O passado. O presente. O futuro (1834), litografia de Honoré Daumier satirizando o regime do rei Luís Filipe I

Crítica Cultural,

Uma guerra após a outra

Em Hipocritões e olhigarcas: passado e futuro das guerras culturais, Rui Tavares ajuda a entender o Brasil idealizado pela falsiane da isenção

16abr2026 • Atualizado em: 27abr2026 | Edição #105

Desde que o país cordial, do tapinha nas costas, virou a pátria do quebra-pau, a conversa pública entre nós é cada vez mais tortuosa. O acirramento geral dos ânimos, que começou na política eleitoral e, com a ascensão da extrema direita, se alastrou para todo canto, vem sendo mote para uma lereia interminável sobre degradação do debate, radicalização, sectarismo.

Importunados no bem-bom de suas especialidades, de sua classe social, raça e sobrenomes, intelectuais e analistas que juram de pés juntos abominar a direita acabam colaborando com ela ao assumir no mercado de ideias a persona do sabichão imparcial. No conforto de quem privilegia a reação indignada ao risco da proposta, ganham a vida apontando o dedinho para a “polarização”, o “identitarismo”, a “sinalização de virtude” e tantas outras batalhas subsidiárias daquilo que se fantasia ser uma “guerra cultural” puxada pelas esquerdas. 

Neste oceano de mediocridade e conformismo, Hipocritões e olhigarcas: passado e futuro das guerras culturais é uma espécie de bote salva-vidas. Em suas páginas, o contexto se sobrepõe ao anedotário, o substantivo dá a medida justa para os adjetivos, e o espírito crítico tem precedência sobre o oportunismo. Numa leitura de poucas horas, conduzida como um passeio entre séculos e temas, o livro de Rui Tavares lembra o quanto a crônica superficial das escaramuças da vida pública, hoje vendida e comprada como “análise”, é insuficiente para que se compreenda o que de fato está em jogo em meio a tediosas polêmicas sobre pronomes neutros ou à complacência bem-pensante com a delinquência de denominações religiosas. “Se nos recusarmos a entrar no labirinto da cultura, por mais que nos percamos nele”, escreve o ensaísta e homem público português, “não entenderemos a política.” 

O historiador português Rui Tavares (Nuno Ferreira Santos/Divulgação)

Para começo de conversa, Tavares toma distância de uma barafunda de clichês conservadores norte-americanos por aqui papagaiados sem critério ou pudor. Guerra cultural é, para ele, assunto sério demais para coexistir com “cancelamento”, “politicamente correto” ou “wokismo”, como no dicionário do reaça elegante. Trata-se, ao contrário, de evento ou fenômeno complexo que, surgido em momento de “polarização extrema da sociedade”, se funda em “identidades, valores e narrativas” e mobiliza “grande intensidade emocional”. 

Para que não tropecemos em palavras: “narrativa” tem, aqui, sentido diverso de cascata política, e “identidade” jamais se confunde com o pertencimento intransigente e caricato a um marcador qualquer. “Polarização”, por sua vez, se distingue do imobilismo alardeado pelos cientistas sociais de wikipédia, indicando antes uma dinâmica tensa entre tomadas de posição diametralmente conflitantes, que, em momentos agudos, inviabiliza pretensões à neutralidade ou indiferença. 

Guerra cultural é, para Tavares, assunto sério demais para coexistir com ‘cancelamento’ ou ‘wokismo’

O terremoto que arrasou Lisboa em 1º de novembro de 1755 seria, por exemplo, o ponto de partida de um desses enfrentamentos extremados de ideias, visões de mundo e valores. A hipótese, dominante em seu tempo, de que Portugal estaria sendo alvo da ira divina, castigado em seus pecados, se mostrava tão atraente quanto outra, no sentido oposto, que buscava compreender o fenômeno aterrorizante como resultado de movimentos tectônicos ainda desconhecidos. 

Em prevalecendo a hipótese não religiosa, impulsionada por sucessivas leituras do tratado sobre a natureza De rerum natura, de Lucrécio, a sociedade europeia tinha que se haver com outro probleminha: “se Deus não desencadeia terramotos para castigar as pessoas, então se calhar Deus também não pôs os reis e as rainhas nos tronos”. 

A discussão, que envolve poder, mistificação, teologia e pensamento científico, passa por tudo isso e vai além. O que se fermenta aí, entre os “filhos do terramoto” — em que se destacam os destinos díspares de Maria Antonieta e Alexander Hamilton, um dos “pais fundadores” dos EUA —, são valores caros ao Iluminismo, numa conflituada e inexorável confluência entre as noções de razão e liberdade. A depuração dessas ideias, disputadas em diversos fronts, resultaria tanto nas formulações teóricas de Kant quanto nas guilhotinas da França revolucionária. 

Nem sempre a guerra cultural é consequência de uma guerra “material”. Às vezes, adverte Tavares, é exatamente o contrário. Dois séculos antes, a difusão das “95 teses” de Martinho Lutero ganharia praças, ruas e casas graças a um prodígio tipográfico: impressas numa só folha, como uma espécie de cartaz, seriam afixadas em paredes e muros, disseminando entre cidadãos comuns as ideias essenciais da reforma protestante. 

Recuo na história

Entre 1894 e 1906, a França se dividiu entre detratores e apoiadores de Alfred Dreyfus, capitão do exército proscrito e preso por espionagem e traição à pátria. Analisado por Tavares sob outro ângulo em Agora, agora e mais agora (Tinta-da-China Brasil, 2024), o affaire Dreyfus é didático de como funcionam as guerras culturais, conflagrando tribunais, jornais e jantares de família com o debate em torno de uma acusação que se mostraria fraudada e traía um clamoroso caso de antissemitismo.

O recuo na história, fundamental, calibra o olhar sobre as variadas guerras culturais contemporâneas, todas travadas à sombra de hipocritões e olhigarcas. Se não há dúvidas sobre quem são aqueles, onipresentes e autoexplicativos, estes nascem de um neologismo para designar quem vive de “empurrar-nos o que lhes dá mais jeito pelos olhos dentro, e depois venderem os nossos olhos ao melhor comprador”.

“Feitos de algoritmos de vigilância e mil câmaras espalhadas pelo corpo”, os olhigarcas mobilizam “tentáculos de influência que se estendem por todas as áreas da sociedade, ocupados em adubar uma paisagem infinita de globos oculares passivos — nós”. Parece distopia, mas é realismo, a descrição das big techs e sua especial competência em maximizar um dos elementos estruturantes das guerras culturais: a “intensidade emocional”.

Os combates simbólicos mais bem-sucedidos são hoje orquestrados pelo campo conservador

Foi essa a chave que o Brasil virou em 2013. De lá para cá, a direita extremista ascendeu não apenas pela conquista de territórios ou votos, mas pela ofensiva de uma guerra cultural em sua acepção mais complexa. Em geral associados às esquerdas, pelo menos nas manifestações mais estridentes e no sentido pejorativo, os combates simbólicos mais bem-sucedidos são hoje orquestrados pelo campo conservador. É a partir dele que se trava a mãe de todas as batalhas, a demonização de movimentos emancipatórios que um dia foi encarnada, com considerável sucesso, pelo “fantasma do comunismo”.

A depender do ambiente e do público, os malvadões comedores de criancinha, hoje risíveis, reencarnam como “petralhas”, “esquerdopatas”, “a esquerda” ou simplesmente “o petê”. Essa nova vida de velhas ideias só é possível com a colaboração, por empenho ou omissão, daqueles que, na órbita do Centro Distante, tentam se manter como árbitros do debate público: jornalistas isentos, comentaristas forjados no doisladismo, intelectuais desengajados, contorcionistas conceituais, mascates da Terceira Via, editores de PowerPoint e outras criaturas do fabulário liberal à brasileira.

Sem nuance

Na frente extremista de direita, a nuance não tem vez. Vistosa cabeleira acaju, o gângster neopentecostal, num transe oportunista, prega em defesa da família tradicional. Brandindo um fetinho de plástico, o valoroso representante do Centrão, entusiasta da pena de morte, gasta seu tempo e nosso dinheiro advogando contra o aborto e pela vida. Convertido em ativista da liberdade de expressão, o influencer red pill luta para resguardar o direito de ensinar ao adolescente o lugar da mulher na fila do pão. Força, guerreiros!

Mas o movimento estratégico decisivo da guerra cultural que se trava hoje no Brasil não está, insisto, na brutalidade onipresente e tampouco nas previsíveis e necessárias reações a ela. Entre o sincerão do ódio e o esquerdopata, a personagem mais atuante deste cenário é a falsiane da isenção, símbolo de todas e todos que trabalham pela desqualificação contínua e quase sempre sutil do dissenso progressista em nome de Em nome de quê mesmo?

Uma ciclópica pesquisa de mercado, financiada pela mais tradicional olhigarquia brasileira para reconfigurar seu alcance nas velhas mídias e turbinar seus lucros nas “novas”, tem sido tomada como irrefutável no diagnóstico de um país retrógrado, sobretudo nos costumes. O resultado, óbvio, de Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros (Globo Livros, 2025), de Felipe Nunes, é usado de forma perversa: esse Brasil, de tantas formas apegado ao atraso, não precisa ser rediscutido em suas bases, contestado por suas práticas ou reeducado, mas atendido como clientela.

A partir dos números, tomados como evidências inquestionáveis, dá-se a pirueta retórica do sociologismo: vivemos assomados por uma “polarização afetiva”, encalacrados numa “calcificação” de posições. As saídas para essa espécie de fatalismo são variadas, todas levando a uma mesma porta estreita, que só se atravessa de cabeça baixa: atenuar reivindicações, contornar enfrentamentos, abandonar rupturas, acolher o ressentimento, transigir com a intransigência. 

O corolário desse raciocínio é a descredibilização de todo e qualquer discurso ou prática associado às esquerdas — à eventual insistência da esquerda em se comportar como esquerda. Fica a dica, à meia-voz, desses soldados disfarçados de paisanos: ceder, ceder e ceder. 

Para as falsianes da isenção, acabar com a divisão do Brasil não é assim tão difícil. Basta perenizar a vida precária na escala 6×1, conter numa margem aceitável a representatividade de pessoas trans, defender os meninos dos excessos do feminismo, corrigir hipérboles retóricas como “misoginia” e “feminicídio”, trabalhar por uma “diversidade” ideológica nas universidades, trabalhar para limitar as cotas, na universidade em particular e na sociedade em geral, e para limitar as políticas de reparação racial, desidratar o que ainda resta de esquerda nas esquerdas. Uma guerra após a outra.

Nota da redação
A Tinta-da-China Brasil é o selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, que publica a revista dos livros.

CORREÇÃO > Uma versão anterior deste texto foi publicada sem a nota da redação acima. A praxe da revista dos livros é sempre a transparência e pedimos desculpas aos leitores e ao autor do texto.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “Uma guerra após a outra”

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