Crítica Cultural,
Nasce o intelectual neutrox
Filha do doisladismo com a desmobilização política, a nova cria do liberal curupira promove a universidade sem partido
29maio2026 | Edição #107O intelectual neutrox é a nova cria do liberal curupira, aquele que despista a saída pela direita deixando pegadas em direção ao centro. Desta vez, a turma do pé virado caprichou: num manifesto desmobilizador, primor de oxímoro, apela à abstenção das universidades de posicionamentos políticos coletivos.
O professor que achar por bem intervir no debate público, que o faça por conta e risco: nos campi, deve prevalecer o cada um por si e o ninguém por todos. Filho da uberização da opinião com o reacionarismo esclarecido, o intelectual neutrox veio ao mundo no clima temperado do Centro Distante: nem quente, nem frio. Nasceu limpinho, sem berrar. Não bate em Chico nem em Francisco. Não é de direita nem de esquerda. Muito pelo contrário.
Lavrado a muitas mãos num seminário no Centro MariAntonia, da USP, e disponível on-line desde o início de maio, o “Manifesto pelo pluralismo e liberdade acadêmica” é a certidão de nascimento do intelectual neutrox. Tem um pé na universidade e olhos, ouvidos e cabeça na chusma de cliques que se irradia da combinação da mídia tradicional com o alcance das redes. No dicionário do intelectual neutrox, engajamento só pode ser sinônimo de like.
Fiel à tradição do indignado a favor, solidário à sofrência do opressor e à malaise dos bem postos, o intelectual neutrox está farto dos maus modos no campus. Afinal, de um tempo para cá não se pode mais impor um currículo em paz, incensar Estados genocidas com perfume diplomático ou simplesmente acolher discursos golpistas e discriminatórios.
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Nascido para pedir desculpas às porções da sociedade que se agarram com unhas e dentes a todo tipo de privilégio, o intelectual neutrox reimagina a universidade a partir de três pontos, vagos o suficiente para angariar apoio irrefletido: neutralidade institucional, liberdade acadêmica e pluralismo. Bem-vindes à universidade sem partido.
O universo em desencanto do intelectual neutrox tem a polarização por base e o pânico do cancelamento por fim. É descrito por uma fórmula narrativa esquálida, combinando episódios de conflitos disfuncionais que, descontextualizados com sutileza, apresentam ao distinto público a universidade como uma arena de pura intolerância e radicalismo porra-louca.
Um colunista registrou, com gravidade, a publicação do manifesto que ele próprio ajudou a escrever
Apesar de invocar metodologias imparciais, cientificidade a-histórica, unicórnios e outros valores e seres do Centro Distante, na hora agá o intelectual neutrox prefere uma boa pesquisinha da opinião. Afinal, para gerar a indignação seletiva contra “azesquerda”, bastam os números resultantes do conúbio amoroso entre um think tank que promove o pluralismo com fins lucrativos e uma fábrica de estatísticas que se quer intérprete do Brasil.
Como em toda sondagem desse tipo, o resultado é menos objeto de debate do que diagnóstico, constatação de um problema em busca de solução. Se a maioria dos entrevistados entende que as universidades públicas não são “confiáveis” por promoverem “mais ideologia do que ensino de qualidade”, há que atendê-los — seja lá o que isso quer dizer. No pluralismo de mercado, como em qualquer quitanda, o freguês tem sempre razão.
O nascimento do intelectual neutrox foi acolhido com entusiasmo e sem ressalvas pela imprensa profissional. Num dos principais jornais, deu-se inclusive um espantoso fenômeno: um colunista registrou, com gravidade, a publicação do manifesto que ele próprio ajudou a escrever sem informar ao leitor sobre sua participação e tampouco declarou seu vínculo institucional a uma das pesquisas citadas pelo documento. Dois dias depois de publicada a coluna, que atualiza as noções de transparência, um editorial do mesmo veículo reiterava a importância do “movimento”.
Em outra publicação, outro colunista, também signatário que não ousa dizer seu nome, comentou o manifesto como um clamor da sociedade. Além de provocar o infalível editorial, a coluna serviu de pauta para uma reportagem que narra, na toada sensacionalista esperada, episódios da ação implacável dos canceladores malvadões contra os docentes de boa vontade.
É compreensível que determinados setores da imprensa celebrem o advento do intelectual neutrox. A lógica do doisladismo que ele encarna é a lógica de um mercado de opinião feito para acomodar valores e posições que, no limite da legalidade e da decência, contemplem um público o mais amplo possível. Unindo o agradável ao útil, promover o manifesto também alimenta o cio da cadela privatista, que ronda a universidade pública, alvo prioritário do intelectual neutrox.
A principal reação organizada ao manifesto neutrox não encontrou a mesma hospitalidade no noticiário e nas colunas de opinião e editoriais — afinal, as regras do doisladismo também têm dois lados.
“Em defesa do pluralismo encarnado: contra-manifesto pela igualdade democrática nas Universidades” até pode se ressentir da forma, excessivamente conceitual para um texto de intervenção imediata. Mas a repercussão modesta se explica melhor pela inadequação congênita de seu posicionamento à ampla e generosa campanha de desmobilização política.
Quase um mês depois de ir ao ar — e até o fechamento desta coluna —, o “Manifesto pelo pluralismo e liberdade acadêmica” reuniu pouco mais de 1 500 signatários. Dentre eles, 627 se declararam docentes, o equivalente a 0,16 % dos 374.501 professores universitários em atividade no país em 2024, data do último Censo da Educação Superior, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira, o Inep. No Brasil real, só se fala em outra coisa.
Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “Nasce o intelectual neutrox”
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