O escritor Éric Chacour na Flip 2026 (Gabriel Tye/Divulgação)

Literatura,

Apenas uma história de amor

Em conversa com jovens de Paraty, Éric Chacour fala sobre memórias familiares, identidade e as escolhas que moldam uma vida

26ago2026

Nas primeiras páginas de O que sei de você, romance do canadense de origem egípcia Éric Chacour, o protagonista expressa uma inquietação que atravessa toda a narrativa:

A vida começaria mais tarde. Por ora, não era a vida. Era uma espera, uma pausa talvez, a infância, uma lenta preparação. Para o que você se preparava? Ou, mais precisamente, para o que o estavam preparando?

Não por acaso, o autor costuma dizer que são os jovens leitores que melhor compreendem seu romance.

Escrito ao longo de quinze anos e publicado em 2024 no Brasil, O que sei de você tornou-se um fenômeno literário, com mais de 400 mil exemplares vendidos e traduzido para quinze idiomas, e venceu  os prêmios France-Québec e Femina des Lycéens, escolhido por estudantes franceses do ensino médio.

A narrativa acompanha Tarek, um jovem médico de uma tradicional família cristã, no Cairo dos anos 80, e sua descoberta do desejo, do amor pelo colega Ali e dos conflitos que isso gera com expectativas familiares, religiosas e sociais. Narrado em segunda pessoa, o romance é construído a partir da memória, dos silêncios e das vozes femininas da família e trata de amor, identidade e escolhas que moldam uma vida.

‘A história entre Tarek e Ali é daquelas que não podem ser nomeadas; mais uma razão para contá-la’

Em julho, Chacour esteve no Brasil participando da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) a convite da FlipZona, programa dedicado às juventudes. Durante o encontro, conversou com quatro jovens leitores de Paraty — que agora escrevem este texto. Perguntaram ao autor sobre o Egito reconstruído a partir das memórias familiares, a narrativa em segunda pessoa, o papel das mulheres no romance e a relação entre literatura e juventude.

Você costuma dizer que queria apenas escrever uma história de amor,  mas que jornalistas e críticos insistiam em perguntar sobre política. Depois de conquistar tantos leitores, isso foi melhor compreendido?
Ao escrever O que sei de você, tinha a impressão de que o motor da narrativa era a história de amor. Eu a queria tão intensa quanto trágica, que soubéssemos que estava perdida de antemão e que, apesar de tudo, não pudéssemos deixar de ter esperança. Mas percebo que cada leitor tem sua própria visão de um romance. Alguns me falam exclusivamente sobre a questão do exílio, outros sobre a filiação ou ainda sobre sua imersão no Egito levantino… Acabei aceitando a ideia de que a percepção do autor sobre seu livro vale tanto quanto a de qualquer leitor.

O que pesa mais no amor entre Tarek e Ali: a diferença de classes ou a violência da sociedade?
Vários elementos poderiam, com o tempo, ter se tornado pedras no caminho dessa relação, mas, para isso, teria sido preciso que ela pudesse existir. Foi o contexto social — a família, a comunidade, o país — que matou no nascedouro essa relação proibida. No fundo, foi o fato de serem dois homens naquele Egito do fim do século 20 que condenou o amor de Tarek e Ali, muito mais do que qualquer uma de suas diferenças.

Existe alguma cena do romance que resume esse amor, que tenha um significado especial para você?
O romance deve ganhar uma adaptação para o teatro em breve, no Canadá e na França, e a primeira coisa que disse às equipes responsáveis pela adaptação foi: “É preciso acertar a cena do beijo, senão tudo desmorona!”. Para mim, foi a cena mais difícil de escrever: o personagem de Tarek é feliz em sua vida, teve um casamento por amor, não questiona realmente sua sexualidade e, ainda assim, dentro daquele carro, era preciso que o leitor esperasse tanto quanto ele o beijo de Ali que viria em seguida.

O sentimento entre os personagens surge em um ambiente cercado por silêncios. Como escrever um amor que quase nunca pode ser vivido em voz alta?
É engraçado que, durante minha passagem pelo Brasil, tenham me perguntado tantas vezes sobre o lugar do silêncio na minha escrita. Não sei o que isso diz sobre ela, ou talvez sobre vocês, mas percebo que gosto da ideia de fazer as coisas serem compreendidas sem precisar explicitá-las. A história entre Tarek e Ali é daquelas que não podem ser nomeadas. Mais uma razão para contá-la, ainda que seja remendando retalhos de silêncio.

O livro descreve o Egito da época de seus pais. Por que ressuscitar esse país dos anos 80?
A história se passa ao longo de quase quarenta anos, do início dos anos 60 aos anos 2000. É uma espécie de elo entre o Egito que conheço, aquele onde visito minha família desde criança, e o dos meus pais. Tentei imaginar o que eles poderiam ter vivido se tivessem permanecido lá, depois das nacionalizações e da onda de partidas em massa que levou tantas pessoas a deixar o país. Talvez haja aí uma espécie de dilaceramento, mas também um sentimento de perda de status social e de nostalgia.

O que você descobriu sobre sua própria família durante a escrita?
Não fiz propriamente nenhuma descoberta, mas prestei atenção aos detalhes: o nome daquela água-de-colônia que havia em todas as casas naquela época, o nome da loja onde minha avó trabalhava, a cerca de madeira na praia que deixava farpas quando apoiávamos os dedos nela. Alguns desses detalhes foram parar no romance, que continua sendo uma obra de ficção. Outros, guardei para mim.

Você já disse que o primeiro título que pensou fazia referência aos aromas de alho e anis. A experiência sensorial fez parte da reconstrução?
Ah, sim. Tenho certeza de que, se houvesse apenas uma coisa em comum entre o meu Egito e o dos meus pais, seriam os cheiros. A cidade do Cairo mudou muito, mas continuo convencido de que, na mesma esquina, era possível sentir os mesmos cheiros quarenta ou cinquenta anos atrás.

Há algo autobiográfico em Tarek?
O que mais me aproxima de Tarek é, sem dúvida, a ideia de sair dos trilhos. Nós dois tínhamos uma vida previsível e confortável, e nada fazia prever que a abandonaríamos de forma tão repentina. No caso dele, a faísca foi se apaixonar; no meu, foi a recepção desse primeiro romance. Fez minha vida tomar outro rumo. A partir de então, nada mais foi igual em nossa vida. Mas isso, é claro, eu não poderia saber quando estava escrevendo a vida dele.

Na Flip, você comentou o quanto é desestabilizador narrar em segunda pessoa. Por que assumiu esse risco?
Um primeiro romance é um campo de experimentação. A gente tenta coisas, brinca, maltrata um pouco o leitor (mas sempre por uma boa causa). Disseram que esse romance parecia uma investigação policial escrita em poesia. Isso me fez rir, porque, evidentemente, não é nem um romance policial nem um livro de poemas, mas talvez haja na minha escrita a intenção desses dois gêneros. A investigação diz respeito à busca do narrador. Não imaginei que esse elemento ocuparia um espaço tão grande na cabeça dos leitores.

A mãe de Tarek assume riscos e erra, como todos. Como faz para sustentar personagens com atitudes tão ambíguas?
Lembro de uma visita a uma prisão, por ocasião de uma conversa sobre este livro. Fiquei surpreso ao perceber que muitas perguntas giravam em torno da moralidade dos personagens. Foi tocante, porque eu tinha diante de mim pessoas que haviam sido julgadas e condenadas pela sociedade, e era como se elas precisassem que alguém validasse, naquele momento, sua percepção sobre a conduta certa ou errada dos personagens.

Isso também me colocava em uma posição delicada, porque detesto julgar meus personagens. Conheço seu lado obscuro, seus conflitos internos e as razões que os levam a agir de uma maneira ou de outra, mas tenho a impressão de que meu papel como escritor termina aí. Alguns considerarão Tarek covarde; outros, corajoso. Alguns dirão que sua mãe foi cruel; outros, que agiu por amor. Todas essas afirmações têm sua parcela de verdade.

As mulheres ocupam papel central e parecem conduzir silenciosamente a narrativa. Isso foi intencional?
Às vezes digo que minha família é como a família real britânica, que produz grandes rainhas e pequenos reis — e me incluo na categoria dos “pequenos reis”. O mesmo acontece com os personagens do meu romance: são sobretudo as mulheres que demonstram personalidade e coragem. Sociedades tradicionais, que muitas vezes excluem as mulheres da esfera pública, acabam, ao mesmo tempo, incentivando-as a recuperar o poder na esfera privada. Quanto mais avançamos no romance, mais entendemos que são elas que puxam os fios nos bastidores.

‘O que mais me aproxima de Tarek é, sem dúvida, a ideia de sair dos trilhos, de uma vida previsível e confortável’

Se pudesse conversar com o Tarek adolescente, o que diria?
Acho que essa é a pergunta mais bonita que me fizeram desde o lançamento do romance! Provavelmente diria ao jovem Tarek para não deixar de ser quem é, mesmo que isso o afaste da vida que haviam planejado para ele. Talvez ele me olhasse erguendo os olhos, como eu olhava para os adultos que se dirigiam a mim com esse tipo de frase, mas sei que, ainda assim, isso ficaria em algum canto de sua mente. Também diria a ele para viver plenamente tanto os momentos tristes quanto os alegres, porque todo o resto não passa de uma espera. Ou de uma distração.

Você passou quinze anos escrevendo esse romance. Pensou em desistir? O que o fez continuar?
Por muito tempo, escrever foi um passatempo, uma atividade que me fazia bem e da qual não esperava nada. Portanto, não tinha motivo para desistir — assim como não tinha motivo para me apressar, já que ninguém sabia que eu estava escrevendo um romance. Então veio a pandemia de Covid-19, e, como estávamos todos confinados, pensei que, se não terminasse de escrever aquela história em que vinha trabalhando havia tanto tempo, provavelmente nunca mais o faria. Isso me motivou.

Éric Chacour (Gabriel Tye/Divulgação)

Como foi seu processo de escrita enquanto você ainda trabalhava em um banco?
Eu costumava escrever nas férias ou nos fins de semana, às vezes à noite. Desde a adolescência, escrever é para mim uma maneira de dar forma concreta às emoções difusas que sinto. Alguns escritores dizem arrancar uma parte de si a cada frase; eu tenho a sorte de me sentir em paz depois de escrever.

A memória pode ser considerada uma narradora confiável?
Não, é claro que nossa memória é subjetiva. Aliás, acho que meu maior medo é o esquecimento: não me lembrar de momentos importantes ou que outras pessoas se esqueçam daqueles que compartilhamos. Quando Ali desaparece, Tarek percebe que, à medida que o tempo passa, sua memória vai jogar cada vez mais contra ele; que, mais cedo ou mais tarde, terá esquecido até o som da voz de quem amava.

O luto no romance é retratado de forma contida. Por que escolheu representar a dor dessa maneira?
A dor do luto é, antes de tudo, interior. Não é preciso descrever um personagem chorando, gritando e desabando para que se compreenda que ele está devastado. Mostrá-lo desligando o rádio quando toca a música favorita da pessoa que morreu me parece igualmente forte.

Quem foram os escritores que mais influenciaram sua escrita?
Meu autor preferido é o dramaturgo quebequense Michel Marc Bouchard. Aliás, acho que uma de suas peças mais importantes, Tom na fazenda (trad. Armando Babaioff, Cobogó, 2017), fez bastante sucesso no Brasil. Ele tem um talento próprio de alguns autores francófonos do Canadá: o de conciliar o amor dos franceses pelas belas construções da linguagem com o senso norte-americano de narrativa.

Algum leitor já fez uma interpretação que o surpreendeu e que você acabou incorporando à sua própria leitura do livro?
No Brasil, me fizeram perceber que “Ali”, em português, significa “ali” e que, no início de uma frase, isso pode gerar uma certa confusão: estamos falando do personagem ou desse lugar desconhecido que ele representa para Tarek? Gosto muito disso! Queria dizer que fiz de propósito, mas seria mentira.

O que mais surpreendeu nas reações dos leitores?
Não imaginava que essa história pudesse tocar tantos corações. O público francófono do Canadá não é muito grande e, quando o livro foi publicado, perguntei ao meu editor quantos exemplares ele precisaria vender para não ter prejuízo. Ele me respondeu: 1.485, e isso me pareceu um número enorme! Como encontrar, no Quebec, 1.485 pessoas interessadas na minha história de amor entre dois homens, um médico levantino no Egito do fim do século 20? Jamais teria imaginado que, três anos depois, essa história alcançaria quase meio milhão de leitores, em quinze idiomas. Há algo nisso que me ultrapassa e me emociona.

‘A adolescência é um período fascinante da vida porque experimentamos todas as emoções’

Você costuma dizer que os jovens são os leitores que melhor compreendem O que sei de você. O que eles enxergam no livro que os adultos deixam escapar?
Foram eles que mais se aproximaram daquilo que eu tinha em mente ao escrever o romance. Quando o livro foi publicado na França, logo foi indicado a alguns dos mais prestigiados prêmios literários, o que é bastante incomum para um autor quebequense. Eu ficava muito impressionado ao conversar com os jornalistas e tentava disfarçar minha surpresa quando eles descreviam meu romance como uma grande saga familiar do século 20, um relato sobre a memória ou ainda uma reinvenção do romance levantino. Tudo isso me parecia distante do centro do que eu tinha escrito. Mas pensava que, afinal, talvez eles soubessem melhor do que eu como classificar essa história.

Quando O que sei de você recebeu o Femina des Lycéens (Prêmio Femina dos Estudantes do Ensino Médio), um jornalista perguntou aos membros do júri, que tinham cerca de quinze ou dezesseis anos, por que haviam escolhido aquele livro. Uma das meninas então exclamou: “Porque é uma incrível ode ao amor!”. Era a primeira vez que alguém descrevia o romance da maneira como eu quis escrevê-lo.

Durante o Encontro FlipZona, você comentou que ficou emocionado porque os jovens de Paraty entenderam o peso que Tarek carregava. Como explica essa identificação entre leitores e o protagonista mesmo em contextos tão diferentes?
A adolescência é um período fascinante, porque vivemos apenas uma pequena parte da vida, mas já experimentamos todas as emoções — o amor, o medo, o desespero, a amizade, a vergonha — e, às vezes, de uma maneira mais intensa do que jamais voltaremos a vivê-las. Quando um estudante do ensino médio me escreve contando que a mãe o pressiona por seu desempenho escolar mas nunca percebe seu esforço, e termina dizendo que se sente um pouco como Tarek, sufocado pelas expectativas da família, penso que esse garoto entendeu a luta que meu personagem enfrenta.

Encontro da FlipZona (Gabriel Tye/Divulgação)

Essa tensão entre seguir o próprio caminho e corresponder às expectativas da família é universal?
Em Paraty, em Montreal ou no Cairo, quantos jovens se sentem divididos entre o medo de decepcionar aqueles a quem amam e o medo de trair a si mesmos? Esse sentimento pode se manifestar de maneiras diferentes conforme a cultura, mas tenho certeza de que é vivido emocionalmente da mesma forma, onde quer que se viva.

O que faz um livro realmente dialogar com as juventudes? Existe algo que os jovens procuram na literatura e que os adultos não percebem?
Só posso responder por mim: quando tinha a idade deles, gostava de livros que respeitassem minha inteligência. Daqueles que não me diziam o que eu deveria sentir, que me deixavam formar minha própria opinião. Talvez por isso nunca tenha me atraído aquilo que, na época, me apresentavam como “literatura para adolescentes”. Eu queria encontrar o mesmo prazer nos livros que qualquer adulto. No fundo, acho que sempre escrevemos um pouco para o adolescente que fomos.

Que livro marcou sua adolescência?
Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Ali eu encontrava tiradas espirituosas e aventura; podia ser transportado para outra época e sentir emoções intensas. Lembro-me de ter pensado que gostaria de ser um mosqueteiro, mas provavelmente seria míope demais para considerar seriamente essa carreira no século 17.

E, se pudesse deixar apenas um livro nas mãos de um jovem hoje, qual seria?
Meu livro preferido é Promessa ao amanhecer (trad. Mauro Pinheiro, Estação Liberdade, 2008), de Romain Gary. É o livro que mais gosto de dar de presente, mas para presentear alguém é preciso conhecer um pouco dos seus gostos.

Em que você está trabalhando agora?
Uma nova história. Vai saber, talvez seja sobre adolescentes e se passe, em parte, no seu continente…    

Quem escreveu esse texto

Claudia Eller

20 anos, é estudante e participou do programa Jovem Repórter na Flip e do Coletivo FlipZona.

Bruce Teodoro

18 anos, é estudante e participou do programa Jovem Repórter na Flip e do Coletivo FlipZona.

Clarice Fontebasso

17 anos, é estudante e participou do programa Jovem Repórter na Flip e do Coletivo FlipZona.

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