A militante feminista e educadora Amelinha Teles (Rodrigo Romeu/Reprodução)

Memória,

Amelinha que era mulher de memória e verdade

Presa e torturada na ditadura militar, Maria Amélia de Almeida Teles tornou-se referência na luta por justiça e reparação

18set2026

Ela tinha 27 anos quando cinco agentes da repressão cercaram o carro em que estava, na Rua Loefgren, na Vila Mariana. Armada com metralhadoras, essa equipe do DOI-Codi conduziu Amelinha e seu marido, César Teles, para o mais eficiente centro de tortura de São Paulo. O dirigente do PCdoB Carlos Nicolau Danielli caiu na mesma emboscada. Passava das 19h de 28 de dezembro de 1972, uma quinta-feira, quando os três chegaram ao Destacamento de Operações de Informação — Centro de Operações de Defesa Interna, na esquina das ruas Tutóia e Dr. Tomás Carvalhal, a poucas quadras do local do sequestro. Quem batia cartão naquele endereço tinha o hábito de se referir ao local como “a casa da vovó”. Para o major Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe dos torturadores, aquela era “a sucursal do inferno”.

Foi Ustra quem recebeu os recém-chegados. Cumprimentou Amelinha com um tapa no rosto, que a jogou ao chão. Era apenas um teaser do que viria depois. A primeira noite foi inteira dedicada a sevícias, maus-tratos ou qualquer outro eufemismo a ser impresso nos processos judiciais. Choques, pancadas, afogamentos. “Ponto-e-aparelho”. “Fala-comunista-filha-da-puta.”

No dia seguinte, enquanto Amelinha e César ainda eram torturados, os terroristas do DOI-Codi invadiram sua casa e sequestraram Criméia, irmã de Amelinha, grávida de sete meses, mais os dois filhos do casal. Janaína tinha cinco anos e Edson tinha quatro quando foram colocados diante dos pais. Encontraram Amelinha nua, machucada, suja de sangue, vômito, urina e fezes, sentada no instrumento de tortura conhecido como cadeira do dragão, um trono revestido com chapa metálica para potencializar os efeitos das descargas elétricas. “Mamãe, por que você está verde e papai está azul?”, uma das crianças quis saber. Eram os hematomas.

Nenhuma dor poderia ser mais cruel do que a da ameaça de torturarem as crianças.

No terceiro dia, Amelinha e César testemunharam o assassinato de Danielli. Não teve festa de Ano Novo na aurora de 1973. Amelinha apanhou diariamente até 13 de janeiro. Somente no dia 14 de fevereiro, quando as marcas físicas da selvageria arrefeceram, sua prisão foi oficializada e o casal pôde ser transferido para o Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS, no centro da cidade. Ali, Amelinha faria as primeiras anotações para o livro Contos da cela três: memórias de uma presa política na ditadura (Ema, 2024), publicado somente meio século depois.  

Mulher coletiva

Apenas meia hora depois de começado o velório, as paredes já estavam tomadas por coroas de flores. As homenagens chegavam dos mais diversos grupos e associações, principalmente de entidades de classe e coletivos de gênero. Uma coroa da CUT, outra do MST, uma terceira do Ministério das Mulheres, e também do PCR e da Unidade Popular, do Instituto Patrícia Galvão, do Bloco do Fuá, da Mobilização Estação Saracura/Vai-Vai, do coletivo Maria, Marias, do coletivo Maria Vai Com as Outras… Amelinha era assim, uma mulher de muitos coletivos. Ela mesma uma mulher coletiva.

“O homem coletivo sente a necessidade de lutar”, cantou o pernambucano Chico Science em “Monólogo ao pé do ouvido”, vinheta que abre a trilha sonora do filme Marighella. Se tivesse convivido com Amelinha, teria escrito o verso no feminino.

Amelinha deu de encerrar a carreira num 15 de setembro, Dia Internacional da Democracia

Amelinha deu de encerrar a carreira num 15 de setembro, Dia Internacional da Democracia. Tinha 81 anos e havia recebido muito recentemente o diagnóstico de um câncer já sem possibilidade de remissão. Atravessou os últimos dias em cuidados paliativos até ser acolhida pela direção da Unifesp, a mesma universidade que lhe conferiu o título de doutora honoris causa, em 2023, para que desse, ali, sua última aula. Porque, naquele velório, entre companheiras, companheiros e coroas de flores, Amelinha deu mais uma aula de cidadania, pertencimento e coragem.

Amelinha Teles n’A Feira do Livro 2026 (Nilton Fukuda/A Feira do Livro)

Vestia a camiseta de um dos tantos coletivos que havia ajudado a criar, o Promotoras Legais Populares, dedicado a capacitar lideranças comunitárias com noções de direito, direitos humanos e funcionamento do Estado. Sobre a camiseta, um broche de tecido com uma estrela, o símbolo do feminino e a palavra “insubmissa”. 

Verdade e justiça

Mineira de Contagem, Amelinha dedicou a vida à garantia de direitos. Depois de 45 dias no DOI-Codi e 127 no DOPS, ela passaria um par de meses entre os presídios do Hipódromo e do Carandiru antes de ser solta, em 1973. Foi o começo de uma incansável jornada de apoio a presos e familiares. Ao longo de cinco décadas, esteve à frente das primeiras iniciativas de contar e perfilar as vítimas fatais da ditadura no Brasil, participou da criação da primeira Comissão de Familiares de Pessoas Mortas e Desaparecidas Políticas, assessorou a Comissão Parlamentar de Inquérito instalada em 1990 para investigar os crimes de desaparecimento forçado e ocultação de cadáveres numa vala clandestina no cemitério de Perus e integrou ou colaborou com três comissões da verdade ao longo dos anos 2010: a Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva” (2012-2015), criada na Assembleia Legislativa de São Paulo, a Comissão Nacional da Verdade (2012-2014) e a Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016), quando trabalhamos juntos. 

Foi graças a uma ação movida pela família Teles, aliás, que podemos chamar Carlos Alberto Brilhante Ustra de torturador, sem o risco de sermos processados por calúnia ou difamação. A condenação em primeira instância, publicada em 2008, fez de Ustra o primeiro agente do Estado brasileiro a ser oficialmente reconhecido pela Justiça como torturador. O processo transitou em julgado em 2015, confirmando a sentença tanto no Tribunal de Justiça de São Paulo quanto no Superior Tribunal de Justiça. Ustra jamais foi preso, uma vez que sua condenação se deu unicamente na área cível, nem precisou indenizar a família Teles, uma vez que a ação foi meramente declaratória, mas morreu reconhecido como o facínora que foi — responsável por cerca de cinquenta mortes no período em que comandou o DOI, de setembro de 1970 a janeiro de 1974.

Diminutiva apenas no nome, insubmissa e imprescindível, ela é nosso farol e nossa inspiração

Simultaneamente ao valoroso trabalho realizado no âmbito do direito à memória e à verdade, Amelinha se dedicou de forma incansável à luta feminista, desde a formação da União de Mulheres de São Paulo, com sede em sua própria casa, mobilizando ativistas de todas as classes, cores e faixas etárias para intervir no processo constituinte, entre 1987 e 88. Nesta seara, publicou os livros Breve história do feminismo no Brasil (Brasiliense, 1993), O que é violência contra a mulher (Brasiliense, 2002), com Mônica de Melo, e Feminismos: ações e histórias de mulheres (Alameda, 2023).

Tive a honrosa oportunidade de partilhar algumas mesas com Amelinha ao longo dos últimos anos. Em 2024, por ocasião dos sessenta anos do golpe, mediei uma conversa entre ela e Frei Betto, ambos veteranos da resistência à ditadura com ampla produção literária e jornalística sobre aquele período, no Teatro Clara Nunes, em Diadema, onde eu servia como secretário de Cultura. Seis meses depois, voltamos a nos reunir no Memorial da Resistência, em São Paulo, ela com o seu Contos da cela três e eu com o meu Eu só disse meu nome (Discurso Direto, 2024).

Nosso debate mais recente foi em junho, no último dia d’A Feira do Livro. Com mediação de Juliana Borges, colunista da Quatro Cinco um e militante feminista da cepa de Amelinha Teles, discutimos a presença feminina na resistência à ditadura e na luta pela preservação da memória. “A nossa democracia só vai ser alcançada de fato com as mulheres”, afirmou.

Amelinha nos contou que, de todos os presos políticos citados nos 707 processos do Superior Tribunal Militar investigados no projeto Brasil: Nunca Mais, a maior denúncia contra a tortura já feita no país, 12% eram mulheres. Mas foram as mulheres que se mobilizaram com garra e coragem para botar o dedo na cara dos ditadores e exigir a soltura de seus familiares, a anistia dos presos e perseguidos, a volta dos exilados, o paradeiro dos desaparecidos, os remanescentes ósseos dos ocultados, toda forma possível de justiça e reparação. Estão aí as mães e avós da Praça de Maio, na Argentina, que não nos deixam mentir, como Eunice Paiva e Clarice Herzog. E está aí Amelinha, diminutiva apenas no nome, insubmissa e imprescindível, nosso farol e nossa inspiração.    

Quem escreveu esse texto

Camilo Vannuchi

Jornalista e escritor, é autor de Eu só disse meu nome (Discurso Direto) e do podcast O Caso Herzog