Repertório 451 MHz,
Colecionadora de histórias
Natércia Pontes conta, na coluna Bruna Beber Entrevista, como a recolha de palavras, imagens e experiências deu origem a Vida doçura, seu novo romance
24abr2026 • Atualizado em: 27abr2026Está no ar o 193º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, a escritora Natércia Pontes conversa com Bruna Beber sobre Vida doçura (Companhia das Letras), seu novo romance, e seu processo de escrita. Ela conta que coleciona palavras, imagens e histórias para depois costurar, na narrativa, os elementos que despertam sua atenção.
A convidada revela que Vida doçura mistura ingredientes como a oposição entre as personagens principais — a escritora Jocasta e a youtuber Jovana —, o luto pela perda da mãe e o desejo de escrever um thriller, aos quais ela acrescentou outras experiências pessoais e a influência de roqueiros como Jeff Buckley e Kurt Cobain. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.
Romancista e contista, Natércia Pontes nasceu em Fortaleza. Estreou com o livro de contos independente Az mulerez (2004) e publicou em 2012, pela Cosac Naify, a coletânea de contos Copacabana dreams, relançada pela Companhia das Letras em 2024. Sua estreia no romance foi com Os tais caquinhos (Companhia das Letras, 2021). Ela é uma das convidadas d’A Feira do Livro 2026.
Escrita-colagem
A autora conta que constrói suas narrativas a partir de um processo de colagem, encaixando palavras recolhidas no dia a dia, imagens e outras influências. “Eu vou capturando notas no ar”, resume. “Aí anoto e mando um e-mail para mim mesma.”
Em Vida doçura, Natércia diz ter buscado inicialmente costurar a relação que concebeu entre as personagens Jocasta e Jovana, o sentimento pela morte da mãe, que aconteceu quando a autora tinha dezenove anos, e a vontade de escrever uma história com toques de suspense.
O processo de escrita-colagem, no entanto, levou à inclusão de muitos elementos. Entre eles, diálogos retirados de Persona, clássico do diretor sueco Ingmar Bergman, e trechos da biografia do bailarino russo Vaslav Nijinski.
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A técnica de recolher para depois montar — que caracteriza seu primeiro romance, Os tais caquinhos — deve resultar em pelo menos mais um. Segundo a escritora, ele será intitulado A bastarda magrinha e vai compor o que ela chama de Trilogia da Desordem. Ela revela que esse nome surgiu numa conversa com uma amiga, que lhe disse que sua escrita questiona “a ordem das coisas” e “o modus operandi de viver, a rotina.”
Roqueira frustrada
Natércia Pontes também fala sobre sua relação com a música, que aparece em trechos de Vida doçura e de Os tais caquinhos. Ela se define como uma “roqueira frustrada”, que escreve por não saber tocar instrumentos. Entre os artistas mencionados no novo romance, estão Kurt Cobain, da banda Nirvana, e Jeff Buckley, cuja canção “So real” (Tão real) inspirou um dos títulos que a personagem Jocasta cogita para o livro que está escrevendo.
No episódio, a escritora menciona ainda, entre suas referências, nomes como Cazuza, Legião Urbana e Letrux. Ela também cita bandas como Black Sabbath e Led Zeppelin, que começou a ouvir na infância por influência do pai, um compositor. “Eu botava o vinil pra tocar e ficava lendo [a letra de] ‘Stairway to Heaven’ [do Led Zeppelin]. Até hoje eu sei cantar, mesmo que com um inglês macarrônico”, brinca.
Vidas perfeitas
Entre os elementos que compõem Vida doçura, a cultura dos influenciadores da internet é retratada pela personagem Jovana, que compartilha sua vida de mãe e dona de casa no YouTube e fascina Jocasta. Natércia diz que se inspirou no universo das tradwives — mulheres que se identificam com o papel de esposa tradicional e com valores conservadores.
A escritora conta que, prestes a virar mãe, se viu ela mesma obcecada por vídeos de mulheres retratando famílias supostamente perfeitas e passou a refletir sobre o fenômeno. “Essas pessoas ganham seguidores por quê? Pelo mesmo motivo por que a gente assiste ao Big Brother ou vê o Instagram de alguém”, diz. “Você assiste aos outros performarem a vida, performarem cotidianos, performarem a própria existência.”
Livros e afins
Confira os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas durante a conversa:
- Vida doçura (Companhia das Letras, 2026), de Natércia Pontes
- Copacabana dreams (Companhia das Letras, 2024), de Natércia Pontes
- Os tais caquinhos (Companhia das Letras, 2021), de Natércia Pontes
- O primeiro homem mau (Companhia das Letras, 2015), de Miranda July
- Chapeuzinho Amarelo (Yellowfante, 2019), de Chico Buarque
- O triste fim do pequeno Menino Ostra e outras histórias (Seguinte, 2024), de Tim Burton
- Az mulerez (Edição independente, 2004), de Natércia Pontes
- “So real” (1994), canção de Jeff Buckley
- “Stairway to Heaven”(1971), canção do Led Zeppelin
- Persona (1966), filme de Ingmar Bergman
Mais na Quatro Cinco Um
Vida doçura foi resenhado na revista dos livros pela crítica literária Iara Pinheiro Machado. “A autora tem um estilo cru e visceral e uma predileção pelos fragmentos, que embaralha e encadeia de acordo com elos sonoros e sensoriais”, escreve. Leia na íntegra.
Ela também escreveu sobre Os tais caquinhos e lembra que o título do livro é parte da canção “Pra começar”, escrita por Antonio Cicero e interpretada por Marina Lima. É com versos da música que Natércia Pontes abre e fecha o romance, que Machado define como “uma estranha história sobre as descobertas da adolescência, os escapes do sofrimento e uma pouco ortodoxa cumplicidade familiar”. Leia na íntegra.
O melhor da literatura LGBTQIA+
O episódio traz uma dica da editora e crítica literária Rita Palmeira, curadora da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano. Ela sugere Na casa dos sonhos, da americana Carmen Maria Machado, que saiu pela Companhia das Letras em 2021, em tradução de Ana Guadalupe.
“A Carmen Maria Machado conta a história de um relacionamento abusivo vivido por ela numa relação com outra mulher. É um livro desses que você não larga — muito pela construção da tensão, que é feita de um modo muito inteligente e habilidoso; e também pela história, que impressiona por essa violência contida numa relação entre duas mulheres”, diz.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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