Autobibliografia,
Intérprete do Brasil
O futebol está para Nelson Rodrigues como a sociologia para Sérgio Buarque de Holanda e a antropologia para Roberto DaMatta
18jun2026O Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética.
É assim nesta Copa do Mundo. Já era assim em 1958, quando Nelson Rodrigues escreveu a frase que abre este texto, em sua última crônica antes da estreia da Seleção Brasileira na Copa da Suécia — que terminaria na primeira das cinco estrelas da Amarelinha.
Só fui ler essas palavras em 1994, na então recém-lançada coletânea À sombra das chuteiras imortais, reunindo setenta de suas crônicas filosófico-esportivas.
Naquele tempo, a pátria de chuteiras tropeçava novamente. A classificação para a Copa dos EUA demorou até o último jogo das eliminatórias. Ninguém apostava um cruzeiro real no time, mesmo porque o futebol ainda não havia sido abduzido pelas bets.
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Quando o técnico se curvou ao óbvio ululante, escalando Romário ao lado de Bebeto, o brasileiro — que, diante da seca desde o tricampeonato de 1970, não se considerava o melhor nem no cuspe à distância — voltou a perder a vergonha de sua condição nacional.
Àquela altura do campeonato, Nelson já estava no mesmo plano astral do Sobrenatural de Almeida.
Mas seu conceito de “complexo de vira-latas”, de resto tão fundamental para explicar o país quanto o “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda ou o “Sabe com quem está falando?” de Roberto DaMatta, continuava atual.
E segue atualíssimo ainda hoje, provavelmente sempre.
Ele apresentou a ideia na Manchete Esportiva, em 31 de maio de 1958. “Por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”, sentenciou. “Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol.”
(O maior dramaturgo do país dedicar tantas páginas ao esporte é privilégio nosso, muito nosso. Como se Tennessee Williams ou Samuel Beckett tivessem escrito dezenas de cenas e atos para decifrar a humanidade a partir do campo de futebol.)
Como flamenguista que sou, modéstia à parte, faço esforços para separar vida e obra de Nelson Rodrigues, pó de arroz nato e hereditário. Deixo de lado suas falhas demasiado humanas, fluminenses, ao abrir seus livros.
Todo mês, o leitor Fernando Luna (@fluna) faz um exposed de seu relacionamento íntimo com um livro.
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