Desenho da série Poor Richard (1971), de Philip Guston (The Estate of Philip Guston/The Guston Foundation)

Crítica Cultural,

Olho por olho

Em desenhos e romance inédito no Brasil, Philip Guston e Philip Roth retribuíram, com o grotesco, a hipocrisia e o horror dos anos Nixon

12mar2026 • Atualizado em: 11mar2026 | Edição #104

Em 1º de abril de 1971, Richard Nixon determinou que o tenente William Calley, único condenado pelo massacre que matou mais de quinhentos vietnamitas em My Lai, cumprisse, em regime domiciliar, a pena de prisão perpétua anunciada na véspera. Dois dias depois, fez um contrito discurso sobre o aborto, condenado por ser incompatível com sua “crença pessoal na santidade da vida humana”. Como bem sabemos de memória recente, tiranos não nascem prontos: eles se tornam o que são pela combinação de leves e robustas ilicitudes e de maior ou menor tolerância a elas. O pronunciamento do presidente norte-americano — involuntária celebração do Dia da Mentira — foi a gota d’água para dois artistas que, já exasperados, tinham partido para um exílio em Woodstock, a 160 quilômetros da crepitante fogueira das vaidades nova-iorquina. 

Philip Guston instalou seu ateliê na Maverick Road em 1967, dois anos antes do festival que inscreveria a região na história da contracultura. Lá, travava uma luta dramática com a própria obra. Tido como expoente do “expressionismo abstrato” que consagrou Jackson Pollock e Willem de Kooning, o pintor voltava à figuração em que se formou. “Toda essa pureza me cansou e adoeceu”, comentaria ele sobre os decisivos anos de abstracionismo. “Eu quero contar histórias.” O retorno se dava por caminhos pouco iluminados: a partir de 1968, suas telas começavam a ser povoadas por objetos solitários, ambientes desolados e incômodas figuras humanas a que ele chamava little bastards, flagradas em cenas cotidianas ostentando os capuzes pontudos da Ku Klux Klan. Em The Studio (1969), um clássico retrato do artista em seu lugar de trabalho, quem está diante do cavalete é o klansman, fumando e trabalhando num autorretrato.

The Studio (1969), de Philip Guston (The Estate of Philip Guston/Genevieve Hanson/Cortesia de Hauser & Wirth)

Outro Philip, o Roth, preferiu o isolamento ali perto, com vista para as Catskills Mountains, para fugir dos insultos desencadeados pelo megassucesso de O complexo de Portnoy. Chegou na região em 1969, pouco depois do lançamento do romance, e logo ficaria amigo do pintor vinte anos mais velho. Guston lhe parecia “um político israelense da velha guarda”.

As obras dos dois confluem num corpo a corpo violento com a vida norte-americana dos anos 60/70

A exposição Philip Guston: a ironia da história, que entre outubro e março ocupou o Museu Picasso Paris, é uma cápsula do tempo daquele momento em que as obras dos dois confluem num corpo a corpo violento com a vida norte-americana. Os curadores Didier Ottinger e Joanne Snrech reuniram, no térreo e no subsolo do Hôtel Salé (a magnífica mansão do século 17 no meio do Marais), os Nixon Drawings, série motivada por Our Gang, a sátira selvagem que Roth publicou naquele ano e ainda aguarda tradução para o português. Em torno dos 73 desenhos, escolhidos por Guston entre os mais de duzentos que realizou, foram dispostas obras anteriores e posteriores àquele momento.

Telas e desenhos de Picasso também sugerem relações possíveis entre os dois artistas. “Picasso, o construtor, repovoou o planeta — inventando novos seres”, anotou Guston. Num dos ensaios do catálogo, Joanne Snrech aponta a importância do grotesco em diversos níveis da obra de Picasso — das águas-fortes Sonho e mentira de Franco (1937), realizadas em enfrentamento aberto ao ditador espanhol, a La pisseuse (1965), óleo em que uma mulher é retratada inteiramente nua, de pé, pernas abertas, urinando na areia.

Atualidade

Numa apreciação impregnada de senso comum, tanto os Nixon Drawings quanto o livro de Roth chegaram a ser descartados como “datados”. Só faltou combinar com a história. Afinal, aquele momento norte-americano, em sua combinação de guerra neocolonial, hipocrisia moral e corrupção, lança uma sombra assustadora sobre o que vivemos hoje. Se é simplificador sustentar que Guston e Roth “previram” Donald Trump, o fascista, não se pode negar que o infame inquilino da Casa Branca tenha conferido sinistra atualidade ao que se viu na mostra e se expande no catálogo publicado pela Gallimard.

“Eu estava muito incomodado com a política do país como um todo e especialmente com o governo e comecei a desenhar personagens de cartum”, contaria Guston em 1973, quando mostrou os Nixon Drawings em público pela primeira vez. “Ao longo de meses, fiz centenas de desenhos, que acabaram se organizando como uma espécie de história.” Além de Nixon, transfigurado num bizarro pênis antropomórfico, são personagens o vice Spiro Agnew (“o cabeçudo”), o procurador-geral John H. Mitchell e, é claro, o infalível Henry Kissinger, o nefasto secretário de Estado que Guston retrata de forma sintética: “basicamente como um par de óculos”.

Poor Richard 10 (1971), de Philip Guston (The Estate of Philip Guston/The Guston Foundation)

As cenas grotescas foram a reação de Guston à primeira leitura dos originais de Our Gang, título que remete tanto às delinquências de Washington quanto à popular série de televisão criada por Hal Roach — protagonizado por crianças fantasiadas de adulto, o programa ficou conhecido no Brasil como Os batutinhas. Ultrajado pelas atitudes e declarações do 37º presidente dos EUA, Philip Roth ofereceu ao New York Times um texto violento, que o jornal recusou por considerar “de mau gosto”. Furioso, conforme narra Barbara Sproul, a namorada com quem vivia em Woodstock, Roth começou a trabalhar compulsivamente. Espancava a máquina de escrever e praguejava: “Vocês vão ver o que é mau gosto”.

Antes de virar livro, a ameaça se cumpriu na New York Review of Books, tribuna então privilegiada para intelectuais públicos. Na edição de 6 de maio de 1971, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa (ainda do mesmo lado), Marguerite Duras e Hans Magnus Enzensberger estão entre os signatários de uma carta aberta a Fidel Castro pela prisão de Heberto Padilla, poeta que se tornaria um dos mais notórios dissidentes cubanos. Na mesma seção, que dá conta da correspondência dos leitores, Robert Lowell, um dos gigantes da poesia do século passado, comenta o abrandamento da pena do tenente Calley: “talvez, dentro de um século, ninguém mais se espante com um massacre e apenas corpos despedaçados expressem uma derradeira e teatral preocupação com a morte”.

O autor espancava a máquina de escrever e praguejava: ‘Vocês vão ver o que é mau gosto’

Roth é bem menos polido em “Conversa imaginária com nosso líder”, primeira versão do capítulo de abertura de Our Gang, que se estrutura em diálogos, discursos e monólogos. Nessa primeira conversa, o presidente Tricky Dixon, que termina assassinado, no inferno, consola um “cidadão perturbado”, interessado no seu compromisso com a “santidade da vida humana”. Ao ser responsabilizado pela morte de 22 civis vietnamitas, argumenta o eleitor, o tenente não poderia ter cometido um “aborto” ao assassinar uma mulher grávida? Dixon, que, assim como o personagem que o inspira, só pensa em reeleição, não se abala. Faz questão de se declarar um líder magnânimo, a ponto de abrir mão de medidas “mais populares”, ou seja, o indiciamento dos 22 civis desarmados por botar em risco a vida do militar invasor.

No segundo capítulo, Dixon concede uma entrevista coletiva que vale só pela lista de nomes dos repórteres: Mr. Asslick (Baba-Ovo), Mr. Daring (Atrevido), Mr. Respectful (Respeitoso), Mr. Shrewd (Sagaz), Miss Charmin’ (Charmosa), Mr. Practical (Prático), Mr. Catch-Me-In-A–Contradiction (Me-Pega-em-Contradição), Mr. Fascinated (Fascinado), Mr. Reasonable (Razoável) e Mr. Hardnose (Certinho). O senhor Baba-Ovo abre a conversa com uma comparação infame do discurso antiaborto com a luta pelos direitos civis: “para muita gente o senhor está para os nascituros como Martin Luther King para a população negra da América”. O presidente comenta, desenvolto: 

Atuando de acordo com a Constituição, acho que poderei fazer muito mais pelos que ainda não nasceram de toda a nação do que o Dr. King, que não respeitou a Constituição, beneficiou os já nascidos e todos de uma só raça. 

Sim, Dixon se gabava de jogar dentro das “quatro linhas” da Constituição. 

Justiça paródica

A agressividade e a “sujeira” dos desenhos e do romance — Roth lembraria que se trata de reciprocidade da arte em relação ao real, falando em “retribuição satírica” e “justiça paródica” — não seriam bem assimiladas pelo establishment. A virada figurativa de Guston — que começa antes dos Nixon Drawings e se estende até sua morte, em 1980 — seria desdenhada tanto pelos galeristas (por seu aspecto pouco ou nada comercial) quanto pela crítica. Para Harold Rosenberg, o pintor “arriscou uma carreira bem consolidada no plano artístico para que exista uma arte engajada na realidade política”. Poor Richard, o livro que reuniria os desenhos, não encontrou editor. Só seria publicado em 2001.

The Street (1977), de Philip Guston (The Estate of Philip Guston/The Metropolitan Museum of Art)

Apesar da reticência inicial da Random House, Our Gang pegou carona na reputação controversa de Roth e ficou quatro meses nas listas de mais vendidos. Sempre citada, a crítica de Dwight MacDonald, um dos luminares dos “intelectuais nova-iorquinos”, resume bem a ambiguidade provocada pelo livro: “inverossímil, injusto, vulgar, perturbador, lógico, grosseiro e muito engraçado” — “em suma, uma obra-prima”. O tempo histórico, que, visto retrospectivamente, parecia correr em desabalada carreira nos anos 70, se encarregaria ainda de dois relançamentos especiais do romance: a edição “Watergate”, de 1973, e a edição “pré-impeachment”, publicada no ano seguinte, ambas com novos prefácios do autor. 

Numa entrevista à The Atlantic publicada no final de 1971, Roth demonstra total consciência do sentido e da função de Our Gang: 

A sátira política não é um tipo de escrita que perdura. Embora […] trate de problemas sociais e políticos duradouros, seu apelo cômico reside no uso que faz da situação do momento. É improvável que, ao ler a melhor obra satírica de outra época, sintamos algo parecido com o júbilo ou a indignação experimentados pelo público contemporâneo dela.

Philip Guston: a ironia da história é mais importante para a fortuna crítica do pintor do que para a posteridade de Roth, esta bem consolidada. Em 2020, uma retrospectiva chegou a ser cancelada em museus dos EUA e na Tate Modern, em Londres, por alegadas ambiguidades no posicionamento antirracista do pintor, sobretudo devido às alusões visuais à KKK — a mostra Philip Guston Now seria realizada sem problemas em 2024. Além das discussões propostas no catálogo, sua obra é tema de Le tribunal de l’art: Philip Guston et l’antifascisme américain (O tribunal da arte: Philip Guston e o antifascismo americano), ensaio do crítico Christian Joschke lançado na França em fevereiro. Não li o livro, mas seu título aponta inequivocamente para a reconexão de Guston com uma das questões essenciais de nossos tempos: a da responsabilidade crítica do artista frente aos desmandos do poder. 

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026.