Literatura brasileira,
Dona Rosinha, escritora e ativista quilombola, morre aos 67 anos
Autora de Memórias do meu quilombo, amadrinhada por Conceição Evaristo, foi convidada para A Feira do Livro 2026, onde conversaria com a escritora Bianca Santana
05jun2026Dona Rosinha, ativista quilombola e escritora, morreu na quinta (4), aos 67 anos. Autora de Memórias do meu quilombo (Pallas, 2025), vivia no Quilombo Santo Antônio, em Itabira (MG), onde foi presidente, por dois mandatos, da Associação do Quilombo e da Interassociação dos Amigos de Bairros de Itabira, além de ter feito parte da rede nacional de enfrentamento à violência contra mulheres e ter sido conselheira da sociedade civil de seu município por mais de doze anos.
A escritora foi convidada para A Feira do Livro e participaria de uma mesa no domingo (7) com a jornalista Bianca Santana. Dona Rosinha tinha cancelado sua participação, há alguns dias, devido a questões ligadas à saúde. No horário reservado para receber a autora, domingo, às 11h30, o festival literário paulistano fará uma homenagem a ela.
Batizada Rosemary de Souza Ferreira, ela nasceu em Belo Horizonte, em 29 de março de 1959. Muito cedo, perdeu a mãe e foi criada pela tia, Dona Tita, matriarca do Quilombo Santo Antônio. Em depoimento para o Centro de Documentação Eloi Ferreira da Silva (Cedefes), Dona Rosinha contou que inicialmente não queria morar no quilombo.
Segundo relata na entrevista, foi esse desconforto com a nova moradia que a levou para a escrita: “Tudo era motivo para eu escrever. Quando eu estava triste, escrevia. Quando estava feliz, também”.
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A escritora e ativista estudou até a oitava série do Ensino Fundamental. Ao longo da vida, trabalhou como faxineira, vendedora e balconista.
Descoberta literária
A estreia na literatura está ligada à escritora Conceição Evaristo, que visitou o quilombo em 2023. Dona Rosinha leu para a criadora do conceito de escrevivência um texto que tinha feito para seu filho. Evaristo viu um livro ali e se comprometeu a ajudar com a publicação. Tanto que a autora de Ponciá Vicêncio (2003) e Canções para ninar menino grande (2018) assina o prefácio de Memórias do meu quilombo.
Com o livro e o apoio do secretário de Formação, Livro e Leitura do Ministério da Cultura, Fabiano Piúba, Dona Rosinha se projetou no cenário literário nacional, tendo participado do Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira) em 2025.
No evento, ela falou de seu processo de criação: “Fui tirando dos cadernos amassados, com coisas de quarenta anos. Fiquei meio perdida, mas fui lembrando e escrevendo do jeito que vinha. A Conceição disse que era uma colcha de retalhos — e é mesmo”.
Sobre sua partida, Evaristo comentou: “Dona Rosinha se foi e nos deixa seu texto-vida. A sua boa prosa. O seu olhar, o seu sorriso, a sua alegria ao ver publicado seu primeiro livro. Ela estava plena; de letras, de escrita, de palavras, de vida. Hoje vivemos a descendência dela e, com certeza, como ancestral, ela será para quem fica uma estrela-guia.”
Viúva, Dona Rosinha deixou um filho e uma neta. O velório está marcado para sábado (6), a partir das 8h da manhã, na Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, e a partir das 14h30, na igreja de Santo Antônio, em Itabira, Minas Gerais. O enterro acontecerá às 16h30 no cemitério da cidade mineira.
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