Fichamento,
Matheus Gato
O sociólogo mergulha na linguagem poética para refletir e expressar aquilo que é impensável
01nov2026 • Atualizado em: 29out2026 | Edição #111Em Ridículo (Círculo de Poemas), o autor de livros de não ficção sobre a história da escravidão no Brasil se inspira em James Baldwin e busca o grau zero da negritude.
Você é sociólogo e já lançou livros nessa área. Ridículo é a sua primeira publicação literária?
É a primeira fora da área de não ficção, mas desde a adolescência eu participava de festivais, de pequenas coletâneas de poesia. Minha mãe é atriz e, em São Luís do Maranhão, onde cresci, eu vivia num meio artístico em que a poesia era muito importante. Grandes amigos meus e influências intelectuais são poetas.
Pode citar alguns?
O Josoaldo Lima Rêgo — a gente se conhece de São Luís; o Dyl Pires também, que é muito importante na minha formação; mais recentemente, o Paulo Scott, grande colega que tem uma poesia muito interessante. E sempre fui marcado por essa poesia que não se anuncia como tal. O James Baldwin faz isso e é uma referência explícita na plaquete [a epígrafe é uma frase de Just Above My Head, o último romance de Baldwin].
Quem ou quais são outras influências?
Sempre admirei a poesia negra. Mas parte dessa produção estava envolta em um uso muito carregado de símbolos da cultura afro-brasileira. O desafio que me coloquei, para esta plaquete, foi fazer algo que pudesse ser poesia negra, com suas questões, mas que abrisse mão desses símbolos e apresentasse uma questão existencial, quase metafísica. Queria chegar no grau zero da negritude: limpar referências aos orixás e outros símbolos e deixar só o osso da questão.
Como o poeta inspira o sociólogo?
Tenho vários modos de me expressar, mas tem coisas que só são pensáveis como poesia. Ela te ajuda a pensar a sociologia, a política; é o lugar onde você pode pensar a linguagem. Como somos constituídos de linguagem, embebidos nela, a poesia é como o lugar em que o peixe vê a água e percebe: “uau, é água!”.
Por que a escolha de escrever as estrofes de Ridículo como se fossem preces ou súplicas?
Tem um verso dos Salmos que diz: “Aquele que mora nos céus se ri. O senhor os reduz ao ridículo”. Esse salmo estava em uma das versões do poema, mas fui limpando, limpando, e tirei… Mas é importante, porque, se essas súplicas tivessem resposta, seria a zombaria de Deus, o desdém. É a nossa impotência e insignificância.
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Em certo momento, você fala de quando a palavra se torna “escura e pesada”. Qual é o peso da palavra?
Também falo que “negros são os caminhos do exílio no verbo”, ou seja, um lugar onde as possibilidades de existência são rasuradas. Uma palavra é escura e pesada quando você consegue colocar dramas existenciais na linguagem e falar da condição negra sem elementos alegóricos afro-brasileiros óbvios. Tentei desesperadamente fazer isso na plaquete.
Como vê as discussões sobre literatura negra hoje?
É necessário construir o lugar de uma literatura negra sim, se negro for um universo inteiro, camadas infindáveis de humanidade a serem descobertas. Escritores e escritoras estão devolvendo isso a pessoas que aprenderam a ver o negro como objeto, serviçal, e não o identificavam como drama humano digno de literatura. Estão devolvendo a universalidade que a violência impossibilitou enxergar.
Por décadas, houve um enorme racismo editorial no país. Hoje é “vendável”, o que é interessante, mas há um gargalo, muita aposta em autores estrangeiros consagrados e pouca em escritores jovens. Quem banca o florescimento da literatura negra no Brasil é o circuito alternativo, o mainstream arrisca muito pouco.
Matéria publicada na edição impressa #111 em novembro de 2026. Com o título “Matheus Gato”
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