Ministério da Cultura apresenta
O nigeriano Chukwuebuka Ibeh e o capixaba Stefano Volp (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Stefano Volp e Chukwuebuka Ibeh escrevem para não se esconder

Público lotou auditório para ouvir autores queer conversarem sobre o papel da escrita na descoberta da sexualidade e contra a homofobia

31maio2026 • Atualizado em: 07jun2026

O público lotou o Auditório do Museu do Futebol na tarde deste domingo (31) para ouvir o nigeriano Chukwuebuka Ibeh e o capixaba Stefano Volp discutirem a escrita como instrumento para lidar com a descoberta da sexualidade e a violência da homofobia. 

“Quando comecei a escrever, com dezoito anos, queria muito me esconder. E esse desejo não está aqui por acaso. Enquanto pessoas queer, a gente precisa se esconder o tempo inteiro, no momento em que está se descobrindo, descobrindo a sexualidade, porque o mundo é muito cruel”, afirmou Volp na mesa A perda da inocência, que teve mediação do editor da Quatro Cinco Um Amauri Arrais e tradução simultânea de Ramon de Barros e Lucien Beraha.

Em Santo de casa (Record, 2025), o escritor radicado no Rio de Janeiro alterna a narrativa entre as vozes e perspectivas de três irmãos reunidos após a morte do pai. Durante o luto, mergulham em traumas como violência doméstica e dominação masculina. “Convivi com violência doméstica durante muitos anos em casa”, lembrou Volp. 

O capixaba Stefano Volp (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“Sempre achava que ia ter uma hora em que eu ia escrever sobre isso, ao mesmo tempo que não me sentia preparado. Escrever ficção já expõe a gente demais, é um desnudar muito grande. Autoficção é mais difícil ainda.”

Já Ibeh revelou ser um fã de autoficção, mas confessou que é mais honesto na ficção, porque sentiria a tentação de esconder coisas para proteger a si mesmo ou pessoas próximas. “Pego experiências da vida real, mas, quando traduzo para a ficção, mudo muita coisa. Minha vida real é bem desinteressante. Se eu fosse escrever sobre mim mesmo, não haveria tanta gente aqui”, brincou.

Nigéria

O nigeriano publicou Bênçãos (Tusquets, trad. Petê Rissatti) originalmente em 2024, quando tinha apenas 24 anos. O romance, lançado em 2025 no Brasil, narra os percalços de Obiefuna descobrindo sua sexualidade em um país que, em 2013, criminalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. 

“Não que antes da lei os nigerianos tivessem a mente aberta, mas a aprovação deu legitimidade para ficarem mais ousados nos ataques contra pessoas LGBT”, disse Ibeh, que à época estudava em um colégio interno.

“Quando dizem que a homossexualidade não está na nossa cultura ou não é parte dos nossos valores, respondo meio sarcástico que a corrupção também não é parte dos nossos valores e isso não impede nossos políticos. E o que é um valor? O que é cultura? A cultura não é estática, as pessoas fazem a cultura”, afirmou Ibeh, criticando os argumentos usados.

“Falam na Nigéria que são gays porque foram para a América ou porque foram expostos a valores americanos”, prosseguiu. “Penso nessa criança crescendo em Port Harcourt [onde ele nasceu]: não assiste TV, nunca deixou a cidade, não consome a mídia ocidental e ainda é bem gay. Como? O mosquito veio da América até a Nigéria e picou a criança? Seria um comentário engraçado, se não fosse tão perigoso. Porque essas pessoas genuinamente acreditam que existe um jeito africano de se comportar”, criticou.

Boas intenções

O autor de Bênçãos contou que buscou se afastar de maniqueísmos ao retratar a relação do pai repressivo que tenta a todo custo “consertar” o filho gay. “Da perspectiva do filho e da nossa, é algo ruim, mas, da perspectiva do pai e da sociedade de onde ele vem, é algo bom. Ele realmente acredita que, ao não querer que o filho seja gay, estaria ajudando-o de alguma forma”, conta Ibeh. 

“Era importante para mim mostrar que enquanto ele faz algo repulsivo, vem de um bom lugar, ao menos na cabeça dele. Tentei mostrar que, às vezes, as melhores intenções não dão necessariamente bons resultados.”

Ibeh atraiu a atenção de uma famosa conterrânea, Chimamanda Ngozi Adichie, depois de participar de um workshop com a autora de Americanah, em 2018. “Ela é uma escritora que eu lia desde muito jovem. Amo as histórias dela, porque ela escreve sobre um lugar que posso reconhecer, numa linguagem que posso reconhecer”, recordou ele. “Estar naquele espaço com ela foi uma espécie de permissão para eu ser capaz de contar minhas próprias histórias.”

O nigeriano Chukwuebuka Ibeh (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“Na Nigéria, há o sentimento de que ler literatura é um luxo”, comentou Ibeh. “Seus pais querem que você leia os livros didáticos. Se você ler um romance, está desperdiçando seu tempo, porque você deveria estar estudando matemática.”

A religião também deu as caras na conversa. Volp, que vem de uma família evangélica, lembrou como o impressionava na infância ver as mulheres da família e da comunidade orando para os homens se libertarem da violência doméstica. “Está todo mundo apanhando em casa, as pessoas estão orando para Deus para, quem sabe, ele libertar, ele resolver.”

A família de Ibeh era católica e alguns membros migraram para vertentes neopentecostais. “Eu cresci na religião, pensava que ia ser padre; olhem para mim agora”, disse, arrancando risos do público.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Magalhães

Jornalista e mestrando em literatura brasileira na USP.

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.