A escritora Conceição Evaristo (Elisa Maciel)

Literatura brasileira, Literatura Negra,

Notas de uma folia legítima

Box com obra completa de Conceição Evaristo confirma que a máquina cultural pode ser afetada por forças maiores que o racismo

12out2026 • Atualizado em: 09out2026

A obra completa de uma das maiores escritoras brasileiras contemporâneas, Conceição Evaristo, acaba de ser reunida em box. Viabilizada através de coedição das editoras Malê e Pallas, conta com um guia de leitura organizado pelo editor Vagner Amaro e pelo professor Henrique Marques Samyn.

O lançamento propicia desmontarmos três enganos produzidos em quatro décadas de recepção da obra de Evaristo no Brasil: que sua literatura foi descoberta de forma tardia; que seu bom texto é fruto de um virtuosismo descerebrado, cuja técnica só pode ser explicada a partir da invocação das palavras de feeling, emoção e outras imprecisões do campo semântico da inefabilidade; que é necessária uma outra crítica literária para entender os textos produzidos pelos negros, uma vez que a crítica ocidental foi forjada para medir e analisar objetos brancos.

Comecemos o desmonte pelo fim: acaso há uma crítica literária russa, grega ou irlandesa? Terá Guimarães Rosa precisado de um outro referencial teórico cujo DNA fosse alheio à cultura de crítica literária nacional? Não será a teoria literária um campo suficientemente amplo onde possa caber, sem maiores problemas, a grandeza da literatura negra? Por que afinal se decidiu que os autores negros escrevem em um idioma diferente, inacessível para os críticos? Por que se supõe que onde os críticos veem erros há na verdade acertos?

Autores grandes — negros ou não — demandam grandes críticos. E grandes críticos — negros ou não — precisam dominar o arcabouço de instrumentos que ao longo dos séculos nos possibilitaram ver nas obras aquilo que pode escapar a olho nu. O eventual déficit crítico em relação a uma obra deve ser credenciado à qualidade de quem tem a função de avaliar livros, não ao campo inteiro da crítica.

Quanto ao argumento de que sua literatura foi descoberta de forma tardia, esse não sobe a ladeira dos conceitos. O interesse, o ostracismo ou o vilipêndio em relação a uma autoria diz algo sobre a natureza dos circuitos culturais, não sobre as obras. A literatura de Evaristo existia antes da fama. E nenhuma literatura depende exclusivamente da fama. Comercialização das obras, estabilidade financeira dos autores, tudo isso influencia a maneira como enxergamos a literatura de alguém, mas não é a literatura de alguém.

Ao misturar mitologias particulares com conflitos universais, a escritora oferece uma saída ao Brasil

Ademais, a dinâmica que legitima autores depende de uma extensa máquina cultural que adora um espetáculo de mistificação de suas engrenagens. Tornou-se lugar-comum dizer que Evaristo foi descoberta, como se fosse um continente — a exemplo do que aconteceu com Carolina Maria de Jesus. Esse expediente permite que se fique diagnosticando ad infinitum a invisibilidade de certos objetos, para não termos que falar da evidência perturbadora de seu teor estético superior.

De resto, seu texto não é fruto de talento intuitivo, sem labor, mas de uma sofisticada mistura de saber popular com conhecimento científico. Evaristo é formada em letras, com mestrado e doutorado. Ela frequentou a PUC-Rio, a Universidade Federal Fluminense e a Federal do Rio de Janeiro. Atribuir à sua obra uma suposta pureza espontânea, alheia a procedimentos técnico­-conscientes, seria zombar da força do ensino superior no Brasil e sugerir a inutilidade de um percurso de formação acadêmica robusto.

Eliminados os enganos, vamos aos fatos: o box oferece uma possibilidade para compreender que a trajetória de uma mente brilhante não é feita apenas de episódios luminosos e que, entre uma obra-prima e outra, há espaço para a burocracia artística. Em Poemas da recordação e outros movimentos, de 2008, por exemplo, Evaristo nos faz compreender que nem sempre é preciso dizer as coisas da melhor maneira, se a urgência em dizê-las superar a paciência pelo melhor encontro. Em comparação com a extraordinária proseadora que é, esse livro traz uma poeta ainda em construção. Um poema salva o livro inteiro (e esse é um traço comum a outros livros de poesia de escritores incontornáveis): “A noite não adormece nos olhos das mulheres”, no qual produz uma lullaby extraordinária, do tipo Langston Hughes, com o objetivo de homenagear Beatriz Nascimento.

Desconstrução

No melhor livro da caixa, Ponciá Vicêncio, Evaristo mergulha no Brasil profundo para oferecer um romance de formação que é resultado de um esforço de desconstrução da nossa tradição literária, a de interromper o nascimento do novo a qualquer custo. Ao misturar mitologias particulares com conflitos universais, ela oferece uma saída ao Brasil: alimentar-se de suas raízes sem a ambição modernista de devorá-las.

Ela era menina de colo ainda, quando ele morreu, mas se lembrava nitidamente de um detalhe. Vô Vicêncio faltava uma das mãos e vivia escondendo o braço mutilado para trás. […] Ela, menina de colo, viu e sentiu o odor das velas acesas durante toda a noite. […] Sentiu o cheiro de biscoito frito, de café fresco dado para as mulheres e as crianças que estavam fazendo quarto ao defunto.

Nada do que acontece ali é inefável; tudo é carpintaria e permite duas leituras: para uns, a cena confirma que tudo ao redor é mágica; para outros, que tudo é pedra, cheiro e tato, e que o universo pertence aos corpos. Aqui está outro engano desmontado pelo texto de Evaristo, e a razão de ela alimentar-se do popular sem devorá-lo: o que o modernismo transformaria em abstração, Evaristo mantém no prato. Esse é um procedimento estético central de sua obra: o anúncio de um encantamento para a posterior entrega de um fluxo verbal cheio de materialidades e de concretudes.

Tem muita razão Samyn, ao sugerir, no guia de leitura, que Evaristo sintetiza as múltiplas correntes da literatura negra. Sua escrevivência é uma apropriação bem-sucedida da escrita de si francesa e das lutas da negritude. Da mesma forma, seu esforço para iluminar a constelação de outros nomes da literatura brasileira faz coro aos estilhaços criativos do Renascimento do Harlem. Ao reunir no mesmo navio essas múltiplas formas diaspóricas com sua caneta, ela recompõe a historiografia das literaturas perdidas, tornando a experiência negra maior do que tem sido. O box confirma que Evaristo não foi descoberta, mas legitimada por uma máquina cultural que raramente confessa as razões que movimentam suas engrenagens. Essas engrenagens, porém, podem ser movidas por forças maiores que o racismo: coragem estética, por exemplo. Há folia em torno de Evaristo. E ela é legítima.

Quem escreveu esse texto

Luiz Mauricio Azevedo

Escritor e crítico literário, venceu o prêmio Açorianos pelo livro de contos A costura invisível da bola.