Literatura brasileira, Literatura Negra,
O caleidoscópio de Ricardo Terto
Conhecido pelas narrativas curtas, o autor estreia no romance com protagonistas que se mobilizam em prol de justiça social
01nov2026 • Atualizado em: 30out2026 | Edição #111O ser humano é descartável no Brasil
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“Diário de um detento”, Racionais MC’s
Numa live feita durante a pandemia, a escritora Jarid Arraes, comentando a importância da diversidade na literatura, disse algo que até hoje brilha com força especial na minha memória: “A gente se enxerga como possíveis protagonistas […], como transformador, como herói, como agente de uma história que é digna de ser contada”.
Ninguém discorda de que tem havido certo aumento da diversidade na literatura brasileira. E, de fato, um dos efeitos mais significativos disso é que experiências sociais historicamente excluídas do mundo das letras por fim têm encontrado ali um espelho. Pequenino ainda, é verdade, mas mesmo assim um espelho. Talvez um dos mais importantes espelhos que a literatura brasileira foi capaz de produzir em toda a sua história.
O pensamento de Arraes, no entanto, transcende a ideia de identificação pura e simples. Para um leitor cuja experiência social foi historicamente excluída do mundo das letras, o espelho literário dos últimos anos não oferece apenas a oportunidade de olhar a si mesmo, mas também a de reelaborar a si mesmo, criar um novo entendimento de si ao ver que, sim, uma vida como a sua, uma história como a sua e uma experiência social como a sua são dignas de ser contadas, dignas de estar em um livro — talvez a forma de expressão artística mais proeminente no campo da valoração simbólica.
Embora ainda pequenino, o referido espelho da literatura brasileira contemporânea cresce um pouco mais a cada vez que surge um livro como A fortaleza dos Homens-Borracha, primeiro romance de Ricardo Terto. No centro da narrativa, unidos por uma revolta em comum, uma cozinheira, um faz-tudo, uma faxineira e um motorista de aplicativo traçam um plano desesperado contra os símbolos da necropolítica.
Decerto há uma gama de chaves de leitura possíveis para o romance de Terto, mas esta me agrada de modo particular: é uma história sobre luto. Claro que o assunto já apareceu outras vezes na literatura. Anda muito em voga ultimamente, inclusive. Mas o luto abordado em A fortaleza dos Homens-Borracha é bastante específico: não se trata daquele de quem perde o ente querido por morte natural ou em decorrência de alguma doença, mas daquele de quem o vê partir por causa da desumanização sistemática e institucional que um país como o Brasil promove contra o próprio povo — ou contra parcelas muito específicas do próprio povo, melhor dizendo.
Unidos, uma cozinheira, um faz-tudo, uma faxineira e um motorista tramam contra a necropolítica
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Perceba-se que, em tragédias assim, o que está em jogo, para quem fica, não é apenas processar a perda de um familiar, o que já é difícil, mas também lidar com outro fato quase igualmente duro e amargo: são praticamente inexistentes as chances de que seja feito algum tipo de justiça. É o desamparo elevado a um grau que ninguém jamais deveria experimentar, um tipo de luto que, impelido à elaboração literária pela ponta da caneta de Terto, dá a ver mais um dos tantos benefícios da crescente diversidade na literatura: apresentar um assunto, embora conhecido, cheio de particularidades não à toa raramente exploradas.
Com esse pano de fundo, o autor traz à baila uma série de outras pautas que têm mobilizado o interesse no debate público: as tensões de classe, raça e gênero; a precarização do trabalho; o efeito das redes sociais no dia a dia das pessoas. Embora acessórios no romance, tais temas, às vezes combinados, produzem cenas impagáveis, como quando o motorista de aplicativo, preocupado com a ligeira piora na sua avaliação na plataforma, se vê obrigado a aturar as perguntas inconvenientes de duas influenciadoras que resolvem fazer uma live no interior do veículo. Outro bom exemplo é o momento em que o professor descobre que a faxineira contratada por aplicativo para limpar seu apartamento é aluna sua na universidade. Tais cenas, somadas ao fio condutor — o enfrentamento aos símbolos da necropolítica como forma de elaborar o luto —, compõem uma fotografia de impressionante fidelidade da sociedade brasileira atual.
Apesar de estrear agora na narrativa longa, Terto está longe de ser um escritor novato, tendo alcançado destaque com os livros anteriores, de contos e crônicas — como Marmitas frias e requentadas (Fósforo, 2015) —, nos quais demonstrou um estilo bastante maduro e peculiar. Desse estilo, destaco dois traços, não por serem necessariamente os mais importantes, mas por caírem como uma luva em A fortaleza dos Homens-Borracha: a ironia fina e a leve melancolia. A primeira, a serviço da crítica social, contribui para que resgatemos a capacidade de nos espantar e indignar com os absurdos naturalizados no Brasil contemporâneo; a segunda denuncia a solidariedade do narrador com o drama dos protagonistas: uma pista importante sobre essa figura incógnita, nem autor nem personagem, que nos conta a história.
O não dito
Outra virtude do romance é a ousadia em explorar os fragmentos em vez de apostar na tradição da forma monolítica. Isso favorece um papel mais ativo do leitor. Em outras palavras, cabe àquele que lê estabelecer as pontes lógicas, temporais ou emocionais entre os fragmentos, o que termina por colocá-lo na posição de “leitor-cúmplice”, nas palavras de Cortázar. E há, ainda, como efeito da escolha pelos fragmentos, a valorização do espaço em branco. O que não é dito é tão estrutural quanto o próprio texto, tanto que o narrador fala em “aceitar o silêncio como um tema”.
O resultado é que, sem abrir mão de oferecer um sentido global para a obra, o mosaico apresenta uma série de significados individuais, nas suas partes concretas e nos silêncios abstratos entre elas. E nós, leitores, ficamos mais ou menos como o Demolidor: do mesmo modo que o personagem entrevê as coisas do filho pela fresta na caixa de papelão em que estão guardadas, nós espiamos o luto e a luta dos quatro protagonistas através do visor desse trágico caleidoscópio oferecido por Ricardo Terto.
Matéria publicada na edição impressa #111 em novembro de 2026. Com o título “O caleidoscópio de Ricardo Terto”
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