O escritor e jornalista Xico Sá (Renato Parada/Divulgação)

Fichamento,

Xico Sá

O escritor e jornalista reconta sua caça ao homem por trás do esquema de corrupção do governo Collor

27ago2026 • Atualizado em: 26ago2026 | Edição #109

Os fatos narrados em O tesoureiro: o esquema de corrupção, a fuga espetacular e a morte de PC Farias (Todavia) formam o romance noir da política brasileira.

Você tinha uma obsessão pelo tesoureiro do Fernando Collor ou pelo “furo” jornalístico?
O PC Farias era muito interessante como personagem. Acabei tendo muito acesso a ele, e todo mundo começou a me cobrar informações, das autoridades à dona Olinda, que servia café na redação da Folha de S.Paulo. Fui empurrado por essa obsessão e virou uma paranoia: o medo de ser “furado”, de alguém dar a notícia antes.

Como vê a busca pela informação exclusiva hoje?
Faz parte da natureza do repórter dar a notícia primeiro; isso era uma disputa contínua. A competição durava pelo menos 24 horas, até o jornal chegar às bancas. Hoje está tudo mais doentio, porque a notícia é minuto a minuto, as pessoas estão ligadas o dia inteiro. O jornal diário já era uma forma precária de narrar a história; a internet é mais ainda, o que produz muito mais fake news.

Um livro trinta anos depois da morte de PC Farias foi a forma de contar a história de modo menos precário?
A notícia a quente podia ser uma frase contando o que aconteceu, e estava feita a matéria do dia. Agora, deu para colocar na história o próprio repórter, com seu universo, suas angústias. Isso é quase proibido nos manuais de redação. Foi uma chance de eu escrever com uma pitada de jornalismo literário.

‘Foi uma forma de me vingar um pouco do manual de redação — pude enfiar todos os livros de que gosto’

O que mais te atraiu em seu vilão preferido?
Sou muito leitor da literatura noir, do romance policial — Raymond Chandler, Dashiell Hammett. Sempre vivi um conflito entre o jornalismo e a literatura. Não conseguia dar conta da minha obsessão literária porque estava 24 horas dedicado ao jornalismo. Mas a literatura me deu alguns rumos nas escolhas, e atribuo à minha devoção ao romance noir a decisão de ir atrás do PC Farias, uma figura que não tinha cargo público e agia na sombra, no subsolo de Brasília.

Além do romance noir, o livro tem muitas referências, do jornalismo gonzo a Graciliano Ramos…
Foi uma forma de me vingar um pouco do manual de redação — pude enfiar todos os livros de que gosto. No jornalismo gonzo, o repórter vira quase um narrador de autoficção que se embebeda, cai O repórter dos anos 90 bebia dez vezes mais do que a geração de agora. Atenção: não estou dizendo que é uma vantagem. Jovens, não aconselho, guardem seu fígado! No livro, coloquei momentos “gonzo” porque a realidade do Brasil é muito isso. E coloquei um pouco do meu passado, algumas histórias totalmente laterais — talvez seja um tipo de autoficção, mas menos ególatra.

O que mais descobriu de PC Farias?
Achei que encontraria um vilão meio caricatural, aquele canalha latino-americano bigodudo ligado à corrupção, e me surpreendi. Encontrei um ex-seminarista que soltava citações em latim o tempo todo, era alucinado pelas crônicas do Carlos Heitor Cony, um personagem do Nelson Rodrigues — sua fala na CPI do Collorgate é cheia de frases da peça Bonitinha, mas ordinária.

E ainda era um personagem fundamental no processo de corrupção que derrubou Collor.
Era a chance de falar do cara que seria o responsável pela queda do presidente e abrir um panorama de como funciona a política no Brasil. A cada eleição fico de olho no cara que arrecada para a campanha. Pega o caso do Banco Master — o cunhado do Daniel Vorcaro fazia um pouco esse papel; era um grande doador do Bolsonaro. Esses personagens estão todos por aí. Mudam uma coisa ou outra, tiram o bigodão dos anos 90, mas estão vivíssimos na política brasileira.     

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #109 em agosto de 2026. Com o título “Xico Sá”

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