Literatura japonesa,
Pancadaria feminista
Autora japonesa estreia no Brasil com romance de luta protagonizado por duas mulheres no submundo da Yakuza
29jul2026 • Atualizado em: 28jul2026 | Edição #108“Quanto mais o mundo se constrói com base em estereótipos, mais fácil fica de tapeá-lo”, diz a voz narradora de A noite de Baba Yaga. O primeiro romance da japonesa Akira Otani traduzido no Brasil é muitas coisas ao mesmo tempo, e talvez a faceta mais visível seja a do livro de ação e pancadaria. Mas os chutes e ossos quebrados não excluem o debate de gênero e a crítica a uma sociedade que encerra mulheres em moldes apertados.
Yoriko Shindō, a protagonista de 22 anos, adentra o enredo cuspindo sangue, numa cena de abertura nada fortuita. Espancada por um bando de homens e com uma provável costela quebrada, a jovem parece encarnar um extremo de fragilidade. Rápido, porém, está pronta para revidar com força total — antes da página quatro, já podemos vê-la lançando mafiosos pelo ar. Shindō é uma protagonista bruta e sua aptidão para a luta é o elemento de entrada no romance.
Numa noite qualquer, andando em busca de um jantar e um filme pelas ruelas estreitas de Kabukichō, o bairro da “luz vermelha” de Tóquio, é abordada por um bêbado que lhe dá um tapa na bunda. Ela parte para a briga, atraindo uma pequena multidão. Um grupo de mafiosos da Yakuza, surpresos com sua técnica marcial, decide raptá-la como um presente ao chefe.
É assim que a heroína chega à mansão do gângster Naiki, que precisa de alguém para proteger a filha, Shōko, depois que o último no cargo ousou tocá-la e teve a mão decepada. Shindō assumirá o trabalho de motorista e guarda-costas da adolescente, mas antes deslocará algumas articulações. A primeira parte da história concentra esforços nas surras que ela promove entre os capangas da mansão. Nas lutas, a aposta da linguagem recai sobre descrições gore e umas quantas onomatopeias: “Vushhh. Um som de lâmina cortando o ar escapou por entre os dentes dela”.
Há pouca pressa, pouquíssima, em explicar a origem psicológica da violência. Esta talvez seja a primeira inversão de Otani, uma autora lésbica com ensaios feministas publicados no Japão. Enquanto o texto aproxima Shindō da longa tradição asiática de guerreiras sedentas por sangue, ele descarta a narrativa de vingança. Em Baba Yaga, não vemos um trauma fundador que justifique a fúria da protagonista. A história começa já com a roda da ação girando e uma heroína para lá de confortável na arena do confronto físico.
É bem diferente, por exemplo, da história de lutadoras célebres como Lisbeth Salander, da série Millennium (Companhia das Letras, 2009-2015), ou Yuki, do mangá Lady Snowblood (Panini, 2021), criado nos anos 1970 por Kazuo Kaminura e transformado em filme estrelado por Meiko Kaji. Na trilogia do sueco Stieg Larsson, Lisbeth é moldada por um duplo trauma: a violência do pai contra a mãe e o abuso sexual do psiquiatra. Já no famoso mangá, a mãe da protagonista é estuprada e assiste à morte do marido e do filho. Yuki é então concebida e treinada para a vingança. A clássica história de revanche em arte marcial é familiar também pelos filmes Kill Bill (2003 e 2004), a adaptação hollywoodiana de Quentin Tarantino — ou, na pior das avaliações, a versão whitewashing — para Lady Snowblood.
Em ‘Baba Yaga’, não vemos um trauma fundador que justifique a fúria da protagonista
Mais Lidas
No caso de Shindō, o mais próximo que a autora chega de contextualizar sua brutalidade é quando narra o passado com os avós, de quem herdou histórias sobre uma bruxa fantástica e as cruentas aulas de briga. A cada aniversário, o avô oferecia uma impiedosa surra à neta, para obrigá-la a melhorar suas defesas. O abuso acaba por funcionar como iniciação. “‘Desiste?’, perguntava o avô, e ela balançava a cabeça para os lados. […] Quando se deu conta, a violência tinha se tornado o seu único interesse.”
Há mais no romance, porém, do que pancadaria. Nas brechas do submundo do crime, Shindō e Shōko são obrigadas a interagir. A convivência é a oportunidade da autora para aprofundar a experiência íntima das duas mulheres, que vão perceber o quanto estão expostas aos desmandos de um mundo de homens. A filha do chefe, chamada de “princesa” por todos na mansão, obedece a uma rotina estrita de aulas de culinária e ikebana (arranjos florais) como preparação para o casamento. O noivo é um truculento sócio do pai. Nas conversas longe da casa, surgem cenas do passado, como a fuga da mãe de Shōko e o conto de Baba Yaga, a figura que dá título ao livro e servirá como imagem catalisadora das duas personagens.
Ouvida por Shindō no relato da avó, a história dessa bruxa do folclore eslavo percorre uma zona moral ambígua. Com seus poderes mágicos, Baba Yaga é capaz de destruir plantações e devorar humanos ou, ao contrário, ajudar moças a realizarem seus desejos. Tudo depende de sua vontade, sempre imprevisível. “Mas ela não é má?”, questiona Shōko. Shindō explica: “Quando ela aparece, não sabemos como ela vai agir, se vai ser inimiga ou amiga, e essa é a parte interessante da história”.
Moldes
Desfazer moldes em torno do feminino faz parte da dança do livro. De protegida, a filha do chefe passa a proteger sua guarda-costas, livrando-a de um estupro coletivo planejado pelos colegas da mansão. Em certa medida, a história faz isto: constrói clichês de gênero para, em seguida, desmontá-los. Shindō, por exemplo, é descrita como uma mulher grande de “constituição firme, robusta”. Na interação com os bandidos, seu físico é criticado inúmeras vezes. “Mas que baranga!”, exclama um dos homens ao vê-la, num bom exemplo da linguagem informal que a tradução de Gustavo Katague mantém. Shōko, de sua parte, é uma jovem “bonita ao estilo antigo, como se tivesse escapado de uma obra de arte dos períodos Meiji ou Taishō”.
Quando a trama faz um salto temporal, as duas têm suas aparências invertidas. Fugindo do noivo gângster, se beneficiam das visões preconcebidas da sociedade: são vistas como marido e mulher, mas a autora faz questão de não definir o relacionamento que mantêm. Otani se aproxima de autoras contemporâneas como Sayaka Murata, de Querida konbini (Estação Liberdade, 2022), e Mieko Kawakami, de Peito e ovos (Intrínseca, 2023), que fazem da literatura um espaço de denúncia. Como nos romances das conterrâneas, expõe a misoginia e também a enorme pressão de responder às expectativas ainda presentes na vida das japonesas. Revela, assim, a hipocrisia dos papéis de fachada.
Editoria com apoio Japan House São Paulo
Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.
Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “Pancadaria feminista”