Amelinha Teles (1944-2026)(Acervo Memorial da Resistência de São Paulo/Divulgação)

Memória,

Amelinha Teles: a luta continua

Morta no último dia 15, a jornalista e ativista batalhou por liberdade, democracia e igualdade de direitos entre homens e mulheres

22set2026

Jornalista, escritora, feminista e sobrevivente da tortura, Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha, teve uma das trajetórias mais completas da resistência brasileira ao arbítrio da ditadura militar. Da clandestinidade à criação de instrumentos de justiça para as mulheres, passando pela luta obstinada para impedir que prevalecesse a impunidade dos crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante o regime militar. A coincidência de a morte de Amelinha ter sido coincide justamente no Dia Internacional da Democracia serve para relembrar que sua vida foi dedicada à defesa da justiça e à reconstrução da democracia.

Amelinha começou a militar muito jovem. Nascida em Contagem, Minas Gerais, ingressou na resistência clandestina ao regime de exceção de 1964 pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), ao lado do marido, César Augusto Teles, e de companheiros como Carlos Nicolau Danielli.

Presa em São Paulo em 28 de dezembro de 1972, foi levada à Operação Bandeirantes (Oban) e ao DOI-Codi, onde sofreu torturas físicas e psicológicas sob o comando do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Ali, testemunhou o assassinato de Danielli. Sua irmã Criméia, que participara da Guerrilha do Araguaia, grávida de oito meses, também foi presa no apartamento onde Amelinha havia sido detida.

Anos depois, quando eu coordenava a Comissão Nacional da Verdade (CNV), ouvi emocionado seu relato, em evento realizado em março de 2013 pela CNV e pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, da qual Amelinha era assessora. Contou como os torturadores se valiam da desigualdade de gênero para aprofundar a violência contra as mulheres: “Eles usavam a maternidade contra nós, torturavam nossos filhos e diziam que iam matá-los”. Sob forte emoção, relatou também os episódios de violência sexual praticados pelos agentes da repressão contra ela no presídio feminino em São Paulo.

Em memorável audiência da CNV, diante de José Carlos Dias e Pedro Dallari, então coordenador da comissão, Amelinha denunciou formalmente aquele episódio que envolveu seus filhos, Edson e Janaína, então com quatro e cinco anos. Levados ao centro de repressão, foram obrigados a assistir aos pais nus sendo torturados com choques elétricos por equipes do DOI-Codi, revelando que nem mesmo as crianças eram poupadas.

Mas a história de Amelinha não se resume à experiência da violência. Sua resistência também se expressou na capacidade de transformar a própria experiência em ação coletiva. Nos anos 70, participou do jornal Brasil Mulher, que dava voz às mulheres quando quase ninguém as escutava. No início da década seguinte, ajudou a fundar a ONG União de Mulheres de São Paulo, que se tornaria referência na defesa dos direitos das mulheres. Na Assembleia Nacional Constituinte, participou do chamado Lobby do Batom, articulação feminista que lutou para transformar a igualdade de direitos entre homens e mulheres em texto constitucional. Mais tarde, integrou a Comissão de Familiares sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

Promotoras populares

Seu feminismo tornou-se também livro, formação e política pública. Em 1993, publicou Breve história do feminismo no Brasil. No ano seguinte, idealizou as Promotoras Legais Populares, projeto de formação jurídica destinado a mulheres das comunidades, que se espalhou por diversos municípios. O direito passou, assim, a ser também instrumento de emancipação e de enfrentamento da violência contra as mulheres. Anos depois, como advogada e formadora dessas promotoras, teve papel importante na efetivação da Lei Maria da Penha, sancionada em 2006.

A luta pela justiça e pela memória esteve presente em todas essas experiências. Em 2005, a família Teles moveu uma ação declaratória contra Ustra. Três anos depois, ele se tornou o primeiro agente do Estado brasileiro reconhecido pela Justiça como torturador. A decisão, confirmada por instâncias superiores, tornou-se um marco nas políticas de memória e justiça no Brasil: uma dor privada passava a ser reconhecida também como questão de interesse público e direito coletivo.

Seu feminismo se tornou política pública para o enfrentamento da violência contra as mulheres

Essa disposição para enfrentar o passado permaneceu até seus últimos anos. Amelinha colaborou numa pesquisa da Unifesp, desenvolvida entre 2021 e 2025, sobre a responsabilidade de empresas em violações cometidas durante a ditadura. Em abril de 2025, esteve na universidade durante o anúncio da identificação de duas ossadas de desaparecidos políticos. Em 2026, participou do podcast Golpe de 1964: Perdas e Danos, da EBC, dedicado a investigar quem lucrou com o regime de exceção. Também transformou sua experiência de resistência em literatura, em livros como Contos da Cela Três: memórias de uma presa política na ditadura (Ema, 2024).

Seu compromisso com a memória histórica da repressão permaneceu explícito até o fim: “Nós temos que enfrentar o passado, sim, porque o presente está sendo ameaçado o tempo todo com os fantasmas do passado. Não adianta, não tem que virar a página, não dá para virar a página. A página tem que ser lida e compreendida, depois é que você vira, entendeu?”.

Para Amelinha, cada companheiro perdido levava consigo parte da experiência democrática do país. Quando a sociedade deixa de lembrar, dizia, empobrece também no campo das ideias. Até os últimos meses, continuou levantando a voz, inclusive para alertar que as mulheres estavam perdendo o direito de ir e vir.

Ao se despedir, a ex-presidenta Dilma Rousseff destacou que “Amelinha Teles deixa um exemplo imenso de coragem, coerência e dignidade. Jamais abriu mão de seus princípios, jamais abandonou suas lutas e nunca permitiu que o silêncio encobrisse as violências do passado”. Velada na reitoria da Unifesp, em 16 de setembro, ela recebeu tributos de ministros, parlamentares, estudantes e movimentos populares.

 Amelinha Teles deixa uma esperança enorme em todos que conheceram sua dedicação à justiça e seu formidável comprometimento com a luta pela memória e pela verdade. A luta continua.      

Quem escreveu esse texto

Paulo Sérgio Pinheiro

Professor aposentado de ciência política da USP, foi coordenador da Comissão Nacional da Verdade.

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