Literatura,
De guerra não se fala?
Capturado pelos nazistas na Segunda Guerra, o escritor norte-americano narra tragédias com pacifismo e ironia
30mar2026 • Atualizado em: 07abr2026 | Edição #104Logo no início de The Post (2017), filme de Steven Spielberg, quando a missão trazendo Robert McNamara chega do Vietnã, Daniel Ellsberg, funcionário do Pentágono que trabalhava na coleta de dados sobre o conflito, ouve o secretário da Defesa de Richard Nixon desmentir a jornalistas aquilo que ele lhe informara em pleno voo: que a guerra era um caso perdido para os Estados Unidos. Não muito depois, o funcionário foi responsável pelo vazamento de documentos do Pentágono que iniciou a derrocada do presidente e levou ao fim da guerra.
Kurt Vonnegut, como Ellsberg, tornou-se pacifista por ter pisado no campo de batalha. Também por não suportar as mentiras propagadas pelos políticos norte-americanos para sustentar a insustentável Guerra do Vietnã. Na impossibilidade, enfrentada durante anos, de descrever sua própria experiência na Segunda Guerra — como sobrevivente do bombardeamento da cidade alemã de Dresden, em 13 de fevereiro de 1945 —, decidiu apelar à imaginação e à ironia. Quem sabe, dizendo o que tinha vivido só que ao contrário, de maneira indireta e “mentirosa”, ele não atingiria a verdade evitada pela política?
Matadouro-Cinco chegou às livrarias originalmente em 31 de março de 1969 e volta a ser editado por aqui, em tradução de Daniel Pellizzari. Exigiu cerca de quinze anos de trabalho de seu autor, que escreveu umas 5 mil páginas e jogou todas fora. O resultado final foi “tão curto, tão confuso, tão desarmônico”, menciona o autor a seu editor Seymour Lawrence no começo do livro, “porque nada de inteligente pode ser dito sobre um massacre. Todos devem estar mortos, sem nunca mais dizer ou querer nada”.
Aos 22 anos, Vonnegut era um prisioneiro de guerra dos nazistas na formidável Dresden, a “Florença do Elba”, cidade até então intocada pela destruição da guerra, quando a aviação britânica decidiu varrer do mapa, com bombas incendiárias, suas lindas igrejas, museus e fábricas de cerveja. O jovem soldado de infantaria sobreviveu, ao lado de seis colegas, abrigando-se no subterrâneo do matadouro onde estava preso. Quando saíram de lá, Dresden não existia mais e cerca de 135 mil habitantes estavam mortos. Até a liberação efetuada pelos soviéticos no final da guerra, o soldado Vonnegut e seus companheiros trabalharam sob ordens dos captores no recolhimento de cadáveres.
A Guerra do Vietnã o libertou, pois tornou os motivos norte-americanos sórdidos e estúpidos
Em Mãe Noite, romance de 1961, que antecedeu Matadouro-Cinco e é lançado agora no Brasil, em tradução de André Czarnobai, o protagonista e narrador Howard W. Campbell Jr. trava um diálogo que remete à experiência de Vonnegut em Dresden. Campbell está preso em Jerusalém, à espera de seu julgamento como criminoso de guerra nazista, e troca algumas palavras com o carcereiro, Andor Gutman, judeu estoniano que passou dois anos em Auschwitz. Gutman conta que acabara de ser encaminhado para o Sonderkommando (“destacamento especial”), quando chegou a ordem de Himmler para desativar os fornos. Campbell relata:
Em Auschwitz, esse era, de fato, um destacamento muito especial, composto por prisioneiros cujas obrigações incluíam conduzir os condenados até as câmaras de gás e, em seguida, remover os corpos. Quando terminavam o trabalho, os próprios membros do Sonderkommando eram executados. A primeira tarefa dos sucessores era descartar os restos mortais.
Mais Lidas
Na sequência da conversa, Gutman revela que ouviu por dois anos o anúncio de convocação do Sonderkommando, sempre melodioso, como se fosse uma cantiga de ninar. “Carregadores de corpos, apresentem-se diante da guarita”, repetia a ladainha nos alto-falantes. Depois de um tempo, aquela chamada passou a soar como um excelente trabalho e ele se voluntariou. Ao ouvir de Campbell um burocrático “Entendo” como comentário, Gutman conclui dizendo que ele próprio não entende e nunca mais voltará a falar do assunto.
Mãe Noite é o título em que Vonnegut substitui as narrativas de ficção científica com engenhocas e foguetes, pelas quais era conhecido desde os anos 50, por romances nos quais aplica seu estilo quase falado, marcado pela descomplicação textual e pela liberdade na fabulação — sátiras que não hesitam em rir da miséria humana sem abrir mão de uma dura mordacidade.
Moral
No livro de memórias Um homem sem pátria (Record, 2006, tradução de Roberto Muggiati), o autor norte-americano, descendente de alemães e nascido em Indianápolis, em 1922, recordando Hemingway e a dificuldade de ex-combatentes para falar sobre a experiência no front, pondera que a melhor maneira de contar sua história de guerra é não contá-la.
No entanto, a Guerra do Vietnã o libertou, a ele e a outros escritores, pois fez a liderança e os motivos norte-americanos, basicamente imperialistas, parecerem sórdidos e estúpidos.
Podíamos finalmente falar sobre maldades que praticamos contra as piores pessoas possíveis, os nazistas. E o que eu vi, o que tinha a relatar, fazia a guerra parecer muito feia. Sabem, a verdade pode ser uma coisa realmente poderosa. Não é algo que se espera. Claro, outra razão para não falar da guerra é que ela é inexprimível.
Entre suas histórias, Vonnegut defende que a única a ter uma moral evidente é Mãe Noite, cujo narrador — Campbell, ex-radialista e propagandista nazista, filho de norte-americanos, porém nascido e criado na Alemanha, onde se torna útil ferramenta de difusão dos propósitos de Goebbels — vive situação mais que ambígua. No cárcere em Jerusalém, ele escreve suas memórias e aguarda o julgamento por seus crimes, mas também a revelação de que era um espião, tendo enviado aos aliados importantes informações codificadas nas transmissões radiofônicas, o que mudaria seu destino. Enquanto as duas cartadas não chegam, rememora a vida e se vê diante do imperativo moral: “nós somos o que fingimos ser, de modo que devemos ter cuidado com o que fingimos ser”.
O dilema de Campbell havia sido inculcado nele por seu sogro, chefe de polícia em Berlim, na iminência da invasão russa. Enquanto se despediam, o sogro lhe disse que
todas as opiniões que eu tenho agora, que me eximem da vergonha de qualquer coisa que eu possa ter sentido ou feito enquanto nazista, não vieram de Hitler, nem de Goebbels, nem de Himmler… mas de você. Você, sozinho, me impediu de chegar à conclusão de que a Alemanha havia enlouquecido.
As cenas que se seguem, flagrantes do fim da guerra e da derrota alemã, despertam uma reação curiosa de empatia com personagens que, apesar de o leitor saber o que representam, ou talvez por isso mesmo, em consequência do reconhecimento do papel ambíguo deles na tragédia, filtrados pelo olhar compassivo de Campbell, evoluem ao desconforto. Campbell, a despeito de falar de nazistas, do “Carrasco de Berlim” (seu sogro), fala de amizade, camaradagem, lealdade e, principalmente, do seu amor por Helga Noth. Sua visão íntima mostra a humanidade sob aspectos que, naquele contexto, não parecem possíveis.
Acontece
O substrato de Mãe Noite antecipa o pacifismo de Matadouro-Cinco, que gera comoção pela reiteração de uma expressão, repetida 106 vezes no livro, “É assim mesmo” (no original, “So it goes”, ou “Coisas da vida”, na tradução de Cássia Zanon, da L± talvez a tradução mais fiel em lingua brasilis seja um sintético “Acontece”), transmitindo pessimismo, resignação, aquiescência e uma brutal continuidade — potencializada pela repetição irônica da expressão, usada como contraponto nas situações violentas e cômicas, num livro que pertence à família antibelicista de Catch-22, de Joseph Heller, e Um estranho no ninho, de Ken Kesey.
No início de 1968, um grupo de optometristas, entre eles Billy, fretou um avião para uma viagem de Ilium a Montreal, onde seria realizada uma convenção internacional de optometristas. O avião caiu no topo do monte Sugarbush, em Vermont. Todo mundo morreu, menos Billy. É assim mesmo. Enquanto Billy se recuperava em um hospital de Vermont, sua esposa morreu por acidente, intoxicada por monóxido de carbono. É assim mesmo.
Billy Pilgrim é o principal personagem de Matadouro-Cinco. Meio tantã, ele também esteve em Dresden na fatalidade do bombardeio e, mais do que isso, no mesmo matadouro que serviu de abrigo a Vonnegut. Verdade ou ficção, pouco importa, já que todos os personagens de Vonnegut parecem ser alter egos — e Pilgrim não escapa da condição. Billy viaja no tempo, indo e voltando conforme sua mente determina, e assim Vonnegut vai aproveitando a peculiar capacidade do alter ego para contar a história de Dresden entremeada à de Billy (que envolve diversos veteranos do exército e até Kilgore Trout, escritor de ficção científica que aparece em outros livros de Vonnegut, além de se parecer muitíssimo com ele próprio). Como se não bastasse, Pilgrim foi abduzido por alienígenas do planeta Tralfamadore, cuja desencantada sabedoria serve como divertido contraste às mazelas humanas.
Verdade ou ficção, pouco importa, já que todos os personagens de Vonnegut são alter egos
Kurt Vonnegut, de maneira semelhante a um de seus ídolos, Louis-Ferdinand Céline, não teme mostrar a guerra como mais um aspecto ridículo da humanidade. Para isso, não hesita em usar um sentimentalismo à beira do piegas em Mãe Noite ou abusar de humor negríssimo em Matadouro-Cinco, fazendo piada do horror das chacinas e injetando doses fartas de fantasia na realidade insuportável da guerra. Resta saber como sua risonha abordagem de temas tão trágicos será recebida pelos leitores brasileiros da atualidade, tão avessos à heterodoxia.
Morreu em 2007 e, para sua felicidade, não testemunhou a chegada de Trump ao poder. Infelizes dos seus leitores, que nunca saberemos o que Kilgore Trout diria sobre uma era em que a paz no mundo é decidida em bravatas e declarações, feitas via X, de um governante saído de uma comédia pastelão infernal e que, diferentemente de Nixon e mais parecido ao que faz o próprio Vonnegut nos livros, diz a verdade do modo mais brutal. Bem, é assim mesmo. Coisas da vida. Acontece.
CORREÇÃO > Mãe noite, de Kurt Vonnegut, já tinha sido traduzido no Brasil em 1971, pela editora Artenova, em tradução de Hindemburgo Dobal, com o título O espião americano. Uma versão anterior desse texto dizia que a tradução era inédita.
Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026. Com o título “De guerra não se fala?”
Porque você leu Literatura
Em defesa do enigma
Revisitando um de seus primeiros livros, Detetives de pelúcia, Andréa del Fuego atesta que a infância começa onde nasce o mistério
JULHO, 2026
Chegou a hora de
fazer a sua assinatura
Já é assinante? Acesse sua conta.
Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.
Há nove anos nutrindo leitores onívoros!
Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil
Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.
Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.
Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.
