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Historiadora recria o contexto político e social de levante lésbico em 1983 sem esquecer a memória afetiva da vida noturna
14jul2026Qual é o significado de um acontecimento político num bar lésbico no centro de São Paulo nos anos 80? E qual é a importância de memorializá-lo? Em Na noite lésbica, a historiadora Julia Kumpera narra o levante do Ferro’s Bar e ilumina essas questões.
Situado na rua Martinho Prado, no centro de São Paulo, o Ferro’s Bar era um ponto do circuito noturno paulista, bar e restaurante frequentado por estudantes e intelectuais e, a partir do final dos anos 60, por casais de mulheres e grupos de lésbicas. Em 1983, viraria também cenário de um levante.
Tudo começou quando ativistas do Grupo Ação Lésbica Feminista (Galf) foram impedidas de vender e divulgar no local o boletim ChanacomChana, periódico da imprensa alternativa voltado para a comunidade. Como protesto, o grupo articulou um levante, que, numa sexta-feira, 19 de agosto de 1983, por volta das dez da noite, reuniu ativistas lésbicas e gays, parlamentares de esquerda e uma advogada, além da imprensa e de outros aliados.
Com uma narrativa acessível e fluida, o livro é o primeiro volume da coleção Nossas Histórias, organizada por Renan Quinalha, que supre uma lacuna da história LGBTQIA+ brasileira: dá conta de eventos que fazem parte da memória compartilhada da comunidade, mas que foram pouco elaborados na bibliografia especializada. Com foco no público geral, a coleção marca a disputa sobre o que merece ser lembrado no Brasil.
Kumpera não viveu o levante e não esteve no Ferro’s Bar (desativado desde meados dos anos 2000), mas tem uma relação afetiva com o passado e reconhece o valor desse acontecimento e do espaço de sociabilidade para a construção de uma identidade lésbica contemporânea. Para resgatar o ocorrido, a autora escolheu, corretamente, se colocar na linha do tempo com curiosidade e interesse em ampliar a memória da lesbianidade no Brasil.
Uma das maiores contribuições do livro é situar a história lésbica brasileira na luta por cidadania no país no final do século 20, indissociável do ativismo lésbico-feminista. Em menor escala, a trajetória do Ferro’s está marcada pelas tensões sociais decorrentes da urbanização de regiões como a Boca do Lixo e a Boca do Luxo, pelas batidas policiais e pelo movimento homossexual que emergiu nos últimos anos da ditadura militar.
Kumpera situa a história lésbica brasileira dentro da luta por cidadania no Brasil no final do século 20
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O Ferro’s é produto dessas contingências: de ponto de encontro acessível da trupe do teatro e grupos universitários, o bar logo se constituiu como um espaço majoritariamente lésbico. Nas décadas de 70 e 80, fazia parte da vida noturna paulistana — as mulheres jogavam sinuca, marcavam jogos de futebol e se encontravam no movimentado banheiro para trocar beijos rápidos.
No Ferro’s e no gueto, a dicotomia fancha/lady — da lésbica lida como masculina em contraste com a de apresentação mais feminina — é examinada por Kumpera. A historiadora avalia o fenômeno como elemento de organização da comunidade, determinando comportamentos, modos de vestir e pertencimento. No Ferro’s, embora os casais geralmente seguissem o modelo, que a autora define como o “casal possível”, muitas lésbicas viam a norma prescritiva como algo a ser superado.
À dicotomia dos papéis sexuais e de gênero se somam outros elementos, como as recorrentes brigas entre as frequentadoras do bar. Para a autora, as contradições fazem parte da sociabilidade complexa de mulheres que não só desfrutavam da noite, mas precisavam lidar com a marginalização institucional e com a conturbada relação entre a clientela do Ferro’s e seus donos pouco compreensivos.
Operação Sapatão
Outra grande contribuição de Kumpera é retratar o contexto do país que permeou o levante. A história das lésbicas na noite paulistana é influenciada por fatores políticos e sociais dos anos 70 e 80: operações policiais buscavam “limpar” o centro da cidade expulsando sujeitos indesejáveis, que afetavam estabelecimentos de frequência proletária ou zonas de prostituição.
A questão de classe é evidente: o poder aquisitivo da clientela e a proximidade com classes poderosas protegeram as mulheres lésbicas mais afluentes da repressão levada a cabo por personagens como o delegado José Wilson Richetti, conhecido perpetrador de ações como a Operação Sapatão, que prendeu mais de duzentas lésbicas no final de 1980.
Kumpera mapeia o contexto do final da ditadura para, em paralelo, percorrer o caminho dos movimentos sociais, o surgimento do Galf e a conjuntura que possibilitou o levante, em 1983. As entrevistas com militantes e frequentadoras da noite mostram que as circunstâncias que levam ao ativismo não são predeterminadas, mas marcadas pelo desejo de liberdade e de politizar a vida cotidiana, incluindo a orientação sexual.
A autora reconstrói a coalizão que participou do primeiro protesto organizado pelo movimento homossexual no Brasil, em 13 de junho de 1980, demandando menos repressão e violência policial. Entre ganhos e perdas do movimento, a narrativa culmina na retomada do Ferro’s Bar. O levante seria rememorado nas décadas seguintes como o “pequeno Stonewall brasileiro”, mas Kumpera questiona a comparação. A revolta de Stonewall foi um protesto espontâneo, em Nova York, em 1969, contra a violência policial. Já o levante do Ferro’s foi uma ação de retomada de um espaço de sociabilidade, organizada de maneira sagaz pelo movimento lésbico brasileiro. Assim como no caso do levante, foi o esforço de ativistas que alçou Stonewall ao caráter de divisor de águas para o movimento de libertação gay nos Estados Unidos. No caso brasileiro, isso se torna mais significativo porque o evento foi capitaneado por lésbicas no contexto ainda restrito da abertura política.
Em Na noite lésbica, Kumpera imagina como devem ter se sentido as mulheres que viram o local que frequentavam servir de espaço para uma ação política, recria a cena e transporta o leitor para o momento, relembrando os discursos por mais democracia e o sentimento palpável de vitória disseminado entre os envolvidos, potencializado pela repercussão positiva na imprensa. A autora evidencia a importância desse evento para a narrativa mais ampla da democracia e da luta por direitos no Brasil, sem perder a memória afetiva da vida noturna lésbica em São Paulo.
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