A cachoeira onde Yoshitsune banhou seu cavalo em Yoshino, na província de Yamato, de Katsushika Hokusai (c. 1832) (MET Museum/Reprodução)

Literatura japonesa,

Cavalo rumo ao sol

No segundo volume de tetralogia, Yukio Mishima faz ensaio literário do ato que recobriu sua vida e obra e escreve a morte como ritual

17ago2026 | Edição #109

Avessa a leituras redutoras, a literatura de Yukio Mishima (1925-70) conjuga predicados à primeira vista inconciliáveis: homoerotismo e conservadorismo, sexualidade e espiritualidade, beleza e violência, como resposta às transformações políticas e sociais do Japão do século 20.

Mesmo figurando no panteão da literatura japonesa, indicado três vezes ao Nobel, a performance estética e política que resultou no seppuku (suicídio ritual samurai) do escritor se tornou inseparável de sua obra, cujo exemplo mais significativo talvez seja a história de Isao em Cavalo selvagem.

O escritor japonês Yukio Mishima, 1966 (AP Photo/Nobuyuki Masaki)

O romance é o segundo volume da tetralogia Mar da Fertilidade. Os quatro livros foram publicados no Japão entre 1969 e 1971 e chegaram ao Brasil pela primeira vez nos anos 80, pela Brasiliense. No ano passado, por ocasião do centenário de Mishima, a Estação Liberdade passou a publicá-la em tradução direta do japonês, por Fernando Garcia e Eunice Suenaga.

Antes de morrer, em Neve de primavera, primeiro volume da tetralogia, o jovem Kiyoaki diz a Honda que voltaria a encontrar o amigo sob uma cachoeira. Vinte anos depois, já em Cavalo selvagem, a promessa é obscurecida pela vida monótona de Honda, que trabalha como juiz auxiliar em Osaka. Entretanto, durante uma competição de kendô, arte marcial japonesa, Honda conhece Isao, protagonista do segundo volume. Ao encontrá-lo sob uma cachoeira, relembra a fala do amigo e passa a suspeitar da reencarnação de Kiyoaki em Isao

A suspeita garante o elo entre os dois romances, mas fica em segundo plano, pois o foco narrativo se volta a Isao. O que é reencarnado de fato são os ideais da Liga do Vento Divino, movimento radical composto por samurais que se opunham à ocidentalização da Era Meiji (1868-1912). A leitura do livreto fictício História da Liga do Vento Divino transforma o discreto Isao em um aspirante a anti-herói nacional.

Rio Tama na Província de Musashi, da série “Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji” (MET Museum/Reprodução)

O documento é tão essencial à narrativa que é reproduzido integralmente por quase cinquenta páginas, como se o próprio Mishima pretendesse converter os leitores. Revoltados com a proibição do porte de espadas, promulgada em 1876, os samurais fazem no livreto um levante contra guarnições militares visando ao assassinato de generais, tenentes e líderes políticos para purificar o Japão e reaver as tradições que teriam se perdido com o início da Era Meiji. Mas a ação fracassa e a maioria dos sobreviventes comete seppuku.

A partir de então, a vida de Isao é movida por um único e obsessivo desejo: “de manhã do alto de um penhasco, reverenciando o sol nascente observando o mar resplandecente, sentado no pé de um imponente pinheiro quero cometer seppuku”. Guiado pelo princípio de que conhecer e não praticar é o mesmo que não conhecer, do filósofo neoconfucionista Wang Yangming, Isao convence jovens de sua idade a acompanhá-lo e organiza sua reedição da Liga do Vento Divino.

Natureza

O homoerotismo característico do autor é menos explícito, mas permanece latente e encontra expressão na estetização da violência centrada no militarismo, na fraternidade samurai e na reverência à espada. O peitoral de Isao resplandece à luz do sol, os antebraços são vigorosos, os tendões de Aquiles capazes de alçar voo. Quando o grupo de jovens se une para jurar aos deuses, as mãos suadas se entrelaçam com força e compartilham o sangue e o calor de seus corpos. A fantasia sacrificial de dor e júbilo é consumada quando Isao sonha com o momento em que todos morrerão no campo de batalha, na piscina de sangue que esguicharia do seu corpo.

Para além do erotismo, o animismo xintoísta reveste o romance de uma sensibilidade em que homens, animais, plantas e minerais compartilham uma mesma força vital. Os capítulos quase sempre se encerram com metáforas, metonímias e símiles entre personagens e elementos da natureza. Além do cavalo, Isao também é comparado a um cão, um cisne, um dragão, um filhote de leão e uma mariposa. O rosto do personagem é como a neve recém-caída, sua agilidade no kendô se assemelha a um redemoinho azul; o toque de seus lábios, ao amanhecer nas montanhas. São inúmeras, também, as espécies vegetais dotadas de espiritualidade, como pinheiros, carvalhos, cerejeiras e ciprestes.

O homoerotismo do autor é menos explícito, mas encontra expressão na fraternidade samurai

Essa profusão de imagens é um contraponto à racionalidade jurídica e ao pragmatismo político do Japão moderno, incorporado por Honda e rejeitado por Isao. Se a linguagem do direito organiza o mundo pela artificialidade da norma, a linguagem da natureza o restitui à experiência sensível. Nas palavras de Isao: “As leis são o agrupamento de algo que obstrui constantemente o anseio de transformar a vida, por um átimo, em poesia”.

Performance

Em 1968, Mishima criou a Tatenokai, uma milícia ultranacionalista que reunia uma centena de jovens que se opunham a ideologias estrangeiras e pregavam o retorno da cultura tradicional japonesa. Como o movimento de Isao foi reproduzido por Mishima com tamanha fidelidade pouco tempo depois da publicação do romance, é incontornável aproximá-lo da sua vida — sobretudo quando se trata de um escritor tão performático.

Em 25 de novembro de 1970, aos 45 anos, o autor entrou acompanhado de quatro integrantes de sua milícia num quartel-general em Tóquio, onde cometeu seppuku após um discurso ridicularizado pela tropa. Meses antes de consumar o ato, posou para o fotógrafo Kishin Shinoyama vestido de samurai, numa série de fotografias em que simula o ritual suicida com uma espada. Em Patriotismo, ou O rito de amor e morte (1966), único curta-metragem que ele dirigiu, uma adaptação de seu conto homônimo, Mishima interpreta o tenente Takeyama, que comete seppuku depois de um golpe político fracassado.

Após a tentativa frustrada de golpe em Cavalo selvagem, Isao se recusa a consentir com as concessões que a vida adulta faz aos sonhos juvenis. Sozinho, de madrugada, assassina um grande empresário e corre para um penhasco de frente para o mar. O sol ainda demoraria a nascer, mas o jovem não pode esperar, pois há homens a caminho para capturá-lo. Finalmente, eviscera o próprio abdômen e, sob o calor da dor, oferece uma última imagem: o sol nasce em Isao, por trás das pálpebras, e brilha com esplendor.

O romance pode ser lido como um ensaio literário do ato final que recobriu a vida e a obra do autor de um enigma que, tal como a luz refletida por um fractal, escapa a um sentido único e continua a assombrar e interessar leitores.        

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Walmir Gois

É doutorando em Teoria Literária na USP e comunicador na editora Ubu.

Matéria publicada na edição impressa #109 em agosto de 2026. Com o título “Cavalo rumo ao sol”