Repertório 451 MHz,

Como se faz um golpe

Heloisa Starling fala sobre os ingredientes e articulações que levaram ao golpe de 1964 e os ecos do golpismo na política brasileira atual

23out2026

Está no ar o 218º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, a historiadora e cientista política Heloisa Starling fala sobre seu recém-lançado livro A máquina do golpe: 1964 — como foi desmontada a democracia no Brasil (Companhia das Letras), que explica as articulações e figuras históricas envolvidas nesse processo. 

Na véspera do segundo turno da eleição entre Lula e Flávio Bolsonaro, que parece colocar em jogo o futuro da democracia brasileira, a convidada também comenta as semelhanças e diferenças com o cenário político atual, em que o golpismo age para corroer as instituições democráticas por dentro. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.

Professora titular de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Heloisa Starling é referência nos estudos sobre a ditadura militar. Entre outros livros, publicou Brasil: uma biografia (2015), com Lilia Moritz Schwarcz, e Linguagem da destruição: a democracia brasileira em crise (2022), com Miguel Lago e Newton Bignotto, a respeito do movimento bolsonarista e sua visão antidemocrática, ambos pela Companhia das Letras. 

Em A máquina do golpe, a pesquisadora examina, hora a hora, datas decisivas para a instauração do regime militar de 1964: entre 31 de março e 13 de abril daquele ano, do levante para depor o presidente João Goulart à implantação de medidas para dar um verniz de legalidade à ditadura.

O caminho até o golpe

Starling resgata a pesquisa que realizou em arquivos históricos e conta que muitos documentos foram queimados pelos militares — mas parte desse material pôde ser recuperada por meio de microfilmes. A partir deles, foi possível reconstruir os acontecimentos.

“Penso o golpe com quatro etapas”, explica a historiadora, citando inicialmente a conspiração, em seguida a desestabilização das instituições de forma a possibilitar uma intervenção, depois a deposição do governo legítimo e, finalmente, a etapa em que os golpistas definem como manter o poder. 

Starling conta que, além de destrinchar os momentos decisivos dessas quatro etapas, buscou contextualizar quem foram os principais responsáveis pela articulação golpista. Entre eles está o general Olympio Mourão Filho, o primeiro a movimentar sua tropa, sediada em Juiz de Fora, na manhã de 31 de março. Ela lembra que Mourão Filho tinha antecedentes golpistas — ele havia participado das articulações que levaram ao golpe de 1937, que instituiu o Estado Novo, e da elaboração do Plano Cohen, documento falso que anunciava uma suposta ameaça comunista no Brasil.

Deslocamento das tropas do 1º Exército do Rio de Janeiro, no golpe militar de 1964 (Walter Luiz/O Cruzeiro/Arquivo Estado de Minas)

A historiadora também destaca a participação de empresários, grupos conservadores e organizações civis na conspiração, a partir dos materiais reunidos pelo historiador René Dreifuss, autor de 1964: a conquista do Estado, aos quais teve acesso.

“É uma estrutura impressionante a da conspiração — não se dá um golpe de qualquer forma, assim, no susto”, diz, citando iniciativas como a Campanha da Mulher pela Democracia, uma entidade de oposição ao governo Goulart que disseminava o anticomunismo, e o papel do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), de planejamento e condução de ações golpistas.

Revolução de fachada

Ao falar das engrenagens que levaram o golpe a triunfar, ela chama a atenção para medidas institucionais com o objetivo de normatizar a ditadura. Antes do conhecido Ato Institucional nº 5 (AI-5), que escancarou a violência de Estado, as primeiras medidas procuraram legitimar o novo regime, sob a justificativa de que se tratava de uma revolução. 

A historiadora lembra o Ato Institucional nº 1 (AI-1), que permitiu a cassação de mandatos parlamentares e a suspensão de direitos políticos. Ela explica que criar a fachada de uma revolução serviu para subverter a Constituição em vigor, de 1946.  

O jurista Francisco Campos (Reprodução)

Uma das figuras centrais desse processo foi o jurista Francisco Campos, conhecido como Chico Ciência — que tinha redigido a Constituição de 1937, durante a ditadura do Estado Novo, e participou da elaboração dos primeiros dois atos institucionais depois do golpe de 1964 e da redação da Constituição de 1967. “Era fascista, um cara simpático ao totalitarismo, que tentou criar em Minas uma milícia nos moldes do nazismo. E estava nas duas ditaduras”, diz Starling.

Ecos do passado

A convidada também comenta os paralelos entre o passado e o presente da política brasileira. “A direita reacionária não cai do céu como um raio. Ela está no Brasil desde o integralismo, pelo menos”, diz, sobre a ascensão do bolsonarismo. 

Starling lembra a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, com a invasão da praça dos Três Poderes em Brasília e a depredação dos prédios do Congresso, STF e Palácio do Planalto. Ela acredita que o objetivo era criar um ambiente para manter Jair Bolsonaro no poder.

Sobre a ligação de figuras remanescentes do regime militar com o ex-presidente, ela destaca o livro Poder camuflado: os militares e a política, do fim da ditadura à aliança com Bolsonaro (Companhia das Letras, 2022), do jornalista Fabio Victor. Outro livro recomendado no episódio é O caminho da autocracia: estratégias atuais de erosão democrática, publicado em 2023 pela Tinta-da-China Brasil (selo editorial da Quatro Cinco Um) e disponível para download gratuito até 13 de novembro.

Starling ressalta que, embora o golpismo atual não seja uma repetição exata do passado, permanecem práticas e ideias que visam a ruptura democrática. Ela compara o movimento bolsonarista a um “cupim”, pois corrói a estrutura democrática. 

Diante desse risco, a historiadora defende a participação da sociedade na defesa da democracia. Ela lembra que a redemocratização foi impulsionada pela organização de movimentos sociais e pela imprensa alternativa, e diz que o desafio hoje é cultivar os afetos democráticos entre a população. “O que nós estamos vendo é uma sociedade fechada na solidão individual”, observa.

Para ela, a democracia só se fortalece quando, além do voto, está sendo constantemente construída por meio da participação pública, da cultura e dos vínculos entre as pessoas. “Toda vez que alguém disser que a democracia está estabilizada, é bom a gente ficar esperto, porque ela não termina, ela está sempre se movimentando. E o que imputa movimento à democracia são os direitos, é a luta por direitos.”

Livro Marcador 

No quadro sobre livros marcantes na vida de escritores e personalidades das artes e da cultura, o episódio traz a sugestão do matemático Marcelo Viana, diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). Autor de vários livros lançados pela Tinta-da-China Brasil (selo editorial da Quatro Cinco Um), como o recente Matemática para seres humanos (e alguns robôs), ele recomenda Eva: como o corpo feminino conduziu 200 milhões de anos de evolução humana (trad. Fernanda Abreu, Companhia das Letras), da cientista e pesquisadora norte-americana Cat Bohannon.

O matemático e escritor Marcelo Viana (Nilton Fukuda/Divulgação)


“É um livro sobre como o corpo feminino moldou a história da humanidade. Começa lá atrás, na evolução, com o desenvolvimento das características especiais nos mamíferos, que a mulher trouxe, e depois já na espécie humana”, diz. 

“Me impressionou e mudou muito como eu vejo a questão do gênero, por ser baseado em evidências científicas, não é ideológico. Certamente a autora tem uma ideologia muito forte, o livro tem uma ideologia muito forte, mas é baseado em dados, é baseado em evidências, baseado no modo como nós, como espécie, evoluímos e como o papel especial da mulher moldou essa evolução.”

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.

Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]