Autobibliografia,
Uma outra IA
Não a inteligência artificial do Vale do Silício, mas a inteligência ancestral do vale do rio Doce, terra de Ailton Krenak
23abr2026 • Atualizado em: 27abr2026Ailton Krenak lançou suas Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras) entre dois episódios do apocalipse.
Fazia menos de um ano do rompimento da barragem de Brumadinho, quase um spin-off do rompimento da barragem de Mariana. E faltavam poucos meses para a pandemia se espalhar pelo planeta.
Não foi coincidência — o fim do mundo é dessas séries espichadas, com temporadas demais.
(Spoiler: você morre no final. Talvez antes. Eu também. Não sobra ninguém além do mundo, mundo, vasto mundo. Mas, controle seu otimismo: isso é só até o Sol consumir todo seu hidrogênio. Aí, babau Sistema Solar. The end.)
Não é de bom-tom, contudo, apressar o desfecho.
“Minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história”, explica. “Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim.”
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Krenak questiona a personagem principal: a humanidade, protagonista e antagonista do Antropoceno. “Somos uma humanidade?”, pergunta e, em seguida, desconstrói os termos da própria pergunta.
Como assim “uma”, no sentido de única? “Tem uma humanidade, vamos dizer, bacana”, aponta. “E tem uma camada mais bruta, rústica, orgânica, uma sub-humanidade, uma gente que fica agarrada na terra.”
E esse conceito de “humanidade” como algo separado da natureza? Nós, humanidade; eles, rio, bicho, planta, morro — o rebotalho. “Fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra”, lamenta.
Diante do colapso, só a IA salva.
Não a utopia tecnológica da inteligência artificial — que promete impedir a queda do céu e resolver os problemas do mundo, inclusive aqueles criados por ela mesma —, mas a inteligência ancestral dos povos originários.
Ninguém é tão safo em fim do mundo, afinal, quanto quem resiste ao extermínio há mais de quinhentos anos, formando “pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta, faz chover”.
“Se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral”, escreve, “vão ficar loucas nesse mundo maluco que compartilhamos.”
Plot twist: menos Vale do Silício, terra dos Grok, mais vale do rio Doce, território Krenak.
Todo mês, o leitor Fernando Luna (@fluna) faz um exposed de seu relacionamento íntimo com um livro.
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