Autobibliografia,

Duas vezes Ítaca

A melhor versão da Odisseia é aquela capaz de fazer você se divertir na viagem com Ulisses — mesmo que inclua uma escala na França

20ago2026

Na primeira vez que a li, a Odisseia estava mais pra L’Odyssée.

Dito assim, pareço um pós-doutor em Grécia Antiga. Antes que o mal-entendido se alastre, explico que sou um helenista da linha Manoel Carlos, assim como há os marxistas da facção Groucho.

Tive um arroubo classicista, admito, coisa de moleque embasbacado com os deuses e os homens de Homero, Ésquilo, Sófocles e Eurípides. Foi quando caiu em minhas mãos um exemplar da coleção portuguesa Livros de Bolso Europa-América com as aventuras de Ulisses. 

Era uma tradução indireta, a partir do francês. Com suas feitiçarias linguísticas, o gajo responsável pela empreitada ainda transformou os 12.110 versos originais em porcos, digo, em prosa escorreita.

O que seria um defeito, porém, acabou me ajudando. 

Àquela altura, entre a noite no Baixo Leblon e a praia em frente ao Coqueirão, seria impossível encarar um poema metrificado de quatrocentas páginas — não se pode ser sério aos dezessete anos, embora eu já tivesse dezenove ou vinte.

Muito tempo depois, no início dos anos 2000, a versão de Frederico Lourenço publicada pela editora lisboeta Cotovia provocou um certo buchicho. Se não chegou perto da odisseiamania deflagrada pelo filme do Christopher Nolan, foi o suficiente para me levar de volta ao texto.

Com versos livres, leves e soltos traduzidos diretamente do grego, o épico recupera a combinação de ritmo poético com fluência narrativa que faz sua fama há 27 séculos. 

As primeiras linhas dão logo o tom: “Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou,/ depois que de Troia destruiu a cidadela sagrada”.

Para comparar, o “homem astuto” de Lourenço pode virar de uma Odisseia para outra “herói multifacetado”, “industrioso”, “fértil em expedientes”, “multívio”, “ardiloso varão”, “multimodal” ou até “poliengenhoso” — esse, adivinha, é do Haroldo de Campos. 

Só me arrependo de ter deixado num sebo minha velha edição afrancesada, vítima da disputa por espaço nas estantes aqui de casa. Manter dois exemplares de um mesmo título parecia uma extravagância. Hoje queria de volta a companheira da minha primeira viagem a Ítaca.

Todo mês, o leitor Fernando Luna (@fluna) faz um exposed de seu relacionamento íntimo com um livro.

Quem escreveu esse texto

Fernando Luna

Jornalista, é colunista da Quatro Cinco Um e da revista Gama.

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