Listão da Semana,

Beckett fundamental

Nos 120 anos de nascimento do dramaturgo irlandês, sua peça clássica do Teatro do Absurdo expõe a condição humana em um cenário de ruína e espera

10jun2026

Nascido há 120 anos, o dramaturgo irlandês continua atual e necessário. Tema da edição de junho da revista Quatro Cinco Um, Samuel Beckett também chega às livrarias nesta semana com nova edição de uma suas peças mais celebradas, Fim de partida.

Também na seleção de lançamentos: Haruki Murakami e seu romance A cidade e suas muralhas incertas; A indústria do holocausto, de Norman Finkelstein; uma autoficção sobre amar os livros que não lemos, de Felipe Charbel; um ensaio sobre a primeira transexual do Brasil, uma africana escravizada, por Luiz Mott; Noitada, o novo romance de Reinaldo Moraes; e mais novidades quentinhas.

Veja os lançamentos de semanas anteriores.


Fim de partida. Samuel Beckett.
Trad. Fabio de Souza Andrade // Companhia das Letras // 160 pp // R$ 94,90

Concebida entre 1954 e 1956 pelo dramaturgo irlandês (1906-1989) e Nobel de Literatura, é considerada sua peça favorita e obra central do Teatro do Absurdo. A condição desumana do homem é escancarada num abrigo pós-apocalíptico, onde convivem Clov, servo de Hamm, este cego e paralítico, e os pais de Hamm, Nagg e Nell, que, mutilados, sobrevivem em latões de lixo. Em uma atmosfera pós-guerra, as personagens esperam pelo fim derradeiro.

“Tudo parece estar encalacrado, travado, sem saída, seja numa espera interminável, seja na confiança fatigada de que já não há mais nada a esperar. Por toda parte, a morte, como a vida, é a falta de sentido que dá sentido a ações automatizadas, esvaziadas, em que subjetividades nascem e se chocam perante um mundo em escombros”, escreveu Guilherme Gontijo Flores em resenha para a revista dos livros.

Leia a resenha na íntegra

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A cidade e suas muralhas incertas. Haruki Murakami.
Trad. Jefferson José Teixeira // Alfaguara // 504 pp // R$ 99,90

Antes de desaparecer, uma jovem revela ao namorado a existência de uma cidade misteriosa cercada por muralhas e povoada por unicórnios. Ele passa décadas em busca do lugar e, quando o encontra, percebe os limites entre os dois mundos se borrando. Publicada em 2023, a narrativa foi concebida pelo autor japonês, um dos maiores nomes da literatura contemporânea, nos anos 80 – quando lançou O Fim do Mundo e o impiedoso País das Maravilhas (Alfaguara, 2024), que também transita entre o real e o utópico.

“Nos romances de Haruki Murakami, os elementos fantásticos não são a essência. O núcleo é o ser humano e a sua inadequação ao mundo, à realidade que o cerca. Numa entrevista de 2003, o escritor diz: ‘Os protagonistas das minhas histórias são quase sempre essas pessoas que estão vivendo mais ou menos fora do eixo central da sociedade’. Nesse aspecto, repete o fundamento de diversos personagens da literatura (quase todos, talvez), desde Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, à Macabéa, de Clarice Lispector, passando pelo Meursault, de Albert Camus. Em A cidade e suas muralhas incertas, essa inadequação conduz os personagens a um mundo paralelo, reafirmando o que encontramos em outras histórias de Murakami: a realidade não basta”, escreve Oscar Nakasato em resenha para a Quatro Cinco Um.

Leia a resenha na íntegra

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A indústria do Holocausto: reflexões sobre a exploração do sofrimento judeu. Norman Finkelstein.
Trad. Red Yorkie // Autonomia Literária // 304 pp // R$ 99

O cientista político americano examina o lugar que o Holocausto ocupa na cultura global e argumenta que a memória do genocídio conquistou a relevância que possui hoje somente quando Israel se alinhou à política externa dos Estados Unidos durante a Guerra Árabe-Israelense, em 1967. O autor defende ainda que a indústria do Holocausto se tornou um “esquema de extorsão descarado”.

Norman Finkelstein participou d’A Feira do Livro 2026 , na mesa Holocausto e Palestina, em conversa com a jornalista Patrícia Campos Mello


Lacunas: sobre amar os livros que não lemos. Felipe Charbel.
Relicário // 128 pp // R$ 65,90

Escritor, ensaísta e professor da UFRJ, o autor de Janelas irreais: um diário de releituras (Relicário, 2018) e Saia da frente do meu sol (Autêntica Contemporânea, 2023) volta-se à autoficção, refletindo suas leituras ao longo da vida. Há dois eixos: o primeiro fala sobre os livros que não lemos; o segundo, sobre a morte de familiares e o luto.

N’A Feira do Livro 2026, Felipe Charbel conversou com Maria Valéria Rezende e Ana Paula Pacheco na mesa Os livros que não lemos

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Xica Manicongo: primeira transexual do Brasil. Luiz Mott.
Cosac // 240 pp // R$ 92

A partir de documentos históricos, o antropólogo e ativista, referência nos estudos sobre diversidade sexual, faz um resgate inédito da trajetória da africana escravizada. Nascida Francisco, Xica é a primeira pessoa trans documentada da história do Brasil e foi perseguida por desafiar as normas de gênero na Salvador de 1591.

Luiz Mott esteve n’A Feira do Livro 2026 em um encontro com Renan Quinalha, colunista da Quatro Cinco Um


Noitada. Reinaldo Moraes.
Todavia // 464 pp // R$ 119,90

O autor do celebrado Pornopopeia (Objetiva, 2009) narra o encontro de três personagens da elite progressista paulistana numa única noite em São Paulo: um escritor desonesto, sua ex-namorada e uma atriz jovem e rica. Com narração em primeira e terceira pessoa ao mesmo tempo, são reveladas as contradições dessas figuras e de toda uma classe social.

N’A Feira do Livro 2026, Reinaldo Moraes conversou com Ian Uviedo e Fernando Luna na mesa Noitadas artificiais

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+ novidades quentinhas

Derrocada. Tiago Ferro.
e-galáxia // 130 pp // R$ 41,90
O novo romance do escritor e editor, vencedor do Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura por O pai da menina morta (Todavia, 2018), acompanha um professor recém-divorciado que tenta reorganizar a própria vida.

Corpo Cidade. Renata Pedrosa.
Posf. Gustavo Motta // Annablume // 439 pp // R$ 120

A artista visual e professora da Unesp reúne mais de duas décadas de pesquisa em poéticas visuais interligadas com o espaço urbano.

Esboço de minha vida política: memórias. Wenceslau Braz.
Posf. Francisco Alambert // Chão // 224 pp // R$ 74

Memórias inéditas deixadas pelo nono presidente do Brasil, que governou entre 1914 e 1918, em que narra passagens de sua vida pública.

Miragens ao sul. Guilherme Pavarin.
Jabuticaba // 144 pp // R$ 40
O jornalista e mestre em literatura brasileira estreia na prosa com uma coletânea de onze contos que misturam narrativas realistas e fantásticas.

Paradiso. José Lezama Lima.
Trad. Josely Vianna Baptista // Pinard // 656 pp // R$ 149,90

Romance de formação semiautobiográfico do escritor cubano (1910-76), acompanha o protagonista José Cemí, marcado pela morte precoce do pai, a devoção da mãe, a filosofia, a poesia e as descobertas eróticas.

Colaboraram neste Listão: Gabriela Caputo, Jaqueline Silva e Maria Eduarda Oliveira

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).