Repertório 451 MHz,

Lugar de fala

Djamila Ribeiro apresenta a nova edição de seu livro que marcou o debate público no Brasil e comenta os desafios relacionados à publicação de autoras e autores negros

05jun2026

Está no ar o 199º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Este programa recebe a filósofa e escritora Djamila Ribeiro, que está lançando uma nova edição de seu livro Lugar de fala pela Rosa dos Tempos, selo do Grupo Editorial Record. A nova versão, que chega às livrarias quase dez anos depois da original, atualiza e amplia o debate sobre gênero, raça e classe no Brasil a partir do conceito de lugar de fala. 

Na conversa, Djamila Ribeiro fala dos equívocos em torno do uso da expressão, que se popularizou nos últimos anos. Ela ainda comenta os desafios para a publicação de autoras e autores negros, partindo da sua experiência como coordenadora da Coleção Feminismos Plurais, que também migra para a nova casa editorial. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet.

Além de escritora e filósofa, Djamila Ribeiro é professora. Desde 2025, dá aulas no MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos Estados Unidos, como convidada da cátedra Dr. Martin Luther King Jr. Entre seus livros mais conhecidos, estão a coletânea de artigos Quem tem medo do feminismo negro? (2018) e o best-seller Pequeno manual antirracista (2019), ambos publicados pela Companhia das Letras.

Na conversa, a autora de Lugar de fala conta que a nova edição tem quase quatro vezes o tamanho da original, que saiu em 2017 pela editora Letramento com o título O que é lugar de fala? — uma segunda edição, já chamada Lugar de fala, foi publicada em 2019 pela Jandaíra. 

A filósofa e escritora Djamila Ribeiro (Divulgação)

A nova versão, diz a filósofa, mantém, na primeira parte, praticamente toda a edição original, mas com atualizações como a inclusão de dados e do pensamento de mais autoras a respeito do conceito de lugar de fala. Já a segunda parte traz reflexões que envolvem, por exemplo, o jornalismo, a mídia hegemônica, o lugar da mulher e termos que surgiram nos últimos anos, como “pessoas que menstruam”.

“Estou fazendo um debate ampliando como que a gente pode pensar, ainda dentro do conceito de lugar de fala, tantas perspectivas”, diz a convidada. Além disso, a nova edição traz prefácio da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e apresentação da artista e pensadora portuguesa Grada Kilomba.

Equívocos

Ao comentar como a expressão “lugar de fala” ganhou popularidade no Brasil na última década, aparecendo até em programas de TV, Djamila Ribeiro diz que nem sempre o uso reflete o significado do conceito de lugar de fala. “Ainda é um conceito que muitas pessoas não compreenderam. As vezes, usam de maneira equivocada, mesmo quando gostam do conceito.” 

Um exemplo é a ideia de que uma pessoa tem ou não tem lugar de fala. A filósofa explica: “Todo mundo tem lugar de fala. Só que a gente vai falar do mesmo tema de um lugar diferente, o que já responde essa crítica de que o lugar de fala é um interdito. Não existe ‘cala boca, não é seu lugar de fala’, como as pessoas usam.”

Para a autora, a principal contribuição do conceito — que, ela faz questão de lembrar, não criou — é discutir as muitas formas de desigualdade a partir de realidade social, gênero ou cor da pele das pessoas. Ela, inclusive, critica a redução da discussão sobre racismo a uma questão do chamado identitarismo. “Eu nunca tratei o debate racial como um debate identitário. É um debate estrutural, né? A gente está falando de uma estrutura que, no nosso país, vai decidir quem tem oportunidades e quem não tem”, diz.

Mercado editorial

Djamila Ribeiro também fala no episódio sobre as dificuldades para a publicação de novas autoras e autores negros e sobre seu papel como criadora e coordenadora da  Coleção Feminismos Plurais, voltada a livros de não ficção. Ela revela que o projeto, que já publicou dezenas de autoras e autores negros desde sua criação em 2017, esteve perto de ser encerrado na época da pandemia de Covid-19. 

“Em 2023 eu estava praticamente num beco sem saída”, conta, lembrando do impacto da pandemia para livrarias e editoras independentes como a Jandaíra, que até então publicava a série. “Fiquei mantendo a coleção com recursos próprios, mas chegou um momento em que falei: não vai dar mais.”

Isso só não aconteceu, segundo Djamila Ribeiro, porque, ao adquirir os direitos da publicação, a editora-executiva do Grupo Editorial Record, Livia Vianna, compreendeu a importância da iniciativa e da manutenção da filósofa como coordenadora

Além de preservar a Feminismos Plurais, a mudança de editora permitiu a Djamila Ribeiro planejar novos livros para a coleção, que em breve vai ganhar volumes sobre saúde mental, direitos sexuais reprodutivos e transmasculinidade, conta a filósofa no episódio. Ela aproveitou a conversa para anunciar uma nova coleção, a Feminismos do Sul Global, dedicada a publicar pensadoras de diferentes países e contextos sociais.

Ausências

Ainda sobre a Coleção Feminismos Plurais, Djamila Ribeiro explica que, dos catorze títulos que estavam na editora Jandaíra, onze vão migrar para a Rosa dos Tempos, da Record. Um dos ausentes é Racismo estrutural, de Silvio Almeida. Questionada se as denúncias de assédio sexual envolvendo o ex-ministro por parte de mulheres como a também ex-ministra Anielle Franco tiveram impacto na decisão, a filósofa diz que Almeida já negociava uma publicação do livro pela Record e a própria editora suspendeu as conversas.

“Para mim foi uma situação muito lamentável”, diz ela sobre o caso, ainda mais por envolver dois ministros negros, “uma coisa tão rara de a gente ter”. Para a filósofa, é preciso deixar a Justiça fazer sua parte. “Até pela gravidade do que aconteceu com o Silvio”, diz, “a gente tem que esperar as coisas se encaminharem”.

Mais na Quatro Cinco Um

A coletânea Quem tem medo do feminismo negro?, de Djamila Ribeiro, foi tema da resenha de Yara Frateschi publicada em 2018 na revista dos livros. Leia aqui.

Pequeno manual antirracista foi resenhado por Jefferson Barbosa em 2020. “Não é um livro só para negros — é uma leitura obrigatória para a raça branca, pois informa de modo nítido e objetivo sobre a nossa condição enquanto negros brasileiros e enquanto sociedade”, escreveu. Leia na íntegra.

No mesmo ano, a própria autora resenhou a biografia Simone de Beauvoir: uma vida, de Kate Kirkpatrick. “A biógrafa conta os detalhes íntimos de Beauvoir sem a malícia dos seus detratores” e “foge da desumanização que a própria Beauvoir criticou”, observou. Leia mais. 

O melhor da literatura LGBTQIA+

O episódio também traz uma dica da historiadora Julia Kumpera, autora de Na noite lésbica: o levante do Ferro’s Bar, recém-publicado pela Autêntica. Ela indica o livro A insubmissa (Bazar do Tempo, 2025), de Cristina Peri Rossi, que saiu no Brasil com tradução de Anita Rivera Guerra. 

“Esse é um romance autobiográfico em que a gente acompanha os anos da infância e da juventude da Cristina. Primeiro a gente vê uma menina curiosa com o seu entorno, a zona rural uruguaia, as relações familiares, os livros, e a gente vai acompanhando ela se tornando uma jovem mulher, à medida também que o interesse pela escrita vai aumentando”, diz. 

Leia mais dicas da seção O Melhor da Literatura LGBTQIA+.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura –  Lei Rouanet
Para falar com a equipe: [email protected]