Fichamento,
Luana Chnaiderman
Escritora e professora paulistana lança seu primeiro romance — engraçado, comovente, sexy e, apesar do título, não rotulável
30set2026 • Atualizado em: 28set2026 | Edição #110Etiqueta (Record) embaralha, num bordado cheio de sobreposições, Antiguidade clássica, lembranças do avô da autora, doadores de sêmen e música de sofrência.
Em Etiqueta há várias histórias. Quais são elas?
Uma é sobre o que lembro do meu avô [o tradutor e escritor Boris Schnaiderman]. Ele foi uma espécie de norte para o livro — é de onde vem o nome. Tem um aspecto de “etiqueta” que é ser rotulador, mas tem o lado da pequena ética cotidiana. Meu avô era isso — um homem ético no dia a dia. Outra história é sobre Dido [rainha de Cartago, cantada na Eneida, de Virgílio], que vive um caso de amor com um estrangeiro e perde o trono. Também quis falar de uma mulher de 42 anos que se separa e tem vontade de ser mãe, aquela coisa do relógio biológico, das relações sexuais e afetivas e do mercado da inseminação artificial. Queria um romance que fosse engraçado, comovente e sexy.
Poderiam ser três livros. Por que juntou em um só?
Cada história me ajudava a escrever as outras. Dido foi um mergulho na literatura clássica e me dava um ritmo, uma história com começo, meio e fim. E quis misturar o alto e o baixo, a linguagem sofisticada de um poema do Catulo e mensagens de WhatsApp sobre doação de sêmen. Minha criação se deu nesse sistema de aproximar coisas distantes para produzir um estranhamento, o que me interessa.
É também uma homenagem ao seu avô?
Sim. Ele foi um grande intelectual e professor. Quando o Antonio Candido montou o curso de letras da USP, chamou meu avô para abrir a cadeira de russo — ele ensinou nos anos 60 e 70, durante a ditadura militar. O livro é também uma grande homenagem aos professores.
Algumas coisas da sua coletânea de contos Animais domésticos e outras receitas (Perspectiva, 2018) aparecem em Etiqueta, como as receitas culinárias, a comida, concorda?
Etiqueta tem lista, receita de macarrão à putanesca… Tenho fascínio pela voluptuosidade do som das palavras da alimentação, pelos verbos relacionados à cozinha — cortar, descascar, picar, salpicar, moer. A transmutação da comida em outra coisa é como um milagre, que talvez seja o da própria linguagem poética.
Como chegou ao ponto de cozimento do seu romance, que parece não seguir nenhuma receita?
Fui escrever esse livro com 49 anos — o meio da vida, sendo otimista —, com a sensação de liberdade de quem não tem nada a perder, sem medo de não me entenderem, me acharem louca, metida, drogada. Coloquei princípios para a escrita — um deles foi a coragem; outro foi fazer o máximo que posso. O romance levou quatro anos para ser escrito, reescrito, trabalhado no detalhe. E teve o princípio da deriva.
Em O apanhador no campo de centeio, do Salinger, que é uma das minhas referências, tem um cara que sempre tirava nota ruim na “arte do bom discurso”, porque perdia o ponto principal e a classe berrava: “digressão, digressão!”. Mas o Holden Caulfield [protagonista de O apanhador] dizia que achava a digressão mais interessante que a história principal. Eu deixei que o princípio da digressão entrasse na textura do meu romance.
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Que outras referências estão no seu livro?
Adorei estudar poemas de amor antigos e ver como eles aparecem na Marília Mendonça, no Caetano Veloso, na música de sofrência. Também fiz algo que é um tanto de roubo — furtar histórias e recontar; pegar um verso de um lugar e colocar em outro. Escrevi me arriscando porque, afinal de contas, já que escrevi meu primeiro romance só agora, quero ver o que posso ter de mais singular e levar isso muito a sério. Foi o relógio biológico agindo de outro jeito.
Matéria publicada na edição impressa #110 em setembro de 2026. Com o título “Luana Chnaiderman”
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