A escritora russa Nina Berbérova (Ulf Andersen/Getty Images)

Literatura,

Uma memória extrassoviética 

Relatos de Nina Berbérova atravessam o longo século 20 recontando a história literária da emigração russa

09abr2026 • Atualizado em: 10abr2026

Podem memórias literárias servir como micro-história? O conceito, cunhado em meados dos anos 1970 pelos historiadores italianos Carlo Ginzburg, Giovanni Levi e Edoardo Grendi, implica uma abordagem que reduz a escala de observação: em vez de investigar nações, guerras ou líderes, como faz a chamada macro-história, o foco da micro-história recai sobre uma vila, um evento menor ou um indivíduo que reflete o todo. 

Para O queijo e os vermes (1976), por exemplo, Ginzburg debruçou-se durante anos sobre documentos da Inquisição, vindo a tropeçar em dois processos contra o moleiro que inspirou seu protagonista. Via de regra, é um terceiro, portanto, quem desenha a micro-história, conferindo-lhe o máximo de objetividade, motivo pelo qual a priori descarta-se a possibilidade de empregar as memórias na micro-história, consideradas sempre falhas em algum grau, pois dependem da capacidade do autor de recordar.

Apesar da primeira pessoa e de quaisquer lapsos subjetivantes, Os itálicos são meus, de Nina Berbérova, livro de memórias de 1969 só agora publicado no Brasil, parece uma verdadeira micro-história literária e global do longo século 20. A volumosa edição, de setecentas páginas, cobre quase setenta anos da vida da autora, contada também em trechos selecionados de diários.

Nina Berbérova na década de 1930 (Reprodução)

Os fatos por ela narrados remontam a variados eventos da história mundial: desde a Primeira Guerra, a Revolução Russa e a Segunda Guerra, passando pela formação dos grupos terroristas (como ela define) sionistas Irgun e Haganá, até os anos 60. Seus pontos de observação e de participação também são variados: São Petersburgo, Moscou, o interior da Armênia, Heringsdorf, Berlim, Sorrento, Paris, Nova York, Kansas.

Que dizer, então, das personagens com quem Berbérova mantinha amizade? São escritores como Maksim Górki, Vladímir Nabókov, o Nobel Ivan Búnin, o ministro social-democrata Aleksandr Kiérenski, o poeta (e seu primeiro marido) Vladisláv Khodassiévitch, a poeta Anna Akhmátova, o eslavista Roman Jakobson.

A autora chegou aos EUA aos cinquenta anos, sem falar inglês, com duas malas e 25 dólares no bolso

E não é que seus caminhos tenham, vez ou outra, se cruzado: representantes das mais variadas linhagens políticas e ideológicas, pensadores, pintores — todos frequentavam sua casa. Com vários deles, como Górki, ela chegou a viver junto, um fenômeno proporcionado pela frágil natureza dos refugiados no exterior, em meio a guerras e perseguições. Suas vidas, seus dramas, os sapatos e roupas furados misturavam-se à existência de uns poucos mecenas da emigração russa que continuavam a promover saraus e leituras e arrecadar fundos para os periódicos.

Trata-se de intelectuais que tinham sido expulsos da União Soviética nos chamados Navios dos Filósofos — dissidentes que se autoexilaram na primeira onda de emigração russa (1918-40). São escritores que se formaram já no exílio, partidários do “Essér” (SR, Partido Social-Revolucionário), mas não necessariamente monarquistas — estes ela parecia abominar.   

Naquele tempo, em todo o mundo ocidental, não havia nenhum escritor de destaque que estivesse “a nosso favor”, ou seja, que levantasse a voz contra a perseguição da intelligentsia na URSS, contra a repressão, contra a censura soviética, as prisões, os processos, o fechamento de revistas, contra a lei de ferro do Realismo Socialista, cuja desobediência resultava no extermínio de escritores russos. 

Poeta

Berbérova nasceu em 1901, em uma abastada família de pai armênio e mãe russa, em São Petersburgo, então capital do país. Ali, rodeada pela alta sociedade, fazendo viagens esporádicas à Europa criança, soube, desde cedo, por que viera ao mundo: queria ser poeta. 

Na infância, considerou sete profissões até chegar à poesia: acrobata (desistiu depois de alguns dias), cientista natural (buscou amebas em tanques de água), folclorista (tentou anotar canções populares durante a ordenha de vacas), médica (desistiu depois de observar o avô examinando os pacientes), professora de aldeia (inspirada nas filhas do sacerdote local), agricultora (para seguir o exemplo de Tolstói) e construtora.

Nina Berberova com o marido, o escritor Vladislav Felicianovič Chodasevič, em Sorrento, 1925 (Reprodução)

Foi poeta, como planejara. Mas não só. Quando participou da segunda onda de emigração russa (1940-50), já em seu destino final, os Estados Unidos, Berbérova exerceu mais sete profissões em sete anos: locutora em uma rádio russa, operadora de adressógrafo (a hoje impensável máquina de preencher endereços em envelopes), datilógrafa, costureira, figurante de cinema (atuou em três filmes), secretária e escritora. 

A autora chegou aos EUA aos cinquenta anos, sem falar inglês, com duas malas e 25 dólares no bolso. Apesar da fluência em alemão, francês, russo e norueguês, era um verdadeiro desafio ser escritora sem dominar a língua local. O plot twist viria alguns anos depois. Mas o leitor terá que descobrir o final destinado a Berbérova em sua literatura extrassoviética, como chamava o escritor da terceira onda de emigração russa Vassíli Aksiónov. “Eu diria que a verdadeira e única literatura russa não é nem soviética, nem antissoviética, mas uma literatura extrassoviética!”, escreveu. 

Retomo a pergunta com que abro este texto respondendo-a com outra: se até as fotografias mentem, como já escreveu Peter Burke em “Como confiar em fotografias”, por que o caminho inverso não seria possível? Pode uma montagem dizer a verdade ou uma memória não constituir um embuste, mas uma micro-história?

Quem escreveu esse texto

Marina Darmaros

É Ph.D. em literatura e cultura russa pela USP. Traduziu Dostoiévski e o existencialismo, de Víktor Eroféiev (Kalinka).

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