Apoio Institucional,

Curto-circuito literário nas periferias de São Paulo

A literatura periférica pede passagem

26nov2019 - 16h56

Há na cidade de São Paulo uma alta demanda por cultura, sobretudo entre os mais jovens — fatia da população com maior hábito de leitura. Ao mesmo tempo, há uma cena cultural emergente nas periferias que opera no sentido de suprir uma demanda por cultura de pessoas que, em geral, são as mais pobres, menos escolarizadas e autodeclaradas pretas e pardas — elas estão nas margens da Capital e representam quase um terço dos paulistanos. Essas pessoas não frequentaram nenhuma atividade cultural no último ano.

Os dois dados evidenciam um descompasso: a atmosfera cultural que produz e é protagonista de movimentos históricos como a Semana de 22, a Tropicália, ou as Bienais de Artes e do Livro é a mesma que não corresponde às demandas da maioria da população da cidade, estimada hoje em 12,2 milhões.

Esse foi um dos motes da criação do Circuito Literário nas Periferias, o CLIPE, em 2018, que apoia e potencializa a produção e a circulação de autores periféricos, agentes culturais, instituições locais e coletivos das periferias das cinco regiões da cidade de São Paulo. As atividades incluem encontros com escritores, oficinas de contação de história e de cordel e formações na pedagogia dos saraus, entre outras.

Outro fator que impulsionou esse movimento foi a mudança de missão da Fundação Tide Setubal, que até 2017 concentrava sua atuação na Zona Leste, principalmente em São Miguel Paulista, e passou a atuar em toda a cidade. O Circuito é, ao mesmo tempo, resultado e propulsor dessa mudança: com o projeto, tiveram início ações que fomentam a literatura nas periferias enquanto ferramenta de transformação social, formação política e consolidação de identidades de gênero, raça e territoriais nas zonas noroeste, norte, sul, leste e centro — e atuação em quatro eixos complementares: formação, patrocínio, compartilhamento de redes e eventos autorais.

O sucesso e a continuidade do CLIPE ao longo deste segundo semestre de 2019, sempre gratuito e aberto à população, explica-se também por essa relação com a Zona Leste, com a experiência do Festival do Livro e da Literatura de São Miguel Paulista, chegando agora a sua décima edição com este nome e tendo outras três como Feira do Livro. Foi ali que se deu a aproximação inicial com esses a(u)tores, de todas as periferias do município, mas que nem sempre dialogaram entre si. A intenção foi de ser parte, como uma ponte, nessa rede de milhares de leitores e escritores.

Um terceiro fator motivador veio da necessidade do complemento ao letramento nesses territórios e da democratização do acesso a bens culturais, mais concentrados em bairros mais ricos. Afinal, já existe um público que frequenta os saraus, os slams, as bibliotecas comunitárias, os pontos de leitura e os sebos, mas se sabe que ainda é pouco e pode expandir. Há outro público, também potente e numeroso, porém pouco alcançado por esse ecossistema da literatura na periferia, e o objetivo é chegar a ele.

Daí a importância de terem sido criados, dentro do CLIPE, os clubes de leitura. Trata-se de espaços gratuitos nos quais o leitor da periferia pode compartilhar experiências literárias, dúvidas e impressões de leitura com dezenas de pessoas que têm as mesmas necessidades, passam por problemas parecidos e encontram na literatura maneiras diferentes, mas convergentes, de ler a cidade e o mundo.

Em parceria com a editora Companhia das Letras, já teve início a temporada 2019 dos clubes de leitura, com mediadores de periferias das cinco regiões da capital definindo os cinco livros que serão discutidos nos encontros. São todos de autores periféricos, a fim de aproximar a literatura periférica dos sujeitos periféricos, para aliar e intensificar o uso da linguagem literária aos hábitos das pessoas.

Esse esforço coexiste com uma cena forte de literatura periférica em São Paulo, que, entre outros expoentes, conta com o Quilombhoje, que edita os Cadernos Negros há 42 anos; o Festival do Livro e da Literatura de São Miguel Paulista, com praticamente a mesma idade de saraus como o Elo da Corrente, promovido na zona norte há 11 anos; a Festa Literária da Zona Sul (Felizs); e a Festa Literária da Cidade Tiradentes, no extremo leste.

Com a leitura, a escrita e o diálogo como fios condutores que tecem uma sociedade mais humana, essa cena se expande e se conecta como movimento autônomo e genuíno das periferias, formando público leitor e despertando a cidadania, a crítica e a consciência, não só artística e cultural, mas política e identitária. É a emancipação pela leitura.

*Marcio Black é coordenador de mobilização e redes da Fundação Tide Setubal

Quem escreveu esse texto

Marcio Black

cientista político, produtor cultural e coordenador de Programa (Democracia e Cidadania Ativa) na Fundac?a?o Tide Setubal.