O escritor nascido no Egito e radicado no México Fabio Morábito (Alejandro Arras/Reprodução)

Literatura,

Idiomas, fantasias e Kafka

Filho de italianos, o mexicano Fabio Morábito propõe formas de ver o mundo através da memória e da releitura

13abr2026

É preciso de algum zigue-zague para falar de O idioma materno, de Fabio Morábito. A começar pela nacionalidade do autor, que nos leva a refletir sobre a escolha do título: filho de pais italianos, nasceu no Egito e aos quinze anos foi radicado no México. Em meio às línguas como opção para sua escrita literária, preferiu o espanhol. O que ele chama, então, de “idioma materno”? Seria algo totalmente distinto do chamado “idioma literário”? Segundo nos informa um dos textos da coletânea, o “idioma materno” se aproxima de um encosto, o fantasma sempre à espreita. Em outras palavras, “um osso duro de roer”:

Quando achamos que finalmente nos libertamos de suas palavras, suas expressões idiomáticas, suas gírias intraduzíveis para outros idiomas, e que depois de tantos anos falando, sonhando, amando e xingando em outra língua, nos emancipamos de suas amarras, acontece que, assim como aquelas calcificações de organismos marinhos que aderem ao corpo das baleias e parecem enormes cistos, o antigo idioma não desapareceu, apenas recuou para certas áreas.

Publicado originalmente em 2014, o livro monta uma espécie de rota de transação entre os idiomas da vida do escritor. Ele se comunica num idioma, afinal, enquanto sente as dores e as comichões em outro, há tanto perdido. 

Mesmo com as primeiras explicações colocadas sobre a mesa, continuamos em zigue-zague. Qual gênero melhor classifica os textos reunidos em O idioma materno

A ficha catalográfica informa que se trata de um “livro de contos”. Mas, pensando nas definições clássicas, ela não dá conta do que temos em mãos. Para considerar Morábito um contista, o leitor deveria desconstruir a tradição do gênero conto, que é garantida, na língua inglesa, pelo adjetivo “short” — deveria só lançar mão do substantivo “story”. É que o autor não escreve contos tradicionais. Escreve histórias, casos e, em alguns momentos, chega a flertar com o universo das fábulas, por seus personagens saírem em busca de uma moral, ainda que enviesada, mas ainda assim uma moral. 

Coquetel

Os textos — quase duas centenas — aqui reunidos parecem ensaios de bolso, com o autor anunciando temas e problemas e os perseguindo por todos os lados, sem necessariamente solucionar coisa alguma no final. Seja lá o gênero que temos à nossa frente, O idioma materno é um livro muito original. E é sobre mais do que literatura por si só; é também sobre a fantasia na cabeça de quem a ergue e resolve o mundo a partir da escrita. Talvez o gênero que melhor classifique o livro seja o de fantasias de escritor.

Para escrevê-las, Morábito se vale de memórias daquela fase cinzenta entre infância e adolescência, quando as iluminações e os traumas se confundem com intensidade, colidem como navios e icebergs. Numa dessas fantasias, lembra as férias que passou com a família, aos catorze anos, num hotel em Acapulco. Durante a viagem, examinou o folheto do estabelecimento e deu de cara com a expressão “coquetel de boas-vindas”. As palavras juntas na folha de papel, a sensação de fazer por merecer “um coquetel de boas-vindas”, o alívio por estar longe de casa, ou talvez tudo isso junto, fizeram sua fantasia disparar:

Na verdade, supus que no salão com vista para o mar acontecia um coquetel contínuo e que, quando chegássemos, seríamos anunciados às pessoas ali reunidas, que fariam um cerco festivo à nossa volta, erguendo copos e fazendo mil perguntas para nós. 

Mas um “coquetel de boas-vindas” era apenas o que as palavras queriam dizer, de forma concreta, sem qualquer adereço:

Um drink solitário à nossa espera no quarto, um trago triste que bebemos à beira da piscina ao lado de outros hóspedes tomando sol entediados e que, como nós, no fundo esperavam outra coisa.

E o trabalho do escritor é justamente colocar adereços em promessas escritas, em transformar drinks de baixo orçamento em recepções dignas da chegada na Ilha do Amor, onde tudo e nada nos esperam há tempos.

Para escrever suas fantasias, Morábito se vale de memórias entre infância e adolescência

Em outro texto, chamado “Roubar”, Morábito conta que, aos treze anos, surrupiava pequenas quantias dos pais e fugia para o cinema. Nem pensava nos filmes a que assistiria. Muito menos guardaria lembranças de qualquer um deles. Apenas roubava para viver a fantasia de escapar; queria ter um lugar diferente para ir, já que a casa familiar o sufocava. O roubo era como um motor para acionar a ficção:

Quando escrevemos com intensidade estamos na verdade roubando, afanando do bolso da linguagem as palavras necessárias para aquilo que queremos dizer, apenas aquelas palavras e mais nenhuma outra.

Castelo

Morábito também promove uma série de diálogos com outros autores. Entre eles, Homero e Dostoiévski. Com mais frequência, no entanto, “conversa” com Franz Kafka. É compreensível. Poucos sugerem tanto a ideia de uma fantasia de escritor quanto o autor de A metamorfose. O funcionário dedicado de uma empresa de seguros que mantinha uma relação turbulenta com o pai e que escreveu uma obra radical, que faz o mundo voltar a um tempo de ilogicidade, é uma das maiores fantasias literárias do Ocidente. Nem precisamos ler Kafka, ele está no meio de nós. 

O idioma materno é também sobre se colocar no lugar de alguém como Kafka. Um livro que quer saber como ele “funciona”; que quer olhar de perto as peças do seu mecanismo. Em “Kafka e o ciúme”, por exemplo, Morábito informa que o cerne do romance O castelo talvez não seja a interrupção como regra numa sociedade afundada em trâmites burocráticos o que faz o protagonista jamais acessar seu destino. Nem mesmo a espera infinita, a solidão e a culpa, como já explicou a teoria literária ao longo das décadas. Sobre essas chaves de leitura, já estamos mais do que cansados e avisados. Melhor talvez ler o romance como uma história de amor — ou no mínimo de uma forte atração sexual — entre o agrimensor K. e Frieda, a jovem garçonete. 

A leitura amorosa fica ainda mais interessante se pensarmos que O castelo fascina, em boa parte, por ter sido deixado sem final, inconcluso. Termina no meio de uma cena, no meio de uma frase. Ficamos assombrados, porque não sabemos o que aconteceria depois. A dúvida é justamente o que persegue os amantes, sempre em busca de um final feliz: “Nunca temos certeza do amor do outro porque nunca temos certeza de conhecê-lo, e sempre mendigamos indícios e sinais que nos permitam conquistar sua alma”.

O amante possivelmente frustrado, o jovem hóspede que se encanta com as promessas de um “coquetel de boas-vindas” em tristes resorts ensolarados e o ladrão que rouba para ir ao cinema — todos eles, juntos, parecem viver a situação do agrimensor kafkiano diante do castelo: a construção está ali, bem à frente, e, ainda assim, permanece inalcançável. Do nunca chegar parecem ser feitas as fantasias do escritor.

Quem escreveu esse texto

Schneider Carpeggiani

É editor, jornalista, doutor em teoria literária e curador.

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