Ronaldo corre para abraçar Cafu depois do gol da vitória do Brasil na semifinal da Copa de 2002, no Japão (Antonio Scorza/AFP/Getty Images)

Crônica de Futebol,

Antes da Copa, depois da Copa

Se é verdade que o futebol é um retorno à infância, em grande parte da vida venho buscando os abraços inexplicáveis e a gratuidade da festa

01jun2026 • Atualizado em: 04jun2026 | Edição #106

Cresci no interior de São Paulo, na encalorada cidade de Ribeirão Preto. Éramos mais de dez primos, e os domingos tinham um gosto inconfundível de catolicismo e macarronada. O roteiro se repetia semanalmente: capela Estigmatinos, almoço na casa da vó.

Da igrejinha, lembro sobretudo do pátio em forma de rotatória, dos bancos de madeira maciça e da infindável duração da missa. Ali, aprendi que uma hora nem sempre tem sessenta minutos. Quem dera. Passavam dias, anos, séculos, e nem sinal dos salmos acabarem. Credo!

Mas nem tudo era suplício.

Na reta final da cerimônia, depois de bendições e aleluias, chegava enfim o momento glorioso, tão aguardado pela pequena Luiza: a paz de Cristo.

Nada me agradava tanto quanto sair pelos corredores da Estigmatinos abraçando toda e qualquer pessoa. Senhorinhas, seminaristas, marmanjos ou bebês de colo. Ninguém saía ileso ao meu abraço entusiasmado. Eu acreditava ser a própria pomba de Noé depois do dilúvio.

“A paz de Cristo”, eu proferia à família ao lado. “Que a paz esteja convosco”, respondia ao zelador da capela.

As tias falavam em Cafu como um parente importante. Os cunhados evocavam Roberto Carlos

Conta minha mãe que eu não aquietava até cumprimentar o mais tímido dos devotos. E, como o tempo compensa o marasmo dos salmos com a brevidade da alegria, a paz durava pouco. Não raro, o padre já ordenava a comunhão enquanto eu ainda distribuía meus santos afagos, avessa ao silêncio paroquial.

Assim, efusivos, passaram alguns anos. Até que minha mãe trocou a igreja pela psicanálise. Já eu precisei encontrar outro lugar para sair abraçando as pessoas sem constrangimento. Onde fui parar?

No futebol. Óbvio.

Às portas do novo santuário, ia conduzida pelas mãos do meu pai, que, diga-se de passagem, largou o seminário um ano antes de virar padre.

Ironias à parte, foi na multidão da torcida que tive minha verdadeira iniciação de fé e cheguei a tocar, algumas poucas vezes, a dimensão do milagre. De viradas impossíveis a derrotas apocalípticas, de árduas promessas às censuráveis urucubacas, as arquibancadas do estádio Santa Cruz possuíam a mesma trepidação dos bancos do Senhor. Uma massa de pernas e braços à espera da comunhão. Motivadas não mais pela paz, mas por outras três letrinhas, igualmente divinas: gol.

Como nos salmos, os morosos noventa minutos da partida eram enfrentados na expectativa de, quem sabe, converterem-se em abraços beatificados da vitória. Que poderiam vir num átimo de segundo, numa falha do goleiro, ou sumirem por rodadas e mais rodadas, deixando a mim e meus companheiros numa quarentena desértica.

Ah, os desígnios do futebol!

Partida de futebol no Estádio Santa Cruz, em Ribeirão Preto, no ano de 2009 (Reprodução)

Não foram uma nem duas, mas muitas as tardes de domingo em que passei colada ao campo, pronta para subir os degraus de cimento e comemorar com o primeiro ser humano de verde e branco que visse pela frente.

“Paz de Cristo”, quase me escapava da boca.

Já aos adversários, os abraços estavam interditados. Salvo numa ocasião específica: a Copa do Mundo. Diferente de Brasileirões e Paulistinhas, a Copa permitia excepcionalmente abraçar corintianos, santistas e são-paulinos. Aqueles que, em geral, só recebiam nossos impropérios e maledicências de repente se tornavam comparsas na paixão canarinha. A palavra rival sumia de campo. Formávamos um só bando com as bochechas pintadas de verde e amarelo.

Na casa da vó, também as picuinhas desapareciam e a dezena de primos ficava apinhada na frente da TV. Ninguém entendia muito bem o jogo. As tias falavam em Cafu como um parente importante. A cada duas frases, os cunhados evocavam Roberto Carlos. Meu irmão queria ser o Lúcio. Eu fazia votos a São Marcos. As explicações se apequenavam diante da beleza: os três Rs traduzidos em alegria, o mundo tão possível quanto o penta.

Quando arrematamos a taça, minha infância se dividiu em a.C. e d.C. Se é verdade que o futebol é um retorno à infância, como bem definiu Javier Marías, em grande parte da vida adulta venho buscando os abraços inexplicáveis, a gratuidade da festa coletiva, a paz pagã que só é possível quando um coração encosta em outro.

Em alguns dias, uma nova Copa começa. A seleção que nos representará é chocha. Jamais a população brasileira acreditou tão pouco na vitória. Talvez sintoma das superestrelas, talvez consequência do capitalismo esportivo avançado, talvez reflexo das sucessivas invasões e violações de direitos humanos de um dos países-sede. O mundo está desencantado. Mas, por nostalgia ou insistência, ainda boto fé no nosso abraço. 

Com a paz da Copa e a bênção da molecada: vai que é tua, Brasil!

Nota da redação
Esse texto faz parte da série Crônica de Futebol, que a Quatro Cinco Um publica no site da revista no mês da Copa do Mundo.

Quem escreveu esse texto

Luiza Romão

Poeta, atriz e slammer, está lançando o infantojuvenil Ontem vi meu pai chorar (Quelônio).

Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026. Com o título “Antes da Copa, depois da Copa”

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