na praça da Estação, em Belo Horizonte.

O país estava no auge das transformações dos governos do PT, as universidades se expandiam, havia crédito amplo e distribuição de renda. Ainda assim, parecia haver algo estranho nesse excesso de consenso no ar. Em Belo Horizonte, o prefeito era Márcio Lacerda, um ilustre empresário desconhecido até dois anos antes, quando foi alçado a candidato ungido por uma insólita aliança entre Fernando Pimentel, então prefeito de BH pelo PT, e Aécio Neves, então governador do estado pelo PSDB. O acordo que buscava colocar Lacerda como um grande gestor, acima de disputas políticas, quase fez água, indo para um segundo turno apertado em 2008.

Lacerda sintetizava o esgotamento de qualquer agenda popular da prefeitura. Era como se dos governos democráticos-populares que tanto simbolizavam o PT na década de 90 sobrasse apenas um pragmatismo vazio. Mais obras viárias grandiosas e desapropriações, menos participação popular. Empresário, higienista, arrogante, sem jeito para conversar ou dar entrevistas, fruto explícito de uma aliança de conveniência, Lacerda era a vidraça necessária para se começar a olhar a cidade por fora das instituições.

Em fins de 2009 veio o decreto que “proibia a realização de eventos de qualquer natureza” na praça da Estação, alegando a dificuldade em garantir a segurança das pessoas e do patrimônio. A praça da Estação é o marco zero da construção de Belo Horizonte, a capital mineira proposta pelo republicanismo positivista do fim do século 19. Foi lá, no entroncamento das estradas de ferro Central do Brasil e Oeste de Minas, que chegaram os materiais para a construção da capital. Foi atrás dela também que surgiu a primeira favela de BH, ainda em 1897, formada pelos trabalhadores que construíram a capital e dela foram alijados, ficando sem moradia, sem ter para onde ir. 

A praça da Estação sempre foi um lugar de encontro para eventos e manifestações na cidade. Mas, nos anos 80, havia se tornado um imenso estacionamento a céu aberto. Sua requalificação se deu em 2004, com a instalação de fontes de água no chão e uma grande esplanada de concreto.

Quando o decreto foi editado, BH já vivia o burburinho de uma nova geração na política e na cultura. As pessoas já se organizavam, também pelas redes sociais — que ainda não pareciam uma distopia e cuja arquitetura parecia ampla, democrática, sem hierarquias. Em um blog, houve convocação para um protesto. Cinquenta pessoas apareceram e uma reunião foi feita. Alguns dias depois, circulou anonimamente uma chamada para um protesto festivo: “Praia na praça da Estação, vá de roupa de banho e leve instrumentos”. E assim fomos, umas duas centenas de banhistas que, diante do desligamento das fontes pela prefeitura, improvisamos um caminhão-pipa para nos refrescar. Para mim, aquilo era o começo de uma nova onda de encontros e debates para pensar a cidade. Um mundo novo se abria, com uma cadeira de praia e uma cerveja na mão.

Vários acontecimentos e comportamentos da Praia parecem inconcebíveis e bastante ingênuos aos olhos da brutalidade de nosso tempo

A Praia foi o primeiro encontro de muitos com uma gramática política que formou uma geração: a questão urbana passa a ser central, a organização era feita de maneira autônoma, sem hierarquias ou líderes. E, tendo como foco a ação direta e a ressignificação do espaço, prescindimos muitas vezes dos velhos lugares-comuns das manifestações: a lógica de vanguarda política, carro de som, sindicatos, direção de ato.

A Praia é inequivocamente uma delícia — cerveja, sol e refresco, música e conversas. Muita gente certamente apareceu por lá sem saber de protesto nenhum. E tudo bem. Da Praia, os encontros de um renascente Carnaval se potencializaram. De seus debates acabou por se organizar o Movimento Fora Lacerda, em 2011. Várias pessoas passaram a conhecer uma história de resistência na cidade — das ocupações urbanas, dos movimentos sociais nascentes, dos trabalhadores ambulantes, do baixo centro. De lá também se fortaleceram laços para o Comitê Popular dos Atingidos pela Copa do Mundo, atuante até 2014. E se fez a base de organização que se veria jogada na linha de frente do tsunâmi de manifestações que foi junho de 2013.

Mas olhar para a Praia doze anos depois é também deparar com o que poderia ter sido e não foi. Vários de seus acontecimentos e comportamentos parecem hoje inconcebíveis e bastante ingênuos. Um banhista correndo pelado por entre as fontes e o enfrentamento da polícia na conversa, de sunga, com uma cerveja na mão e cantos de provocação (“Tira a farda brim, bota o fio-dental, polícia, você é tão sensual”) parecem absurdos aos olhos da brutalidade de nosso tempo.

Contradições

A Praia nos levou a contradições mais profundas, que não tínhamos como solucionar. Feita com o propósito de tornar o espaço mais amplo e democrático possível, ela foi capitaneada por uma juventude branca de classe média. Não tivemos fôlego nem para derrotar Lacerda no primeiro turno das eleições de 2012. A questão da população em situação de rua, dos trabalhadores ambulantes e do baixo meretrício do centro também era trazida à pauta, sempre com o receio da gentrificação, que era proposta pela prefeitura com o nome de “requalificação”. 

Mas nosso protagonismo político era também, e inevitavelmente, vetor de valorização. A rua Sapucaí, acima da praça da Estação e que proporciona uma bela vista do centro da cidade, tornou-se point de novos bares e restaurantes na última década. O Carnaval explodiu, virou um dos maiores do país, e a praça era, até antes da pandemia, o palco de grandes shows patrocinados por marcas de cerveja. Nada disso é errado em si, nem aconteceu só por causa da Praia, mas certamente não é revolucionário ou libertador como sonhávamos.

Hoje, doze anos depois, em meio a uma inimaginável distopia de autoritarismos e corrosão democrática, de retrocesso em todas as esferas do que é público, é incontornável a sensação de termos deixado a onda passar, de estarmos à deriva. A tentação de sentir constrangimento com nossos sonhos e ingenuidades de antes nos ronda. Mas a Praia era incrível justamente por trazer à tona essa capacidade de desafiar e inverter o estabelecido, de tripudiar sobre as autoridades, símbolos e leis. Por aqui seguimos caminhando, de olho no horizonte. Quem sabe a maré não reverta e novos atores entrem em cena.

Quem escreveu esse texto

André Veloso

Escreveu O ônibus, a cidade e a luta (Impressões de Minas).

Matéria publicada na edição impressa #57 em fevereiro de 2022.